Um edit simples circulou: de um lado, o tom quase impiedoso, com que Leifert analisa Marta, a maior jogadora da história do futebol feminino, seis vezes Bola de Ouro. Do outro, o colo protetor, quase paternal, que ele reserva a Neymar, talento inegável, mas também um histórico de polêmicas extracampo que nunca recebe a mesma lâmina técnica.
Ontem ele surtou. Ao vivo. Histeria destemperada, tom elevado, defesa visceral. Exatamente o tipo de reação que, se viesse de uma mulher, seria imediatamente desqualificada: “histérica”, “emocional demais”, “não aguenta pressão”, “não tem estofo pra isso”. Pois é. O mesmo homem que cobra profissionalismo do futebol feminino não suportou um espelho.
E aí vem a pergunta: Tiago, se a régua é a mesma, por que Marta leva o peso todo e Neymar leva o colo?
O centro do problema não é “cancelar” Leifert. É expor a contradição estrutural que ele encarnou em poucos minutos de live. Ele tem razão quando diz que o futebol feminino precisa de cobrança séria, sem superproteção infantilizante. O problema é que essa cobrança, quando aplicada a mulheres, não apenas no futebol, costuma vir acompanhada de uma exigência extra : ser cinco vezes melhor sem ter o direito de errar. Enquanto o erro do homem ainda recebe contexto, narrativa, defesa apaixonada.
Marta não teve margem de erro durante anos. Neymar sempre teve. A régua tem que ser idêntica. Erro técnico é erro técnico. Falta de entrega é falta de entrega.
A incoerência de Leifert não desqualifica a necessidade de exigência. Ela desqualifica o discurso de igualdade que ainda opera com régua torta. Enquanto o tom, a tolerância e a compreensão mudam conforme o gênero, estamos falando de misoginia vestida de análise técnica.
Marta já provou. Há décadas. O que falta provar é se quem cobra tanto dela aguenta a própria régua quando o espelho aponta para si.
Igualdade tem que cortar para os dois lados. Para todos. Sem colo. Sem peso extra. Sem surto quando o edit chega.
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@saragabi_