Posted On: May 5th 2026, 07:02 pm
Chama-se Altino Augusto Neno. A sua vida, como ele próprio diz, "dá um romance". A sua história é feita de terras e águas distantes, começando nas securas de Trás-os-Montes, onde a infância foi marcada pela fome. Recorda, com uma memória que não esquece o sabor da necessidade, os tempos em que "uma mãe muito amei na teta da cabra para matar a fome". Foi essa miséria que o lançou ao mundo. Em busca de um futuro, partiu para Angola. E, num daqueles volteares do destino, o miúdo transmontano que passara fome encontrou-se subitamente num "berço de ouro". O romance da sua vida em África terminou abruptamente com o turbilhão de 1975. Como quase todos os retornados, ele e a família regressaram a Portugal. Deixou para trás uma casa que mandou construir, agora ocupada, um símbolo de uma vida passada à qual gostaria de voltar para visitar, mas só se fosse "com escolta". A ferida da perda e do desenraizamento ainda está lá.
De regresso a Portugal, aterrou primeiro em Coimbra, mas foi no litoral que encontrou o seu porto de abrigo final: Mira. Há cerca de uma década que trabalha com o Paulo, do Sr. dos Aflitos, na pesca. Apesar de afirmar que "hoje não precisa" deste trabalho, a pesca é uma ocupação que o preenche. Gosta da azáfama, de "picar" o peixe, e tornou-se uma figura conhecida na praia, onde as pessoas lhe perguntam "como é que você faz", tiram fotos e filmam o seu trabalho.
Apesar do gosto pelo ofício, a vida de pescador é "muito dura, muito ingrata". Levanta-se às seis da manhã e o trabalho é de paciência e espera, dependente dos outros e dos caprichos do mar.
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