Em muitas democracias, a imigração tornou-se uma das linguagens políticas mais eficazes do medo. O paradoxo é evidente. Muitos dos países que se desenvolveram graças à imigração agora tratam a imigração como ameaça.
Escrevi este texto, publicado na revista piauí, também a partir de uma leitura do livro The Hypomanic Edge, de John Gartner, que propõe uma hipótese provocadora: parte da excepcionalidade americana teria vindo de um processo histórico de autosseleção psicológica.
Ao longo de gerações, migraram para os Estados Unidos pessoas dispostas a romper com a vida conhecida, atravessar oceanos, correr riscos, aprender outra língua, trabalhar mais, começar de novo. Nem todos eram gênios, nem todos eram empreendedores. Muitos apenas tentavam sobreviver. Mas havia, no gesto de partir, uma recusa mínima da resignação.
Essa inquietação, multiplicada por milhões de histórias individuais, ajudou a formar sociedades inteiras. O problema é que, em sociedades assustadas, o estrangeiro deixa de ser possibilidade para tornar-se ameaça.
No artigo, procuro refletir sobre esse impulso anti-imigração do nosso tempo: das primeiras diásporas humanas à tentação contemporânea de fechar fronteiras; dos Estados Unidos à Europa; da demografia ao medo; e também sobre o Brasil, país formado por chegadas, fugas, travessias, migrações internas e misturas.
A questão central talvez não seja escolher entre abertura irrestrita e fechamento defensivo. É saber se os Estados ainda são capazes de transformar o movimento humano em força coletiva. Ou se responderemos, de novo, com o reflexo regressivo do medo.
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