Posted On: September 10th 2026, 08:02 pm
hoje é meu aniversário de vinte e três anos e há onze dias eu perdi a maior parte de mim, vovó.
um tempo atrás, vi uma reflexão da Ana Clara Pecis, no História Guardada (@historiaguardada), sobre registros. sobre essa necessidade que a gente tem de deixar vestígios ou rastros de que esteve aqui, de se projetar no futuro através do passado. e são muitas as formas de fazê-lo: pela escrita, pela fotografia, pela pintura e, com a integração do nosso mundo ao digital, agora também pelas redes. quais famílias tiveram direito ao registro? quais histórias você quer guardar? são algumas perguntas que a Ana traz.
eu quero guardar a nossa, vó. é por isso que escrevo.
quando criança, eu costumava bisbilhotar as coisas de vovó através dos registros que ela tinha de sua vida. fotos, cartas, livros, CDs, DVDs, cadernos... era toda uma vida que eu descobria a cada achado. retalhos que, juntos, formavam uma história e abriam novas - ela sempre brigava com a bagunça que eu fazia, mas eu era intrometida. ainda sou, na verdade.
no fundo desse cenário, eu escutava sua voz. cantando. Luz Divina, Jesus Cristo, O Portão, Nossa Senhora, O Divã são alguns dos títulos de seu Rei que compunham a trilha sonora de nossa vida. músicas que transitam entre o divino, o amor e a memória. e, apesar de eu ser mais Tim Maia nessa briga - gritando pra todo mundo que Manoel Jacinto era pilantra e comia todo mundo -, foram as canções de Roberto Carlos que lhe marcaram em mim, mas não só.
ela costumava segurar minhas mãos com muito gosto e apreço e elogiá-las. dizia que suas mãos já tinham sido como as minhas, mas que o tempo as envelheceu. eu respondia que nossas mãos eram iguais porque realmente eram iguais. são iguais. nossas mãos, nossos cabelos, nossos rostos, nossos olhares, nossos sorrisos, nossos abraços, nossos sonhos. são os mesmos. eu sou toda formada pela minha avó.
(continua ao lado)
no ano passado, quando ela entrou pela porta da sala de defesa do meu tcc, eu lacrimejei. lacrimejei porque, em sua presença, um sonho nosso se realizava, de ser professora. esse era o maior sonho de sua vida que ela só pôde realizar através de mim. e, nos registros desse dia, ficou esse vídeo gravado p
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