D-AURA PARA KIKO DINUCCI | MEDUSA
como um som vira matéria? como uma atmosfera vira roupa? como vestir alguma coisa que, antes de ter forma, era ruído, palavra, luz, referência?
acho que uma das coisas que mais me atravessou no processo de criar os figurinos de medusa com o kiko foi justamente começar por aí.
eu não comecei desenhando roupa. comecei ouvindo.
sentamos para escutar o álbum inteiro. falar sobre o que estava ali. parar em algumas coisas. voltar em outras. cruzar referências e tentar entender que visualidade poderia existir dentro daquele universo.
o sintético. a translucidez. algo holográfico. as luzes quebradas. uma certa estranheza que eu não queria resolver demais.
em algum momento apareceu o nylon.
não exatamente como novidade. ele já está dentro da d-aura, é uma materialidade que pesquiso há algum tempo. a questão era o que fazer com ele para que estivesse ali de outro jeito.
e veio a organza.
a superfície mudou. a luz também. apareceram outras transparências, linhas, possibilidades de construir volume.
daí foi ateliê.
muito teste. coisa que funcionava. coisa que não. sobrepor, cortar, costurar, vestir, voltar. entender como aquelas linhas poderiam se conformar no corpo e como construir algo que, até então, existia mais como sensação.
gosto muito dessa parte.
quando ainda não sei exatamente como uma coisa vai existir, mas já reconheço o que ela não pode deixar de ser.
acho que só entendi algumas dessas escolhas por inteiro quando vi tudo no corpo do kiko e de podeserdesligado. com a luz. o volume do som. o movimento.
e no pompeia.
o kiko falou durante o show sobre o que significava apresentar medusa ali. e isso ficou comigo também.
tenho uma felicidade enorme de ter participado desse processo. não só pelo resultado. talvez principalmente pelo jeito como aconteceu.
começar ouvindo. pesquisar. testar. não saber por um tempo. e deixar a roupa aparecer daí.
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