BAQUIM
-machado x de Jesus
Lelé, meu amor, Lelé
(Lelé, meu amor, Lelé)
No cabo da minha enxada não conheço coroné!
No cabo da minha enxada não conheço coroné!
Eu quero, mas não quero (camarão) - Jorge Portugal e Raimundo Sodré
Quem vem ali, é um camarada de cabelo crespo
pintado pela poeira do tempo feroz, coberto com um boné.
Sua pele parda cobre o espelho da alma.
Ele fuma o pacaia feito com a seda de dias melhores;
apertando com seus lábios grossos que chega a sapecar sua barba falhada.
Solta a fumaça e traga a saudade de quando corria com a perna esquerda atrás da bola de couro,
com os pés descalços nas sombras da chuteira do Galinho.
Do pênalti que não teve forças pra ser gol,
Do sonho de ser jogador que ficou adormecido.
Com a camisa 10 suada do cansaço da vida, ele torce ouvindo o rubro - negro
Num rádio de bateria jogar.
Seu facão bateu em baixo, a cana caiu, feitô.
Quem vem lá não sou eu!
Quem vem ali, é meu pai - me sacudi.
Vem contando os passos com os pés que Deus lhe deu e o labor achou de rachar.
Seu assovio ouvi desde a porteira.
A ausência arranhou seu pobre coração.
Ele vem da cozinha com o prato amassando a comida com a mão.
O amanhã que vem, vem ali, Baquim;
sem identidade, sem fotografia o terceiro (geração ) a ser livre da escravidão.
Nele, não há beleza que venha o seduzir.
São José ao vê-lo, diz: Me benzi.
Baquim responde: Sai fora, que não sou coisa ruim!
Desde que o samba é samba é assim .
Seu pai foi peão, sua mãe, se acabou na roça do zoto e no gole da cachaça.
Seus irmãos, alguns a terra, achou por bem enterrar, outro está perdido nos trilhos.
José de Jesus Machado some na estrada o seu rastro,
e a saudade fica acoitada no eito da casa para cutucar seus filhos.
Sua esposa, Maria, que não sabe fazer uma prece, coitada, às suas crianças pegam pra ninar.
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