Posted On: October 20th 2025, 03:48 pm
poema — “ilha dos homens”
como diria Jorge Furtado,
o ser humano se diferencia dos outros animais
por ter o telencéfalo altamente desenvolvido
e a capacidade de armazenar informação,
processá-la,
classificá-la,
e, ainda assim,
escolher ignorá-la.
constroem-se cidades,
erguem-se torres,
inventam-se deuses,
moedas, bandeiras,
e razões para o abate.
o cérebro armazena o universo,
mas esquece o cheiro da terra molhada,
o gosto da fruta madura,
o ritmo do próprio coração.
inventou a medicina —
e também as doenças.
inventou o remédio,
e o preço.
promete cura a quem puder comprá-la.
ai do pobre se adoecer,
sem dinheiro pro pão,
quem dirá pro queijo —
que quase nunca está presente.
inventou o trabalho,
o salário,
o relógio que marca a pressa
e o tempo que não volta.
criou a propriedade,
as fronteiras,
e o medo de perder o que nunca foi seu.
construiu templos,
erigiu deuses de pedra e papel,
chamou de fé o que era controle,
e de milagre, a obediência.
acreditou na liberdade,
mas esqueceu de olhar pros lados —
as correntes agora são invisíveis,
feitas de boleto e wi-fi.
alimentou-se de telas,
de notícias,
de promessas.
morreu de fome de sentido.
e ainda assim,
ergue a cabeça,
dizendo que é racional.
20 de outubro de 2025 — Filosopheus.