Posted On: June 29th 2026, 01:30 pm
Quando eu cheguei ao
@frangentemilano , um dos cozinheiros (são 3, com o chef) ainda estava abrindo os lagostins com uma tesoura. Em 5 minutos, eles estavam à minha frente, servidos crus, com um fiapo de azeite e uma solitária alcaparra sobre cada um. Também vieram dois pãezinhos, um com bresaola (di Carlo Alberto) e outro com pancetta (di Bettella); um tartare de hamachi com pontas de aspargos; três cicale di mare cozidas, só com azeite e salsinha. Isso foi o prelúdio. Um prelúdio que expõe a tranquilidade de um chef que sabe o que tem nas mãos. Para mim, já estava ótimo. Para ele, não.
Seguimos com um prato de camarões com molleja, swiss chard e bottarga de atum; agnolotti de quatro carnes com manteiga e mais bottarga de atum; uma outra massa recheada com ricota e ragu de vitelo muito colagenoso; um pombo mal passado com endívia e pimentão. Esse sou eu jantando numa quinta-feira.
A comida italiana parece fácil de ler: massa com molho, com frutos do mar, polenta com carne, risoto, lasanha, bisteca e milanesa, essas coisas… talvez porque os restaurantes italianos no Brasil costumam dançar em torno da mesma chave, um apanhado de receitas que mapeiam o país inteiro ou, se mais focados, em torno de uma das cozinhas regionais (tipo era o Pettirosso com a cozinha romana ou o Taormina com a siciliana). Mas, para mim, a catarse da comida italiana está em outro espectro: o do produto. Poucos países têm a tranquilidade de sair por aí com uma vara, uma tesoura ou uma enxada, catar dois ingredientes, dar uma bicuda pra cima - onde cair, caiu - e brilhar com força.
A catarse da comida italiana está ali, no Frangente, minha refeição mais plena desta viagem, tocado por um chef da Emilia-Romagna que virou surfista e usa boné para trás, um lugar que te faz lembrar de por que a gente viaja para comer: porque a cicala di mare não tem as manhas de pegar um vôo transatlântico; porque os raros embutidos di Carlo Alberto ou di Bettella preferem ser fatiados por quem fala a língua deles; porque a mortadela e o vitelo do agnolotti fazem questão de ficar por aqui mesmo. A gente viaja para entender o que faz os outros terem saudade de casa. Viajar é um delicioso ato de viralatismo.
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