Posted On: July 7th 2026, 11:55 pm
Pedro Páramo — Juan Rulfo
⭐⭐⭐(3,5/5)
Leitura densa, que exige atenção constante.
O romance não tem apenas um narrador: as perspectivas mudam sem aviso, vozes se entrelaçam, memórias, ecos e fantasmas dividem o mesmo espaço narrativo. O sobrenatural se mistura ao cotidiano sem causar estranhamento nos personagens e, em alguns momentos, a própria confusão beira o cômico. É um livro curto, mas de enorme densidade.
Muitos enxergam em Pedro Páramo uma crítica ao coronelismo mexicano ou às promessas frustradas da Revolução Mexicana. Essa leitura é válida, mas, como católica, encontrei nele outra camada, não propriamente religiosa, mas profundamente humana e universal.
Vejo este romance como um retrato da miséria do homem quando perde a dimensão do transcendente. Em Comala, cada personagem vive fechado em si mesmo, aprisionado pelas próprias memórias, culpas e paixões. Não há abertura para a esperança, para o perdão, para uma vida que transcenda a própria dor.
O padre Rentería talvez seja a figura mais trágica da obra. Esvaziado da graça e da misericórdia, torna-se incapaz de conduzir seu povo ao Logos. Aquele que deveria apontar para a redenção acaba igualmente aprisionado pela culpa, e toda a comunidade permanece imersa em pecados que parecem não encontrar saída.
Para mim, a grande denúncia de Juan Rulfo não é apenas política, é antropológica. É o retrato do que pode se tornar o ser humano quando permanece enraizado na culpa, na imanência e na inércia, esperando que a vida mude sem jamais erguer os olhos para o céu.
Talvez por isso a frase que mais me marcou tenha sido:
“Fazia tantos anos que eu não levantava o rosto que me esqueci do céu.”
Ela sintetiza, com uma beleza dolorosa, a tragédia de Comala: uma humanidade que já não olha para o alto e, por isso, perdeu também a esperança.