A maternidade é uma experiência que reorganizou a forma como eu existo no mundo.
Não tem como não ser. Não só pelo conceito acadêmico, mas pelo chão que eu piso e que tantas pisam, sem que a gente consiga muitas vezes nomear.
Não que a maternidade, por si só, me faça feminista. Mas ela sustenta esse olhar quando nos deparamos tão de perto com este sistema e, com nossas crias no colo, fica ainda mais evidente onde o mundo dói e como o trabalho do cuidado sustenta a vida.
É importante distinguir duas coisas que a gente costuma confundir: a maternidade como instituição (política, capturada, mercantilizada) e a maternidade como experiência (ancestral, corporal, sagrada). A instituição machuca. A experiência resiste. E é ali, entre as duas, que a gente fica.
Foi a maternidade que me ensinou a falar de parto, direitos, amamentação, justiça reprodutiva, como meu corpo está presente no mundo, como cuidam das mulheres e meninas e que políticas públicas ficam tão evidentes nunca terem sido feitas para as mães.
"O pessoal é político", disse Carol Hanisch em 1969. A mulher-mãe, sabe que o pessoal é político no sentido mais brutal e literal do cotidiano, em cada gesto de cuidado. Cada madrugada em claro é mais uma prova concreta sobre como o cuidado sustenta o mundo
E a maternidade vai atravessando a gente politicamente, com ou sem consentimento.
E talvez essa lucidez (dura, encarnada, coletiva) que faz da mãe uma das pensadoras políticas que deveriam ser as mais ouvidas (e as que menos são)
E que me faz acreditar no feminismo matricêntrico como um dos territórios mais férteis pra reinventar o que a democracia deveria significar.
A maternidade não é lugar de silêncio, pelo contrário, é lugar de saber. E o que a gente aprende em pele, em política, em teoria é o que qualquer sociedade decente deveria escutar primeiro.
#maternidade #feminismo