Livro: A História de Lucy Gault
William Trevor
Original: The story of Lucy Gault, 2002
Li este livro muito devagar porque adoro o William Trevor e queria aproveitar cada página .
Tenho pena que não seja um autor muito conhecido por cá. Há poucas edições portuguesas e algumas, como esta, estão esgotadas.
É mais conhecido pelos seus contos (na Irlanda há inclusivamente um prémio com o seu nome para narrativa curta: uma das vencedoras foi a Claire Keegan, confessa admiradora de Trevor).
William Trevor é o escritor das pequenas tragédias íntimas. Nunca há grande ação ou espalhafato, os acontecimentos que narra são domésticos, silenciosos, quase invisíveis. São as tragédias das pessoas comuns que observa com minúcia, afeto e de forma implacável.
Neste livro, acompanhamos Lucy Gault desde a infância até à velhice, observamos como a passagem do tempo atua na protagonista, na sua família e na sociedade Irlandesa, tendo como pano de fundo inicial, a I Grande Guerra Mundial.
Há um acontecimento na infância de Lucy, um mal-entendido que tendo sido desfeito, não teria importância nenhuma mas que acaba por ser determinante na sua vida e nas suas decisões. Passa a vida com culpa, achando que tem uma dívida e quando o tempo a faz ver os acontecimentos de forma diferente, já só há lugar ao arrependimento, à ausência, à solidão.
Há um paralelismo simbólico com Santa Cecília que é por vezes evocada no romance. Lucy acaba por aceitar os factos como eles são e passa da pessoa à procura de perdão para a pessoa que perdoa. A vida trouxe-lhe aceitação.
Quando acabei este livro, fiquei algum tempo a abraçá-lo, comovida.
“Devia ter morrido em criança; sabe-o, mas nunca o disse às freiras, nunca incluiu na sua história os dias que pareceram anos, enquanto esteve deitada entre as pedras caídas. Tê-las-ia deixado tristes, mas deixa-a contente a ela porque, em vez do nada, existe o que existe.”
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