Posted On: October 12th 2026, 04:18 pm
Um dia, você vai precisar encontrar sua criança, acolhê-la e, como adulta, dar a ela aquilo que lhe faltou. Porque, por mais que a gente deseje, não é possível mudar o passado, reescrever a nossa história ou voltar no tempo para proteger aquela menina de tudo o que ela ainda não sabia sobre a vida. Mas conseguimos, sim, ressignificar nossas dores. Às vezes, não consigo entender como ela precisou lidar com determinadas situações, sentir certas dores ou aprender tão cedo coisas que talvez não devesse. Mas hoje eu posso acolhê-la. Posso ouvi-la sem silenciá-la, respeitar seus sentimentos sem diminuí-los e oferecer a ela o cuidado que precisa. Não significa que todas as feridas desapareceram, que tudo foi esquecido ou que você nunca mais sentirá aquela dor antiga. Significa que, aos poucos, você aprende a olhar para a própria história sem precisar continuar vivendo dentro dela. Você aprende que não foi culpada por tudo o que viveu. Que sentir não é fraqueza. Que não precisa justificar a dor para que ela seja legítima. E, se eu pudesse, diria que não precisaríamos ser perfeitas para sermos dignas de amor. Que aprenderíamos a colocar limites, a reconhecer nosso valor e a não aceitar qualquer coisa só para não perder alguém. Mas, acima de tudo, diria que ela não precisava ter pressa para crescer. Ao olhar para nossas filhas, somos confrontadas com a nossa própria infância. Porque existem coisas que ainda lembramos e outras que só agora conseguimos compreender. Elas não vieram para curar nossas feridas, e nós não precisamos que elas sejam diferentes de nós para provar que nossa história terminou de outra forma.
Que a maternidade nos ensine a acolher nossas filhas sem abandonar a menina que fomos. Que a gente consiga oferecer a elas uma infância mais leve sem transformar a nossa em um erro. Que possamos reconhecer o que nos faltou sem deixar de reconhecer também aquilo que recebemos. E que, enquanto ensinamos nossas meninas a se sentirem seguras no mundo, aprendamos a oferecer segurança a nós mesmas. Talvez finalmente nos tornamos o lugar seguro para onde aquela menina sempre quis voltar.
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