Posted On: October 13th 2026, 09:16 pm
O planeta não precisa acabar para a nossa forma de viver entrar em crise.
Sou arqueólogo. Estudo sociedades e sua relação com o território. E uma pergunta passou a me incomodar: quais lugares continuarão oferecendo condições de produzir alimento, ter água e viver com dignidade nas próximas décadas?
Com um grupo de trabalho, comecei a cruzar cenários climáticos, relevo, vegetação, indicadores de água e riscos territoriais. Estamos usando ferramentas de análise espacial e conceitos que também orientam nosso trabalho com a plataforma que desenvolvi. Mas a pesquisa ainda é experimental.
Os fatos já são sérios. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, 2024 ficou 1,55 °C acima da média pré-industrial; 2025, 1,44 °C. Isso não significa que a meta de Paris tenha sido definitivamente ultrapassada: são anos isolados.
No Brasil, o MapBiomas registra a queda da vegetação nativa de 79% do território, em 1985, para 65%, em 2025. Isso tem consequências para o solo, a água, os ecossistemas e a exposição a eventos extremos.
O IPCC é claro: cada aumento adicional do aquecimento amplia os riscos. Não se trata de opinião minha.
Já os nossos mapas são outra coisa: hipóteses para investigar. Regiões elevadas do Sul e da Mantiqueira aparecem como candidatas em determinados cenários. Mas, ao mudar critérios de calor e choque frio, parte do ranking muda também.
Isso nos obrigou a corrigir o próprio estudo. Porque um mapa convincente não prova que um terreno tenha água na seca, solo produtivo ou segurança jurídica. E ninguém consegue afirmar cientificamente que uma propriedade será “segura até 2500”.
Minha visão? Precisamos começar a planejar agora. Não para escolher quem vai se salvar, mas para entender como adaptar cidades, preservar florestas e campos, recuperar solo e água e construir comunidades mais resilientes.
Não é uma defesa de bunker nem uma profecia de colapso. É um convite a olhar o território sem fantasia e sem negacionismo.
Ignorar o problema também é uma escolha. Provavelmente a mais cara.
Fontes: OMM (2025–2026), MapBiomas Coleção 11 (2026), IPCC AR6 (2023). Nossa Terra: pesquisa exploratória, ainda em revisão.
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