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Por mais que fizessem parte da experiência, não foram necessários os binóculos que compunham o convite do desfile da Handred para enxergar que ninguém faz, tampouco vê, como André Namitala.

Tudo começou antes mesmo de a primeira silhueta atravessar o espaço. No dia 16 de outubro, entre a chuva e o calor que pareciam disputar a cidade de São Paulo, Vapor em Curso, coleção de verão da marca carioca, encontrava uma espécie de correspondência meteorológica. Tudo estava em movimento, inclusive aquilo que, à primeira vista, parecia imóvel.

No Teatro Cultura Artística, os tambores japoneses de taiko irromperam como trovões. As batidas reverberavam pelo ambiente, intensificando-se até que, por alguns instantes, esquecêssemos que o desfile estava prestes a começar. O som não acompanhava simplesmente a apresentação: atravessava o corpo, alterava a percepção do tempo e nos colocava dentro de uma experiência cuja dimensão não cabia apenas no olhar. A própria voz de André, ecoando pelo espaço, parecia anunciar que a experiência já estava em curso.

Assim como em Akáshica, Namitala reafirma seu interesse por experiências cenestésicas, nas quais a compreensão de uma obra acontece antes de se organizar em pensamento. Desta vez, a investigação nasce de sua viagem ao Japão, onde as casas de banho tradicionais contribuíram para o conceito da coleção. Durante os dias da sua visita, a água adota diferentes formas sem deixar de ser água. Líquida, sólida, vaporosa, ela é matéria e transformação, presença e desaparecimento. O vapor, estado que batiza a coleção, oferece uma contradição fascinante: podemos senti-lo, perceber seus efeitos e observar a maneira como modifica o ambiente, embora ele próprio escape à apreensão de uma forma estável.

Essa condição se estendia às roupas, cujas silhuetas, cores e construções pareciam escapar a uma narrativa inteiramente linear. Entre volumes robustos e tecidos que quase desapareciam sobre o corpo, a coleção alternava densidade e transparência, rigor e espontaneidade, como se cada composição pertencesse a um instante particular de transformação.

(continuação pelo link da bio)

Fotos: Lucas Sant’ana, Agência Fotosite/Divulgação e Autorais by @__lucianoduarte
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19 hours ago
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fazueli by @__lucianoduarte
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2 days ago
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comida, trabalho, comida, trabalho, comida: by @__lucianoduarte
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25 days ago
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Na moda, as flores estão mais vivas do que nunca.

Se The Row, Loro Piana e Khaite ajudaram a definir o índice de desejo da moda durante os anos do quiet luxury, especialmente entre 2023 e 2024, hoje o domínio dessa estética parece perder fôlego diante de uma nova onda. O efeito, agora, é de desabrochar.

Das últimas campanhas da Saint Laurent, estrelada por Connor Storrie, e da Gucci, que resgata referências de “Pass This On”, do The Knife, aos broches extravagantes de Matthieu Blazy para a Chanel e aos detalhes delicados nos calçados de Simone Rocha nas passarelas, diferentes diretores criativos apostam, acima de tudo, na expressividade e na individualidade como forças motrizes para suas coleções. Nos designs, elas aparecem da forma mais natural possível: no florescer.

As flores brotam por todo o guarda-roupa: calçados, casacos, vestidos, camisetas, blazers, calças e até nas meias, como vimos na coleção de outono/inverno 2026 da Prada. Assumem diferentes formas, entre estampas, bordados, joalheria, rendas e aplicações tridimensionais, como os broches extravagantes. Ramificam-se e saem do território de gênero tradicionalmente associado ao feminino, como vimos na coleção masculina de verão da Givenchy, de Sarah Burton, e também ganham novas interpretações: mais estranhas, autênticas e, ainda assim, não menos exuberantes, como nas coleções de alta-costura e outono/inverno 2026 da Dior.

Se antes as flores pareciam previsíveis demais para a primavera, agora florescem fora de época. Mais do que um deslocamento sazonal, elas também encontram novas formas de existir no vestir e tomam conta do guarda-roupa de maneira mais criativa, expressiva e, por vezes, inesperada. Ao escapar das estações que lhes são próprias e assumir novas proporções, texturas e construções, as flores deixam de ser apenas um motivo decorativo para se tornar uma ferramenta de expressão. Por mais irônico que pareça, ao subverter o lugar que tradicionalmente lhes foi destinado, elas também subvertem o tom sarcástico de uma das cenas mais célebres da moda, eternizada pelas palavras de Miranda Priestly: “Florals? For spring? Groundbreaking.” by @__lucianoduarte
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2 months ago
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Para que serve uma calça skinny em 2026? 

Entre a repetição e a singularidade, o luxo tenta reaprender a produzir desejo por meio da silhueta.

O retorno da calça skinny nas últimas temporadas, um dos movimentos mais comentados das últimas temporadas, parece anunciar algo que ultrapassa as recorrentes discussões sobre corpo e gênero. Sua reaparição recoloca em debate a própria ideia de silhueta contemporânea — não mais orientada por uma única proporção dominante, mas pela convivência entre diferentes formas e volumes. Em uma era marcada pelo hiperindividualismo, a moda parece abandonar a promessa de uma silhueta universal para abrir espaço à pluralização das formas do corpo e da própria experiência de vestir.

Da coleção de verão 2027 da Celine, assinada por Michael Rider — uma das mais celebradas pela crítica especializada nesta temporada — às célebres e aplaudidas reinterpretações de Matthieu Blazy para a cintura ultrabaixa na Chanel, o luxo parece estar em busca de novas formas de comunicação e, sobretudo, de novos modos de produzir desejo. Um desejo cada vez mais pessoal, menos submetido a códigos universais e mais próximo da experiência individual. É essa transformação que Cathy Horyn parece capturar em seu último texto para a The Cut, “Fashion That Makes Us Want Again”.

Diferentemente da visão de Hedi Slimane em 2019, que apostava em uma paleta monocromática como instrumento de unificação estética do masculino, nesta coleção Michael Rider, sete anos depois, escolhe a direção oposta. Uma paleta mais vasta, um arquétipo mais expressivo, autêntico e, consequentemente, mais fluido.

(leia o texto completo pelo link da bio) by @__lucianoduarte
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3 months ago
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“Eu não tenho enredo de vida? Sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso.” É como Clarice Lispector decide desaguar seus pensamentos em um dos diversos trechos de tirar o fôlego em Água Viva. O fragmento, que por acidente serviu como bússola para compreender o que André Namitala apresentou em sua última coleção para a Handred, batizada de “Akáshica” — do sânscrito, “akasha”, o éter sutil que permeia tudo — também ecoa a teoria do campo quântico proposta por Ervin László.

No Píer Mauá, no Rio de Janeiro, através da dramaticidade da Companhia de Ópera da Lapa, regida por Cyrano Sales, titular do Theatro Municipal, a marca carioca alcança um ponto que a moda brasileira raramente acessa: trazer um conceito espiritual e filosófico profundo para um espaço de ampla difusão sem cair em estereótipos ou rasidão. Ao escolher a liberdade do fragmento como base para o conceito mais denso de seu último desfile, o expressionismo abstrato na moda brasileira parece atingir seu ápice enquanto o mercado global patina em tentativas exaustivas de criar narrativas lineares e comerciais em meio a um momento policrise. A coleção arrebata de forma instintiva, mesmo para quem desconhece László, e talvez seja justamente por isso que sua abordagem seja tão preciosa.

Entre peças de cerâmica desgastadas e caranguejos que atravessam a coleção como vestígios de permanência e retorno, o inverno da Handred se constrói em camadas através de uma lógica quase barroca: luz e sombra. A paleta misteriosa de marrons densos, verdes, pontos de rosa, preto e cobre resgata, já nas primeiras imagens da coleção, o pósfacio de Eucanaã Ferraz sobre Água Viva: trata-se de uma experiência que exige nossa fisiologia antes da compreensão, uma experiência cenestésica. Namitala acessa uma biblioteca invisível do tempo e nos entrega aquilo que Clarice chamaria de “o estado bruto da visão”.

Muito se fala sobre como a nossa moda se projeta através do espelho europeu, mas a Handred[…]

(continuação pelo link da bio) by @__lucianoduarte
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5 months ago
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Foi José Saramago quem reviveu a frase “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”. Entre as inúmeras frases de coach que encontramos no algoritmo sobre “aproveitar o processo”, reparamos uma máxima: o processo como produto. Do “arrume-se comigo” ao diário da reforma que nunca acaba, surgem novas formas de validar os esforços, ou até a própria naturalidade.

Em um contexto macro, especialmente após o isolamento social da pandemia, outros acontecimentos abalaram a forma como consumimos o mundo digital e material: a polarização política, o avanço das deepfakes, a corrida global pelo ouro e os sucessivos aumentos de juros nos Estados Unidos, a fragmentação da realidade mediada por algoritmos, a economia da influência, o crescimento dos casos de ansiedade e depressão entre jovens e adultos, a explosão da IA generativa, as guerras culturais e perseguições de perfis públicos somados aos vazamentos de escândalos de figuras centrais da indústria cultural, compõem um efeito: o de colocar à prova o nosso senso de realidade. A sensação é que a Terra continua girando, e nós que perdemos o eixo.

O vlog volta a ser cool, o “daily” e o “dix” popularizam-se, a cultura do reality permanece nos stories e o BBB retorna ao centro das atenções. Entre naturalidades performadas e mediadas, até questões linguísticas entram em pauta. Se tem travessão, pode apostar: não foi humano quem escreveu — será mesmo?

É 2026, e estamos obcecados pelos processos, não como protagonistas, mas como espectadores. Teríamos perdido o contato físico com a criação?

(Continuação no link da bio) by @__lucianoduarte
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6 months ago
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como a mia amiga mafe diz “a vida acontecendo” by @__lucianoduarte
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5 months ago
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“Moda é arte?” foi o dress code de um dos eventos mais esperados do calendário da moda. Antes das muitas menções, o tema da edição controversa do Met Gala 2026 — que, por muita ironia, já estamos carecas de ver — foi um dos mais tediantes dos últimos tempos.

Perguntar se moda é arte é como perguntar se o ovo é gema e, nesse caso, o ovo não chocou. O pinto já “nasceu morto”. Esse era o clima: o de que alguém ou algo tinha morrido; nesse caso, acho que foi a moda.

Sobrou só para a arte, do jeito mais choco possível. Choco por ter sido tão óbvio, raso. Até que ponto a moda ou a arte precisa da obviedade? “The eye has to travel”! Pois é, o clima ficou pesado. Uma ode às joias que alguns convidados fizeram questão de ostentar?

O que frustra é a falta de tato para materializar o X da questão. Nem a arte nem a moda são tão literais, mesmo que, para entendê-las, você precise de muita literatura!

📷 diana vreeland - the cut by @__lucianoduarte
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5 months ago
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A estreia de Simone Bellotti, ofuscada pelos grandes nomes nas redes sociais, reitera a premissa de que existe uma beleza silenciosa nos gestos que dispensam plateia. Conhecido por transpor a maestria do behind-the-scenes para o primeiro plano na Bally, o designer italiano reafirma seu domínio sobre o que está “atrás” — as costas de seus designs nesta coleção mereciam um desfile à parte.

Explorando os códigos fundamentais da marca com cortes justinhos, o azul icônico e o tricô impecável ao mesmo tempo que apresenta um experimentalismo geométrico visto nas aberturas circulares, Bellotti leva o conceito de Jil Sander ao limite. Ele opta por um olhar afiado — deu para ver pelas fendas cirúrgicas — e flerta com o limiar paradoxal entre a contenção e a voracidade do desejo, resgatando a filosofia cunhada pela fundadora nos anos 90: a busca incessante pela essência e pelo refinamento.

O “sexy” sob o olhar de Simone é etéreo, sugestivo, quase despretensioso. Evoca a série de telas cortadas de Lucio Fontana, iniciada na década de 1950, e sustenta a prerrogativa de que detalhes exigem esforço, mas a ausência deles também. À primeira vista, pode parecer austero ou monótono, mas é um convite ao olhar atento. O essencialismo do italiano na marca propõe, acima de tudo, a coragem de encarar a penumbra. É para poucos. by @__lucianoduarte
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7 months ago
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Em abril, Anthony Vaccarello completa 10 anos à frente da Saint Laurent e parece ter entendido cedo que assumir a casa não seria exatamente um desfile em linha reta. Sob seu comando, a maison reaparece pelo segundo ano no topo do Lyst Index, que mesmo apresentando algumas ressalvas metodológicas, também reafirma que uma referência não simboliza necessariamente regressão.

Se Aby Warburg, consistente em citações antropológicas e de historiografia da arte principalmente pelo seu “bilderatlas mnemosyne”, estivesse sentado em uma de suas primeiras filas, provavelmente reconheceria ali uma velha conhecida: a imagem que não morre, apenas troca de roupa. Ombros duros, pernas expostas, saltos agulha, alfaiataria rígida em atrito constante com um corpo vulnerável. Vaccarello repete suas fórmulas como quem testa um feitiço — ou talvez um encanto. Não por nostalgia, mas porque sabe que certas imagens sobrevivem justamente por não se deixarem resolver.

A Saint Laurent, para o estilista belga, não funciona como arquivo empoeirado nem como peça de museu: é uma história de fantasmas, dessas que se conta para gente grande (como Didi-Huberman preferiu intitular). Um corpo magro e noturno reaparece temporada após temporada, sexualizado e disciplinado ao mesmo tempo, carregando essa elegância que beira o perigo. Tal qual a ninfa warburguiana, ele retorna transformado, deslocado, ainda atravessado por forças que não pedem licença ao presente.

O “anacronismo”, passa longe de ser um erro de styling. Na moda e na arte, vira método. Vaccarello não quer apagar o passado nem atualizá-lo, ele o deixa colidir com o agora. O resultado não é harmonia, mas tensão, e é aí que o desejo se “alinha”. Repetir? Sim. Mas repetir diferente — e faz diferença.

Talvez seja por isso que os números do Lyst Index façam tanto sentido para tanta gente. Eles apenas tornam visível algo que a moda e a arte já sabem há tempos: o desejo não se move para frente, ele gira. E Vaccarello, consciente disso, administra imagens como quem cuida de uma chama antiga para garantir que continue queimando, mesmo que em outra cor. by @__lucianoduarte
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8 months ago
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Jonathan Anderson é o primeiro diretor criativo, depois do próprio Christian Dior, a comandar todas as coleções da casa. Em entrevista a Imran Amed, para The Business of Fashion, ele deixa claro que sua chegada à maison passou longe de ser um “mar de rosas”. E isso se materializa no desfile, que troca flores óbvias por espécies mais esquisitinhas — muito por influência do sopro de ideias que John Galliano lhe deu enquanto brincava de “bem me quer, mal me quer” em seu jardim paradisíaco. Ou melhor: à la Raf Simons, de cabeça para baixo.

Entre orquídeas, flores que carregam por natureza uma fluidez de gênero que Anderson ama explorar, o novo capítulo da Dior ganha contornos quase afrodisíacos — especialmente para a moda. As flores do ex da Loewe não seduzem pelo óbvio, mas pelo estranhamento.

Depois das estreias no prêt-à-porter — onde apenas flertamos com suas intenções na casa — Jonathan escolhe, com seus próprios botões (desculpa o trocadilho), o arranjo ideal para oficializar esse casamento. Na saúde e na doença. Até que a morte os separe. by @__lucianoduarte
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9 months ago
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