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Textos crus. Que nunca foram pro forno. Pra soltar pro mundo meio ruim mesmo.
por Lorena
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‘O Gosto do Luto’ 

Quando a mãe dele morreu ele comeu mangas. Deve ter comido umas duzentas. Talvez mais. Umas vinte por dia, todos os dias, até perder a conta.

Era pra tirar o gosto amargo que ficou na boca: em algum lugar sob a língua – um gosto que não saía. Nem com água, nem com sal.

Ele disse que percebeu o gosto no velório. No meio de seu discurso. Seus amigos e parentes choravam, depois riam, e o abraçavam. Ele só pensava nesse gosto. Entre o céu da lingua a bochecha e o coração.

As mangas, em especial essas, eram doces.

Doces de um jeito quase violento, que queimava o céu da boca.

A doçura entrava – e o amargo escorria pra fora,

em suor, em vômito, em diarreia constante, de tantas que ele comia

Doce pra dentro. Amargo pra fora.

Em pouco tempo, as mangas começaram a lhe causar um nojo hediondo.

Só de olhar, já embrulhava o estômago.

Subia a bile.

Mas ele continuava. Mastigava devagar.

Deixava o suco escorrer pelo queixo.

Fechava os olhos.

Chupava até o caroço.

Esperava o amargo ir embora.

E ia.

Durante dias, seus dias foram isso:

sentar, descascar, comer, suar, cagar

Depois, disse que se sentia melhor

e nunca mais comeu uma manga.

Deixou sua tristeza em podres liquidos de manga.

Chorou menos por sua velha mãe.

Mas às vezes, ele ainda passa a língua sob o céu da boca e tenta focar toda sua atenção no freio da lingua

e mesmo que de longe e fraco,

jura que ali ainda se esconde o amargo estranho gosto do luto. by @__malleta
5
a year ago
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A Insustentável pureza do ser. 

(Mais um texto meio cozido, que sem querer me deu bode e estou aproveitando que o bode sumiu pra publicar. Afinal era o objetivo soltar as coisas meio crus e ruins.) by @__malleta
2
a year ago
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O texto não coube aqui. Dá uma deslizada aí pra ler!!. 

Este está no forno há um tempo. Ta meio cozido admito, mas mais por apego mesmo.
E sobre o video (que o instagram insistiu em dividir): fiz rapidinho com takes que gravei lá em Sevilla. A maior parte filmado na praça espanha. 
Fun fact: Um trecho de Star Wars foi filmado lá.!!!

‘Vendo Sevilla Acordar’ - jan 2024 by @__malleta
4
2 years ago
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“O trabalho árduo de medir rachaduras” 

Os fantasmas conheciam a montanha como ninguém. Falavam das vezes em que as rochas desmoronavam com a precisão de arqueólogos ou geólogos de almas antigas , flutuando em seus lençóis brancos. Eles sabiam de cor cada pedra que já rolou, cada rachadura tímida, como se a memória da montanha lhes fosse tão íntima quanto o próprio tempo — o qual não tinham mais e tinham em excesso. 

Eram mestres em catalogar o impacto: algumas pedras caíam e provocavam tempestades e desabamentos, outras eram meras fagulhas. Tudo era documentado. Tudo era medido.

“Depende da força da pedra de cima”, diziam, com sua sabedoria antiga e pretensiosa, mas, na verdade, sabiam que dependia também da resistência das rochas embaixo. Às vezes, uma rocha pequena, insignificante até, caía sobre outra que, já desgastada, não conseguia mais resistir. E assim, a montanha se reconfigurava, pedaço por pedaço, queda após queda.

Agora, depois de incontáveis anos de observação, os fantasmas se tornaram especialistas em prever os desmoronamentos. Sabiam antes mesmo da montanha estremecer. Antes que a menor pedra ousasse vacilar, já estavam lá, sábios, prontos e ensaiados para impedir o desastre.

Esses fantasmas, zeladores incansáveis da montanha, eram obcecados pela ideia de preservá-la intacta “Nenhuma rocha se moverá!”, proclamava o mais político deles, num tom de autoridade. Contudo, ao longo desse zelo inabalável, a vila ao pé da montanha na beira da praia começou a estagnar. As praias, antes cheias de vida, agora eram grandes lotes sem areia alguma. O vento, que antes soprava livre, agora parecia conter a respiração. Tudo ficou parado, imutável. As pessoas da vila se mudaram para longe, ninguém gosta de lugar assim. 

Mas, ao menos, as rochas permaneciam seguras. Intocadas, inabaláveis. Ufa. — Pensavam os fantasmas.

[Outubro de 2024, desenho deformado da imagem por mim ] by @__malleta
2
2 years ago
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Tenho uma vontade insaciável de ser consumida por inteira, de ser engolida. 
De que, através do paladar alheio, eu entenda meu próprio gosto. 
Não porque não me lambi o suficiente ou não me experimentei, 
Me consumo tão vorazmente, como café da manhã, almoço e jantar, 
que, às vezes, a língua alheia na boca parece um toque diferente. 
Parece necessária. 
Quero uma estrela Michelin. 
Quero ser bem servida, mesa bem posta, com garfos e facas próprios, chiques. 
Quero vir apimentada. 
Quero que me gostem, me odeiem e me coloquem na capa do jornal de amanhã. 
Quero que a cidade inteira venha me comer. 

[ Janeiro 2025, montagem da imagem acima por mim ] by @__malleta
5
2 years ago
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