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Tem nome que não nasce por acaso. Nasce da poeira da estrada, do barro que ficou preso no sapato de quem veio antes. Assú é uma dessas palavras. Ela carrega o Cariri Assú, de onde parte um pedaço da minha história, em Caririaçu, no Ceará. Carrega também Assú, no Rio Grande do Norte. Dois lugares ligados menos pelo mapa e mais pela memória. Foi dali que minhas raízes começaram a caminhar. Atravessaram estradas, mudaram de cidade, levaram na mala o pouco que cabia e deixaram para quem veio depois o que realmente importa: o jeito de existir. Eu nasci em Fortaleza, na Terra da Luz, mas ninguém nasce apenas na cidade onde abre os olhos. A gente também nasce nos lugares que atravessaram os nossos avós, nas histórias contadas na calçada, no sotaque que resiste ao tempo e na coragem que sempre foi o maior patrimônio do povo nordestino. Assú não é só uma marca. É uma lembrança de que toda luz precisa de uma raiz e que nenhum brilho aparece sozinho. Ele sempre começa muito antes da gente, nas mãos de quem plantou o caminho que hoje seguimos. by @assu.luz
85
4 months ago
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Domingo, 4 de outubro de 2026 às 05:06
Ilha de Itamaracá - Pernambuco - Brasil
Bairro Vila Velha.

—————————

Em Itamaracá, 
aprendi que 
o tempo muda 

e as vezes
muda 
depressa.

O sol aparece, ilumina tudo e, 
quando a gente menos espera, 
a chuva chega. 

Depois passa.

E o sol volta outra vez
 
Geraldo canta:

Eu lhe prometo o Sol

se hoje o Sol sair

Ou a Chuva

se a Chuva cair

…

Há algo bonito nessa promessa 
que não exige que o céu 
esteja sempre aberto.

Porque talvez viver seja também aprender 
a receber o dia como ele chega
e descobrir que

há beleza 
tanto na luz
de um dia ensolarado
quanto na escuridão
de um dia nublado.

hoje, em Itamaracá, o sol saiu.
com a incerteza se até o final do dia 
a chuva chegará.

eu fico com a beleza de não saber.

e quem sabe entre o sol e a chuva,
um arco-íris se insinue no céu.

. taken in Vila Velha Itamaraca by @assu.luz
41
13 days ago
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Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Vila Velha - Ilha de Itamaracá - Pernambuco - Brasil.

Em Vila Velha, sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição, encontrei mais do que uma paisagem bonita. Encontrei paz.

Talvez seja por isso que esse lugar tenha se tornado uma das minhas moradas: há lugares que a gente escolhe, e há outros que, de algum jeito, parecem escolher a gente.

Aqui, diante dessa igreja, sinto que posso simplesmente ficar.

Em paz. Sob sua proteção. taken in Igreja De N.senhora Da Conceição, Vila Velha, Itamaracá, PE. by @assu.luz
114
15 days ago
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Pôr do sol - Vila Velha - Ilha de Itamaracá - Pernambuco - Brasil - Sexta - 02 de Outubro de 2026. @ainoapriscilaa canta @liadeitamaracaoficial

“Lia escrevia na areia.”

Ela sabe que o tempo também escreve em nós. Deixa linhas, marcas, caminhos. Algumas coisas a maré leva; outras ficam.

E, como o pôr do sol, o tempo não apaga a beleza — apenas muda a luz com que ela aparece. taken in Igreja De N.senhora Da Conceição, Vila Velha, Itamaracá, PE. by @assu.luz
38
15 days ago
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Título: Sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição (Vila Velha - Ilha de Itamaracá - Pernambuco)

Eu estava em Nova Cruz quando vi o sol nascer na Igreja de Nossa Senhora das Dores. Um daqueles nasceres que a gente guarda entre os mais bonitos do mundo.

Segui por Mangue Seco até chegar à Marina Gavoa. Foi ali que, olhando para a ilha, vi uma igreja no alto, cercada de verde. Eu não sabia o que encontraria lá. Só sabia que precisava chegar até ela.

Na Marina conheci Gabriel. E, curiosamente como o anjo, foi Gabriel quem me conduziu: me levou em sua jangada / baitera / canoa / barco e atravessamos até a ilha.

Cheguei do outro lado, entrei pela mata e comecei a subir. No caminho, ouvi uma voz cantando um louvor. Linda. Era Clarice. Foi assim que a conheci. Ela me vendeu um picolé de macaíba e eu continuei a subida.

Cheguei à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, aquela que eu tinha visto de longe. Lá encontrei até uma imagem de Padre Cícero e seu dono o Romeiro Biu e Idalice sua esposa — e a tapioca maravilhosa que ela faz.

Por lá disseram:

“Vai almoçar a moqueca de fruta-pão de Nina.”

E eu fui.

Nina foi outro anjo dessa história. Pescadora, pesca e cozinha a própria pesca — e faz de cada prato uma delícia.

Foi Nina quem começou a me apresentar Vila Velha pelas pessoas.

“Vai em Sol.”

E eu fui.

Imagino o susto de Sara da Ilha e Sol (filho de Zé Amaro) quando apareci na porta, cheio de mochila, vindo sabe-se lá de onde. Mas eles abriram a porta e me chamaram para entrar e sentar na cozinha para conversar.

Depois Nina disse:

“Eu vou te arranjar uma casa aqui. Vem morar aqui.”

E eu:
“sim!”

E começamos a procurar.

Foi assim que ela me levou até Rosa.

Rosa me recebeu e me acolheu com um carinho de mãe. Ali também conheci seu filho, Vinícius — com o mesmo nome que o meu.

E ali eu morei.

É muita história para uma legenda. Ainda tem a casa onde deixei tanta coisa, as pessoas que vieram depois e até Amora, a preguiça que dorme na janela.

Naquela manhã, eu só queria chegar a uma igreja que tinha avistado de longe.

Atravessei Mangue Seco, uma marina, um braço de mar e uma mata.

No caminho, encontrei gente.

E acabei encontrando uma morada. taken in Vila Velha Itamaraca by @assu.luz
56
15 days ago
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O BRASIL COMEÇOU AQUI

Em Igarassu, PERNAMBUCO, estão algumas das páginas mais antigas da nossa história.

Erguida em 1535, a Igreja dos Santos Cosme e Damião é, segundo o IPHAN, a igreja mais antiga do Brasil ainda em funcionamento.

Quase cinco séculos depois, ela continua aqui. taken in Igreja dos Santos Cosme e Damião by @assu.luz
72
20 days ago
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COSME E DAMIÃO
Cuidar.

Há quase dois mil anos, dois irmãos fizeram uma escolha muito simples:

cuidar.

Cosme e Damião nasceram no Oriente, nas terras banhadas pelo Mediterrâneo, num mundo que ainda não conhecia as fronteiras de hoje.

Estudaram medicina e atravessaram seu tempo cuidando de gente.

De quem chegasse.

Não perguntavam primeiro de onde vinha, quanto possuía ou o que poderia oferecer em troca.

Diante deles havia alguém que precisava de cuidado.

E isso bastava.

Não cobravam pelo que faziam. Ficaram conhecidos como anárgiros — aqueles que não recebiam prata.

Talvez seja bonito pensar que, tantos séculos depois, o que permaneceu de dois médicos não tenha sido apenas aquilo que sabiam sobre o corpo humano, mas a maneira como olharam para o outro.

Cuidar exige aproximação.

É chegar perto daquilo que dói no outro, mesmo quando esse outro não se parece conosco.

A fome não escolhe quem sente.
A doença não pergunta em que se acredita.
A dor não precisa saber de que lado estamos.

Talvez estejamos precisando reaprender isso.

No meio de tantas diferenças, há uma palavra que atravessa o ensinamento de Jesus:

o próximo.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

E próximo não é apenas aquele que se parece comigo, pensa como eu ou cabe dentro das fronteiras que construí para o meu mundo.

Próximo é aquele de quem eu me aproximo.

Talvez aí esteja uma das coisas mais bonitas da história de Cosme e Damião:

eles transformaram aquilo em que acreditavam em cuidado.

E talvez seja por isso que dois irmãos de um mundo tão distante ainda consigam dizer alguma coisa ao nosso.

Que a medicina continue avançando, mas que nunca deixe para trás aquilo que existe antes de qualquer conhecimento: alguém diante de alguém.

Quase dois mil anos se passaram.

As fronteiras mudaram.
Os impérios desapareceram.
A medicina mudou.
O mundo mudou.

Mas alguém ainda precisa cuidar.

E alguém ainda precisa ser cuidado.

Porque cuidar também é uma forma de amar.

E talvez, num mundo que aprendeu tantas maneiras de se dividir, uma das coisas mais antigas continue sendo também uma das mais necessárias:

aproximar-se do outro 
e cuidar. taken in Igreja dos Santos Cosme e Damião by @assu.luz
62
20 days ago
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A Chapada do Araripe não é só paisagem. É presença.

É dela que a água brota e desce para dar vida ao Cariri. 

É mata, 
nascente, 
bicho, 
planta, 
cura,
saber ancestral. 

Há uma força difícil de explicar nesse lugar — 
como se a terra guardasse memória. 

A Chapada protege, alimenta e cura. 

E, imensa sobre o sertão, permanece ali 
há milhões de anos, 

lembrando que o Cariri também 

nasceu das águas. taken in Chapada Do Araripe Ceara by @assu.luz
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a month ago
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Eu precisava estar no Cariri. Perto dos meus pais.

Da minha mãe, em Juazeiro do Norte. Do meu pai, em Caririaçu (Cariri Assú)

Minha mãe nasceu em Fortaleza, mas o Cariri também a fez sua. Hoje é cidadã caririense e construiu aqui sua vida e seus afetos. Meu pai está em Caririaçu, onde está enterrado. E eu precisava ir até ele, acender uma vela para iluminar o seu caminho.

Mas estar no Cariri nunca significou chegar a um lugar desconhecido.

Passei aqui minha infância e toda a adolescência. Cresci no Cariri. Foi aqui que uma parte fundamental de quem sou se formou.

Por isso, esta não é uma história sobre descobrir que pertenço ao Cariri. Eu sempre pertenci. Talvez seja sobre compreender, já adulto, a dimensão desse pertencimento.

Desta vez, percorri também os caminhos de quem veio antes de mim: meu bisavô alfaiate, no Crato; meu bisavô e sua história atravessada pela construção de Caririaçu; meus familiares em Barbalha.

Caririaçu. Crato. Juazeiro. Barbalha. Cidades que fazem parte de uma mesma história: a da minha família.

E há a Chapada do Araripe, imensa. Há uma força nessa terra que é difícil explicar.

O Cariri é Ceará. Mas sua história nunca coube inteiramente dentro de uma fronteira.

Do outro lado da Chapada está Pernambuco e logo ali a Paraíba. Lugares ligados aos caminhos dessa região e também aos meus. A Paraíba atravessa minha história: meu avô materno nasceu em Sousa. E há Recife, para onde tantas famílias caririenses seguiram e que há tanto tempo mantém caminhos ligados ao Cariri.

Talvez o que esteja acontecendo agora não seja um retorno, mas um reconhecimento: olhar, com os olhos de hoje, para uma terra que conheço desde menino e perceber quantas gerações caminharam por ela antes de mim.

O Cariri é casa.

É onde estão meus pais.
É onde cresci.
É onde tantas histórias de quem veio antes de mim continuam vivas.

Essa história sempre esteve aqui.

E sempre esteve em mim. taken in Juazeiro Do Norte, Ceará, Brasil by @assu.luz
38
a month ago
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Tem despedida que começa antes mesmo da gente partir.

Às cinco da manhã, na rodoviária de Juazeiro do Norte, enquanto a cidade ainda acordava devagar, Geraldo Azevedo cantava a partida.

Talvez seja isso que algumas canções façam: dão nome ao que a gente não consegue dizer quando precisa ir embora. A estrada chama, o ônibus parte, a paisagem vai ficando para trás — mas alguma coisa permanece.

Porque partir não é deixar tudo.
Há lugares que seguem viagem com a gente.

Tem lugar de onde a gente parte sem nunca estar indo embora. taken in Rodoviária de Juazeiro do Norte by @assu.luz
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a month ago
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Quando eu era criança, eu também dançava.

Dançava do meu jeito. Vestia o que queria vestir. Movia o corpo como ele queria se mover. E dentro de casa eu podia ser assim.

Meus pais foram incríveis comigo. Tive a liberdade de ser a criança que eu queria ser. Foi do lado de fora que começaram a me ensinar a me olhar.

Na escola, na rua, vieram os olhares, as palavras, as correções. Aos poucos, aprendi a baixar a voz, recolher o gesto, vigiar o corpo. Para caber em certos lugares, parecia que eu precisava caber numa caixa.

E por um tempo eu coube.

Mas saí.

Voltei para o meu corpo. Para o meu jeito. Para aquela criança que dançava antes de saber que alguém poderia achar errado o jeito como ela dançava.

Talvez por isso o tema de Feito Pipa, de Allan Deberton, nascido em Russas, no Ceará, tenha me atravessado de um jeito tão particular. A história que o filme propõe, sobre a liberdade de uma criança e o direito de existir antes que o mundo diga como um corpo deve se comportar, me fez olhar para a minha própria infância.

E então veio a música.

Lady Zu, filha de pais pernambucanos, pertence a uma geração anterior à minha, mas sua música chegou até mim. Minha mãe e meus tios faziam festas em garagens embaladas pela disco e pela soul music brasileira. Anos depois, essa mesma pulsação atravessaria outras pistas e noites em Fortaleza, onde pude novamente ser quem eu queria ser e dançar do jeito que eu queria.

Hoje, nenhuma coisa me assusta mais do que a possibilidade de não ser quem eu sou. De voltar a pedir licença para existir. De acreditar que existe algo no meu corpo, no meu gesto, na minha roupa, na minha dança ou na minha maneira de amar que precisa ser diminuído para que os outros se sintam confortáveis.

Isso eu não permito mais.

Porque encontrei a minha própria luz.

Hoje entendo que não sou apenas eu que protejo aquela criança.

Ela também me protege.
Ela acende a luz.
Ela me guia.

E se um dia tudo ao redor escurecer, eu sei que não vou estar perdido.

Porque aquela criança ainda dança.

E enquanto ela dançar,
haverá luz. taken in Russas, Ceará, Brasil by @assu.luz
184
a month ago
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Já entrei muitas vezes na Basílica de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte.

Juazeiro foi minha casa por muitos anos. Essa igreja, essas ruas, esses lugares fizeram parte do meu cotidiano. Não cheguei aqui como quem visita alguma coisa distante ou desconhecida.

Mas, desta vez, durante a Romaria de Nossa Senhora das Dores, foi diferente.

Talvez os lugares permaneçam os mesmos e seja a gente que volte diferente para eles.

Entrei na igreja e parei diante dos vitrais.

Ali estavam, uma a uma, as sete dores de Maria.

Eu já havia passado por ali outras vezes. Já tinha visto aquela igreja, aquelas imagens. Mas nunca tinha sentido o que senti dessa vez.

Algumas imagens a gente olha.
Outras olham de volta para a gente.

Talvez seja por isso que Nossa Senhora das Dores seja tão importante para Juazeiro e para tanta gente que atravessa o Nordeste em romaria para encontrá-la.

Porque há dores que esse povo conhece de perto. A partida, a ausência, o medo, a perda, a saudade. Dores que mudam de nome, de casa e de história, mas que, em algum momento, chegam à vida de todos nós.

E Maria também conheceu a dor.

Não como alguém distante, olhando o sofrimento de longe, mas como mãe, acompanhando cada passo e permanecendo até quando já não havia mais nada que pudesse fazer além de estar ali.

Talvez tanta gente venha até Juazeiro por isso.

Não porque acredita numa vida sem dor, mas porque, quando ela chega, é preciso encontrar força para atravessá-la.

Talvez eu precisasse também de tempo para voltar a esses lugares e enxergá-los de outra maneira.

Desta vez, eu voltei e senti.

E, diante daqueles sete vitrais, senti como uma espada a traspassar a minha própria alma. taken in Basílica De Nossa Sra. Das Dores, Juazeiro Do Norte by @assu.luz
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