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@seorganiza.artista @vendaval27_
produtora criativa, consultora e pesquisadora.
falo, escrevo e sobrevivo o mercado cultural.
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começamos nossa jornada no Natal de 2025. ganhei de amigo oculto. toda feliz, amamos zambra. amamos Chile. amamos poetas. livro grande que vai devagar desenrolando a vida desse poetaprofessor. o personagem é Gonzalo? O Chile? A poesia? Li devagarzinho, entre outros livros e a pulsação da vida. indo e voltando as essa jornada nada heróica. que se passava em Santiago do Chile. no meio do livro veio ida ao Brasil, irmã no hospital - não levei o livro, veio gravidez-acidente, hospitais, tbm não levei nenhum poeta chileno comigo. Não coube poesia nessas jornadas. voltei a eleger e a carregar o livro, no verão, numa única tentativa de pegar sol com pinos no pé. e deu certo. no meio de crises de câimbras e espamos, fiquei acordada lendo as últimas páginas, e embarquei justamente nas dores que curam - precisava acreditar que sentir a dor iria alinhar meu ossos para quem sabe voltar a caminhar um dia. e chegamos ao fim da nossa jornada. o nome Santiago ao ser que carrego na pança já havia sido escolhido. e não relacionei a jornada iniciada no Natal. Ficamos tanto tempo afastados. mas quero narrar que alguma esperança de poesia ficou em mim. já tinha percebido que tem poesia em qualquer canto, mas no Chile há mais. e vamos levar Santi lá. espero. sem mais promessas. vida nao cabe promessas. desejo cabe. de fazermos um tour de cidades e capitais que carregam seu nome. livro segue sendo um companheiro que aparece, desaparece, amizade de longa data que afasta, aproxima nas horas que se precisa ou possíveis. eu amo ainda mais zambra e todos os poetas chilenos. livro é uma desfiladeiro de referências e possibilidades. by @chaianafurtado
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a month ago
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faça você também sua própria tentativa de explicação de timeline das minhas últimas 48h. o tema é: série tragicômica: a jornada da grávida do pezinho, valendo!

sem modéstia, a criação de conteúdo dos meus amigos tá mt alto nível narrando minha história, faça vc tbm. 👩‍🦽🤰🦋🎥🍀💐💌🩼🦶🚒👨‍🚒🔩🏥 by @chaianafurtado
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2 months ago
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💥 𝐍𝐎𝐕𝐀 𝐂𝐀𝐑𝐓𝐀 𝐍𝐎 𝐀𝐑 💥

Queride artista,
Talvez esta carta inaugure uma pequena série que nunca foi planejada. Porque alguns acontecimentos não cabem numa única narrativa. Precisam de tempo.
De pausas. E de muitas tentativas para encontrarmos algum “fio de meada”.

Nesta carta, volto vinte anos no tempo para contar a origem de uma metáfora que acabou atravessando a minha vida inteira: os quebra-molas. Um ex-namorado. A morte do meu pai. As crises de ansiedade. Dua Lipa. Um buraco numa escadaria de Lisboa. Inesperadamente, tudo isso passou a fazer parte da mesma história.

É uma carta sobre 𝐨 𝐚𝐜𝐚𝐬𝐨 e sobre 𝐚 𝐜𝐮𝐥𝐩𝐚.

E sobre a nossa necessidade quase desesperada de encontrar explicações quando o chão desaparece debaixo dos pés. Mas também é uma carta sobre 𝐜𝐫𝐢𝐚çã𝐨.

Porque talvez organizar nunca tenha sido apenas sobre planilhas, editais ou calendários. Talvez organizar seja, antes de tudo, tentar dar nome aos caquinhos antes de descobrir se um dia eles voltarão a formar outra coisa. E deixo uma pergunta para caminharmos juntos até a próxima carta:
❝ O que fazemos depois que quebramos? ❞

📚 #SeInspiraArtista

Nesta edição, caminhamos ao lado de Frida Kahlo e da pintura Lo que el agua me dio (1938), além de uma frase da Ana Suy / @ana_suy que atravessa toda esta carta.

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✨ Organizar a vida talvez seja uma maneira de continuar acreditando nela.
E aí... bora se organizar? 💜

#SOA_058 | Juntando os caquinhos: quantos “quebra-molas” cabem numa vida? by @chaianafurtado
4
3 months ago
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bom dia inverno no auge do verão. quem nasceu no verão eterno e imigra para o norte, ganha essa novidade de conviver com as estações do ano, com as trocas das folhas, dos cobertores e renascimentos de  amores. 
agora, eu me preparava para o meu próximo inverno, que trará meu primeiro filho. as paredes para refazer, as roupas e desumidificadores para pensar. previsão de nascimento: novembro. porém chegou junho: a queda no buraco, não de gelo, de concreto, congelou essa imaginação de futuro. caímos em locais que já passamos outras vezes, pq nada é garantido. partes congelaram e surgiram outras rotas. mamãe que viria para cá conhecer o frio e o neto, teve que vir antes, aquecida de verão. o que quer do brasil? eu falei: só um livro. e foi esse. acredito tanto no tempo de leitura como oráculos do tempo que segurar o livro entre minha pança de grávida e meus ferros no pé - diante da minha imobilidade, imersa em agonias e frustrações, recriando os dias de coma, inclusive da imaginação que um dia eu tbm teria uma casa-barco e hj vivo em casa-cama. não tenho a gestação tranquila desejada, jamais imaginei que perderia o movimento, q acharia genial uma cadeira de rodas e que teria que conviver com a falta de certezas de forma tão nítida. tenho o agora. repleto de falta de memória, e tbm escrevo para tentar não esquecer, mesmo que a palavra achate as memórias. o tempo q te engolem e te dá vida. agora tenho em mim uma gestação que espero ter na memória todos os chutes bons que ganhei quando pedi para o BB me mostrar que tbm sobrevivia nadando em mim. terminei o livro, tamara chegou no verão. eu espero chegar no meu inverno, com meu filhote e eu tendo superado mais uma travessia. por agora pedalo com os braços, viajo pelos livros, respiro para não cair no abismo das sombras dos pensamentos. cada uma tem sua própria odisseia de regresso ou de engolir sapo para não voltar nunca mais - se mais alguém me falar que maternidade é isso aí, tem que ser forte e aguentar - quero autorização para aprender tbm a usar um fuzil e matar esse urso que nos ataca. aguardando o truque mágico dos barcos e das gestações. 

Livro: #bomdiainverno
Editora: @companhiadasletras 
Autora: @tamaraklink by @chaianafurtado
5
3 months ago
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existe alguma relação possivelmente saudável com o mundo do trabalho? me pergunto essa questão com tanta intensidade - para quem nunca foi em vão o verbo trabalhar. qdo fui liberada para casa do hospital pensava nisso: que bom! não vou precisar cancelar a oficina do Estado Bruto. depois do 2° encontro mais pesado de informações e burocracias, estava 2h30 sem me mexer, torta no sofá, com muitas dores. estava com gesso e tala em parte da fratura, poucos remédios pela gravidez e ossos rompidos soltos que qualquer movimento exigia concentração e dor. e fiz. e agora depois do agravamento de tudo, vivendo de idas aos médicos e ansiedades progressivas, recebo uma resposta da DGArtes negativa a adaptação do projeto. pedi a eles a alteração de algumas questões principalmente as presenciais antes previstas mas pelo imprevisto precisaria mudar. recebi não. chorei. pq os processos da burocracia foram criados em nome da democracia e igualdade. mas não contam com singularidades e por abraçar e estudar lógicas burocráticas no mundo cultural que criei o @seorganiza.artista e vivo e exponho os paradoxos que um edital não muda sua carreira, mas cria pequenos caminhos. provavelmente vou ter que cancelar o projeto, devolver dinheiro do edital, mesmo já tendo gasto partes, e repenso além: minha trajetória de limites com o trabalho. meu corpo sempre é o que acumula o limite - a última fronteira para parar. repensar prioridades que precisam ser mais que lembradas: forçadas a não serem esquecidas. foi em nome de sobreviver que me afastei do cinema, quando passei 15 anos achando que sem o cinema não sobreviveria. qdo fechei o computador depois de encerrar a oficina chorava tanto, pq sabia que estava quase ali tbm explorado um novo limite entre trabalho, realização, ego, responsabilidade. voltamos por novos motivos a antigos dilemas. uma das sombras da recuperação é: o que fazer com meu trabalho? além do essencial dinheiro, ainda mais grávida, mas o que realmente fazer como postura - limite - ausências - cancelamentos - perder clientes - redes - oportunidades duramente conquistadas. tudo sendo respondido com uma pausa e mais um “até já” que ninguém afirma quando será o até e o já. by @chaianafurtado
1
3 months ago
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quem diria que seria o terceiro livro da série que me acompanharia nas últimas semanas de acidente-hospital-imobilidade de forma mais presente? percebi que foi um companheiro de um ano, morava do lado da cama, nunca foi livro de levar a viajar ou passear nas ruas. lia continuamente pouquíssimas páginas por vez. era como checar se Lila tinha falado com Elena e reaparecido. torcendo para Elena conseguir abraçar a escrita como uma forma plena de existência. no hospital o livro silenciava os berros e sussurros dos outros pacientes nos leitos ao meu lado. acordei do coma e uma das primeiras coisas que fiz foi ler. e foi esse livro. pegava pq me dava essa continuidade das histórias, das novelas, das vidas. era isso: minha vida era um livro que foi fechado rapidinho 3 dias para mim, mas para quem me carregava ao lado da cama, mesmo sem palavras eu existia. 

bom tocar meu cérebro sem memória mas que lembrou do livro um até o três a jornada dessas amigas. amizade, amor, inveja, tudo tão pertinho. faça uma lista:

“Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás?
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?”

terminei o livro pensando, mas bem, um fato triste: já que vivi a morte iminente, quem desses amigos tatuados em peles sem hidrante, cortadas e mutiladas se deslocariam para o último adeus? nem eu iria. o chão treme mais por esse tipo de constatação da passagem radical dos afetos afetados desconfigurados. eu morreria e a notícia não lhes chegariam. e agora escolho também: vice-versa também. libero em mim meus amores não mais presentes viverem com a escolha de não mais me cruzaram em vida. escolheram outros abismos a amizade. 
 
terminar esse livro vivendo a escolha de Elena Greco de embarcar naquele avião me tremeu.

#ElenaFerrante 
#historiadequemfogeedequemfica by @chaianafurtado
6
3 months ago
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fase 01 | 17 junho 2026

estreia de Portugal na copa contra o RDCongo.
uma queda. há perigo na esquina. 
a vida sendo abraçada pelo o outro lado. 
uma voz: coloca tênis. 
8h sem medicamento.
3 dias internada. grito: alguém me tira daqui. os gritos dos outros doentes estão sobressaltando meus próprios medos. 
enlouquecer pela realidade unânime: tudo que está vivo, entorta, quebra. descontrole. emergência e truques de sobrevivência: nuts na meia, água embaixo do travesseiro. como garantir nutrientes para a vida na barriga? como lidar com o caos nebuloso quando a realidade sempre vem? pedir ajuda. implorar ajuda. receber ajuda. o descontrole é total: quem ajuda inesperadamente. Exesperados não chegam. vê mensagens absurdas como “grávida tem que ficar em casa” - foi culpa minha? caminhar na rua. escada. foi culpa da CML? o buraco que prendeu meu pé. foi provação de Deus? qual narrativa cabe dentro do mistério de estar viva criando viva? cair. não estar sozinha. ter braços amigos, para chamar Uber, carregar meus corpos, olhar no fundos dos meus olhos sem anestesia, sem medicamento e falar ali: você não está sozinha. nunca mais estará. cair, sem levantar. quebrar, entortar. só pensar na logística de chegar ao hospital. implorar medicamento, escutar mais frases absurdas: maternidade é isso aí. isso aí o que? 
dos mistérios das quarta-feiras que vem chegando. era uma fase. uma. um primeiro rompimento de ossos, ligamentos, tendões. era rompimento definitivo como eu tbm mentalmente pediria ajuda mais uma vez, mas não poderia fazer. era religação com o estar atenta aos caminhos de Santiago que levam a jornada não pelo fim, mas pelo o quão inacreditável é lembrar e se querer estar viva. gerar viva. não isso não é em si a maternidade começando: mas a coragem de caminhar na rua. apenas isso. estar viva. fora. sempre desprotegida. sempre rodeada pela única coisa que podemos tentar controlar: nossos pensamentos(?) respiração- fortemente lembrar que amar e rodopiar em amor, se movimentar em nome do amor, nunca poderá criar arrependimento. será? e se? e se? nenhum acaso protege, nenhuma religião não é baseada na culpa, responsabilidade e obrigação. seria o amor uma religião? by @chaianafurtado
29
3 months ago
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fase 02 | 20 junho 2026 - 01 julho 2026

alívio de esperar em casa. ter casa. ter amor em casa. 
a tristeza da gata que não fala mais comigo. saber que a recuperação será demorada. lidar com muita dor e pouca medicação pelo BB. aguentar mais dor, mais medo e rezar pela primeira cirugia que farei na vida. lembrar das cirurgias que quase levaram a morte da minha irmã. imaginar bons pinos e parafusos que dizem que serão colocados dentro de mim. fechar os olhos e ver o pé pendurado como um curupira protegendo as florestas, enganando os caminhos. não ter nem um minuto na vida sem sentir dor. ossos quebrados latejam, manifestam. pedir um chute do pé dele e receber na barriga um arrepio inesperado. escutar dos amigos que já fraturam pés, joelhos, cotovelos: fica tranquila, a cirugia é o de menos. a recuperação depois será outra. a depois da cirugia, não vai mais sentir dor. entrar feliz e ansiosa na internação. escrever um até já para os amores, como se fosse ali comprar pão e já voltava já. já já. só arrumar uns ossinhos. 3 anestesistas me viram, fizeram várias perguntas sobre as minhas alergias. que bom amiga! se não fizessem perguntas que seria complicado. um momento entre, cada movimento repleto de dor, mas muita esperança em me abrirem para me arrumarem. ganhar marmita, visitas. flores. jogar as flores presentes ao mar, agradecer que temos esperança, agradecer a legião da religião amorosa dos que esperam que “vai dar tudo certo” “já deu tudo certo” “mandando amor” “dá notícias” - mas… mais reforços positivos para me deixarem serena para o dia de ir a mesa de cirugia. fechar os olhos rever os passos, o passo amassado no buraco. o cair reta rumo a bunda no chão. segurar a barriga como se fosse a única parte do corpo que agora tivesse um coração. o momento da espera, da incerteza, de tanta tristeza com dor, mas tanta alegria. amor. pedir ajuda. montar grupo para dar notícias, espaço de socorro, cronograma e logísticas de ajuda e mais ajuda. colocar comunciado nos e-mails. nesse entre ainda conseguir dar dias oficinas. tentar continuar e seguir e sonhar e acreditar. - sim sim sim, primeira cirurgia: grávida, vai dar tudo certo. foca no estado bruto de si. by @chaianafurtado
6
3 months ago
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fase 03 | 01 julho 2026 - 04 julho 2026

parada cardíaca. paragem? 03 minutos. ou foram 04?
choque anafilático. coma. coma induzido. tubos. respirar por aparelhos. 
eu não tenho memória. a memória virá pelos outros. não é sempre assim? a linha do tempo, agora sim quebrada. interrompida. o pé, de que importa? os ossos fraturados do tornozelo fizeram parar um coração, num corpo que carrega dois. dias imensos. no escuro da minha reinvenção. na dor dos que me amam. queria tirar de vocês a sensação que eu morria. queria recriar com vocês esses dias. escutar atenta o abismo. nem dá ultima mensagem e o até já eu lembro. arquivo da existência compartilhado único que importa. um tornozelo fraturado. uma cirugia corriqueira. minha família viu esse filme em janeiro. nenhuma cirugia é simples. nada na vida é corriqueiro. atrasar pedido de desculpas, confusões das confissões de amor: o que a morte - a parada cardíaca - o recebimento das notícias ruins trazem de vida? “nunca nunca nunca empurrar a saudade” saber o que se rompe, o que se reconstrói, o que destrói. 
03 minutos sem um dos meus dois corações não foram capazes de me matar inteira. e sobre esses dias, vou virar escritora para reinventar. vou pedir ajuda para relembrar. vou procurar mais ajuda para deglutinar o trauma. os flashs, o papel e caneta como ferramenta de aterrissagem. não tem narrativa do que salvou, quando não se tem narrativa do que quase matou. os sustos, os sopros, não é isso mesmo parte da vida? interromper para costurar outros laços. no caminho do arco-íris menos atravessariam comigo, mas isso conta?
podem vir com qualquer discurso: os de culpa, os de fé, os de inveja, os de mal olhado, o de superação, o de a vida não faz sentido, ou tudo fará sentido no futuro. aceitamos qualquer promessa de trazerem de volta esses 03 dias, não para mim, mas para os que me amam e sinto aperto de saber que não esquecerão a dor. eu? eu não lembro. e ter espaço vazio é ter chance de exercer o maior privilégio dos vivos: de termos o direito de narrar nossa própria vida. by @chaianafurtado
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3 months ago
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fase 04 | 04 e 05 julho 2026

acordei. não lembro. o quadro branco, me dá a caneta! o grito sem voz. o papel e caneta. implorar pelo meu caderno vermelho. escreverrabiscar. flash! uma cadeira azul. perguntas: responder pela cabeça. desentubar. três perguntas para quando sair a voz: meu filho! alguém me diz se meu filho tá bem / parem de me drogar - não quero ketamina / não quero ter acesso - minha irmã teve uma sepse to com trauma - tira isso de mim. ver ele feliz me vendo enfim viva, olhos cravados. a fisioterapeuta me leva no corredor e toca o telefone dela: música tema do KILL BILL. vontade de rir, falo sem voz para ela: KILL BILL, ela ri: sim. pegar o meu telefone de volta, pegar livros de volta, conseguir ver um filme enquanto escuto os gritos de dona Manoela na cama ao lado. implorar para ir embora. tentando passar entendimento calma vida aos que estavam a minha volta, os flashes - não vi luz nenhuma de túnel - não tenho relatos extraordinários. sinto o tubo da garganta, o nariz sangrado, todos os hematomas: a dor no peito. o que é isso? talvez tenha quebrado alguma costela - É NORMAL- dor dor dor massagem cardíaca. sim, normal, a dor, não conseguir se mexer ou falar. O pé? O que é isso? fixadores externos. acordo em um corpo que viveu coisas que só deixaram as marcas. meu filho tá bem? quem me diz. sim, ele tá vivo. mas ele além disso tá bem? não podemos dizer. ele trouxe sorvete para mim. o dente da Juju tá mole, vai cair. os amigos seguem nas piadas absurdas me fazendo chorar e rir, mas o peito doi. solto o telefone, volto a beber água, água o bebê precisa: me tira daqui, preciso me alimentar bem, meu filho precisa de mim. o que aconteceu? alergia a que? foi anestesia? foi o antibiótico? e agora o papo de o que a gente não vê o coração não sente, é mentira. o da cirugia vai dar certo, também não aconteceu. o pior já passou, também não. todas as frases positivas dos amigos que ninguém ensina o que falar ajudam e tbm divertem na ironia absurda que é a vida. as frases que começam com “o que importa agora é que…” quem sabe? nada é tão ruim que não possa piorar. mas eu tenho palavras como arma de mamãe o “enquanto há vida, há esperança” e nós sobrevivemos. by @chaianafurtado
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3 months ago
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fase 05 | 05 julho - 08 julho 2026

pelos que acompanharam meu coma. pelos que receberam notícias pavorosas que estaríamos sem sinais vitais, com aparelhos. volto, de onde? de algo inventado ainda anterior - não foi luz que vi - mas fico saltitante, embora imóvel, de imagens memórias fusões - fotos mensagens recebidas. consigo numa pressão fortedesesperada ser liberada do hospital 2 dias, domingo. qdo achava improvável a alta. mas hospital público precisa de vaga, sou jovem, tenho apoio, eles topam. ir para casa. outro susto. quem me recebe em casa estava me vendo entubada e desacordada 48h antes. processos rápidos. mas na força do trauma que fevereiro tinha me obrigado a aprender: mais tempo no hospital = mais chance de acumular doença. eu vou seguir a trilha do amor, coloco Arlindo Cruz para tocar e choro. acreditando que mesmo sem um médico para me explicar os próximos passos, cabeça confusa sem reter informações, medicamentos ainda não alinhados ir para casa é a melhor opção. acordei com tanta dor no peito, massagem cardíaca que fratura as costelas e me faz sentir falta de ar em qualquer posição. mas peço mais vez; ajuda. pedir ajuda e nomear é benção: me ajuda a marcar os médicos online no brasil, me ajuda a alugar cadeira de rodas, me ajuda a ter comida, me ajuda a montar uma cama nova dentro do escritório. chamei, veio. sempre veio. e essa é a benção de estar viva. e passo os próximos dias em casa sem conseguir falar, mas escrevendo. lendo, escrevendo. chorar dói o peito, rir também. conectar na comunicação com os mais próximos é doloroso demais, evito. essa coragem de ver minha própria fragilidade de vida, ainda mais dupla, pelos olhos de quem recebe a notícia da alta como um rapido milagre é tbm perceber que foi por pouco. o tal fio secreto do susto - do que é “quase” e chora… coloco “o bem” nos stories depois de tudo falando obrigada. sinalizo aos distantes, to viva. e belchior, só vai voltar a tocar em dezembro de 2027. 

se a luz do sol não para de brilhar/ quem tem fé para sonhar - diz amém. o bem ilumina o sorriso e tbm pode dar proteção. meu bem é a tábua de redenção que a linguagem constrói. no início era o verbo, é no início que volto: escrever. by @chaianafurtado
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3 months ago
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fase 06 | volto ao dia 05 julho de 2026.

os dias parecem pular. o que fiz quando sai do hospital? mas não… não. antes! isso! copa do mundo, era isso que tava acontecendo. jogo do brasil, estava no meu calendário. e absorvi, pq tá lá nos garranchos do caderninho: o desejo. mas o brasil perdeu. e eu não fiquei triste demais. primeira coisa que fiz foi cortar os cabelos. fiz um rabo de cavalo alto e disse: vai, corta. serão 5 meses na cama, menor chance de ter cabelo grande. imaginava fotos grávida com cabelão que tava cultivando. mas começava ali, encarar ao corpo como um novo desafio - cortes - médico mandou além das injeções diárias na barriga, cálcio. tomar cálcio, comer calcio e vitaminaD. medo de passar dias na cama e o pulmão atrofiar. falta de ar já me acompanhava, agora criou lugar. ja vi, não quero rever. exercícios. amor preciso de exercícios. vai pega a muleta: respira, sobe. paro - choro. não consigo. ainda dói mt o peito. ok. tudo bem. primeiro dia. 12 semanas para recuperar da fratura e lesões do tórax. se acalme. marca psiquiatra. começa nova terapia novavelhadenovo. e rituais: mudar móveis de lugar: partes da casa que passarei 6 meses sem ver. para mudar, vamos pintar. cabelo cortado. rotina de limpeza de ferros instaurada. móveis pintados para dar cara de novo ao velho. mas não é isso. é mesmo, tudo novo. meu corpo cria orelhas, rim, um penis na minha barriga que acho estranhíssimo, e alem disso vai ter que reconstruir de maneira elaborada 3 novos rejuntes de ossos, com pouco suporte mas: tempo. dei as caras a comunicação, respondi algumas msgs. ajuda escrever mas não ajuda ter que responder. ainda evito comunicar com os mais próximos. rjxlisboa vai ter que acontecer. encarar que não posso ficar sozinha em casa. triste perder a autonomia às vezes o nível da frustração supera a dor nos ossos. as frustrações são densas. construídas em séculos. eu amei ser recebida de volta ao mundo dos vivos. estamos vivos. teve torcida. brasil saiu da copa, mas chegamos em casa. comemos pizza. tivemos família e amigos. atravessei pela primeira vez o espaço sozinha com muletas e recebi surpresa: flores, cartão, amor que gira e faz girar a roda da vida que gira. by @chaianafurtado
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3 months ago
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