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Francisco Charrua
Tattoo artist in Lisbon since 1992
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Uma Pororoca No Tejo
Francisco Charrua, 55 anos, Tatuador
Fresh Ink, Alvalade
Parte 5

Como a paisagem e a luz de Lisboa te influenciaram?

Quando eu chego à ponte e olho para Lisboa, aquilo que vejo é bonito. Eu gosto da cidade. É como o micro e o macro. Olho para Lisboa e sinto esta cidade é mesmo bonita, com o rio. Depois entras nas ruas e começas a ver o menos bonito. E aí as coisas mudam um bocado. A cidade modernizou-se muito desde a Expo’98 e isso não me desagrada. O modernismo é importante, é importante as coisas estarem sempre a mudar. Claro que isso tem um preço e a gente sabe o que é a especulação em Lisboa e o quanto isto se transformou num negócio de negócios. No sítio onde vivo apercebo-me de toda a dinâmica relacionada com o ganhar dinheiro, com a especulação imobiliária, seja ela venda de casas, aluguer, turismo, isto é um filme completo. Mas Lisboa ainda é agradável para mim. Eu gosto de Lisboa.

Há alguma pergunta que me queiras fazer?

Posso-te perguntar aquilo que tu me perguntaste a mim. Como é que tu vês Lisboa actualmente e vês-te alguma vez a sair de Lisboa?

Eu saí de Lisboa, estou a viver em Cascais. Falta-me a vida cultural, a vida nocturna. E não descanso enquanto não voltar para Lisboa.

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7 months ago
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Uma Pororoca No Tejo
Francisco Charrua, 55 anos, Tatuador
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Parte 4

Tens algum hábito ou rotina ligado a um ponto de Lisboa?

Se calhar a única rotina relacionada com Lisboa, desde sempre, é o trabalho. Porque apesar de depois me ter mudado, primeiro para Queluz e depois para Sintra, todos os dias vinha para Lisboa, fazia parte da minha vida, do meu trabalho. O negócio era em Lisboa, mesmo ali no centro. Então, os amigos encontravam-me no centro de Lisboa, não é? 

Se deixasses Lisboa o que te faria mais falta?

Houve uma fase em que cheguei aqui, comecei a estabelecer o meu espaço, a criar a minha rede de amigos e dei por mim no ambiente que domino. E cada vez que voltava a Lisboa, assim que entrava na ponte e via Lisboa, sentia assim uma emoção e uma alegria. Talvez sinta falta desse regresso a casa. Depois, gradualmente, vamos mudando. O espaço começou a mudar e comecei a ficar insatisfeito com Lisboa. A cidade começou a ter aspectos com os quais eu não me identificava e comecei a ter alguma dificuldade em lidar com ela. E, actualmente, sempre que saio de Lisboa, saio com alguma satisfação. Agora acabo por estar muito em Lisboa porque é trabalho. Os amigos foram-se separando, as relações acabaram, as pessoas estão também nas suas vidas. Muitos dos meus amigos já nem sequer vivem em Lisboa. Porque depois Lisboa também passa a ter um lado hostil, não é?

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7 months ago
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Francisco Charrua, 55 anos, Tatuador
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Parte 3

Qual a tua memória mais marcante de Lisboa?

Acho que tem que ver com o punk. É a memória de vários acontecimentos que têm que ver com liberdade. Tem que ver com, quando estás num meio maior, és anónimo, tens a liberdade de anonimato. Se estiveres num meio mais pequeno, toda a gente conhece. Aquilo que fazes está sempre a ser escrutinado. Em Lisboa tinha essa liberdade, podia sair à noite, podia ir a concertos, não havia ninguém a dizer que podes ou não fazer isto ou aquilo. No Alentejo, habituei-me a trabalhar no Verão e, com 13 ou 14 anos, ganhava muito bem. Quando vinha para Lisboa tinha mais dinheiro porque tinha este extra. Às vezes dizia «Bora aí ao Bairro Alto» e havia amigos que diziam que não tinham dinheiro para o comboio. Esta merda é surreal, é impensável. E a António Arroio também me marcou muito. Às tantas vais conhecendo cada vez mais pessoas e criando mais e mais amigos.

Qual o teu bairro preferido?

Epá, se calhar o Bairro Alto. Tinhas os sítios onde ias, onde conhecias toda a gente e sabias que ias encontrar as pessoas. Os sítios eram familiares e isto foi algo que teve sempre continuidade. Eu fui mudando de sítios, as pessoas foram mudando, e depois mais tarde as tatuagens também, não é? A proximidade das tatuagens com o Bairro Alto. Eu trabalhava lá ao pé. Muitas das coisas que se combinavam depois do trabalho era no Bairro, era só subir. Estamos a falar de finais dos anos 80, anos 90. A partir de 2000, Lisboa passou a ser diferente para mim, por outra questão. O negócio corria bem e eu tinha dinheiro. E quando tens acesso a uma cidade e tens dinheiro, e os teus amigos estão todos mais ou menos na mesma onda, todos os dias é dia de festa, não te privas de nada. Tens tempo para beber copos, tens uma vida que te permitia isso, ir aqui e ali, festas e concertos. Era uma altura em que havia muitos concertos.

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7 months ago
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Francisco Charrua, 55 anos, Tatuador
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Parte 2

Como te influenciaram a cultura e a vida de Lisboa?

A minha vida, bem não posso dividir a minha vida entre um antes de Lisboa e um depois de Lisboa, porque Lisboa existe minha vida desde muito cedo, apesar de eu agora viver no Alentejo. Mudei-me para o Alentejo quando era criança e o que acontecia é que, antes de vir estudar para Lisboa, Lisboa era as férias. Tinha a possibilidade de usufruir da cidade e de sair da província, e a província nessa altura era mesmo província a sério, agora fica a uma hora e meia de carro e já não há grande diferença entre a província e a cidade. Agora a fauna é a mesma, as pessoas já são todas iguais em todo lado, enfim as influências também.
Mas, a partir do momento em que passei a estudar em Lisboa, as férias passaram a ser no Alentejo. E Lisboa proporcionou-me, na altura certa, na idade certa, na adolescência, a possibilidade de estar em contacto com a subcultura que mais me formatou, que foi o punk. Que não foi o punk da primeira geração, que eu sou demasiado novo para ser apanhado pelo punk de 77, mas o Rock Rendez-Vous ainda fez parte da minha vida e vi lá uma série de concertos E há um episódio que ilustra bem esta mudança, pode dizer-se que foi um momento de deslumbramento, que foi ter consciência do sítio onde estava.
No meu primeiro ano da António Arroio, a festa de fim de ano foi com Kú de Judas, Capitão Fantasma, entre outras bandas que não me lembro agora, não sei se também com os K4 Quadrado Azul. Ou seja, passei de um colégio católico em Vila Nova de Milfontes, para a António Arroio e para o concerto de fim do ano, que ilustra bem o outro lado do espectro. Não que eu não viesse já com a cena da música, porque a música já existia lá, mas as coisas alargaram. Eu já tinha acesso a música no Alentejo, mas era música normal. A música que mais me influenciou era mais pesada, era AC/DC e Ramones. Mas claro que não sabia quem eram os Dead Kennedys, como é óbvio. O que aconteceu foi que veio pessoal de Moçambique e de Angola, que trouxeram discos que não havia cá e aí comecei a ouvir outras coisas. (continua nos comentários) by @chicoatomic
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8 months ago
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Uma Pororoca No Tejo
Francisco Charrua, 55 anos, Tatuador
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Parte 1

Qual o teu local favorito em Lisboa, e porquê?

Acho que o meu local favorito aqui em Lisboa, actualmente, é a casa. Tendo em conta o que a cidade já mudou, é o sítio onde às vezes me refugio, inclusive de Lisboa. É o meu espaço, não partilho casa com ninguém, a não ser quando a minha namorada vem cá e o meu filho, o Rafa, às vezes também está comigo, mas é o MEU espaço.
Uma coisa é um gajo estar numa relação com alguém, tens filhos, tens o cão, tens essa partilha de espaço, tens de ter atenção a toda a dinâmica. Outra coisa é teres a TUA casa, onde pões e dispõe à tua vontade. E acho que agora passo mais tempo no Alentejo do que aqui, mas quando venho para Lisboa, a cidade e a casa também servem um pouco para me isolar, e eu preciso de isolamento. Há pessoas que precisam de estar, eu preciso de isolamento para me auto-regular, preciso de estar isolado do mundo, de estar na minha cena, a fazer as minhas cenas, sem disciplina nenhuma.
Às vezes o que acontece é que eu venho para aqui trabalhar, para Alvalade, e isso e outras tarefas também me obrigam a sair de casa, mas, quando tenho um dia livre a meio da semana, organizo as coisas para não ter de sair, nem sequer para ir ao supermercado e posso estar fechado em casa o dia todo, no meu casulo.
E depois, a casa onde estou também tem a vantagem de ter vista, é um sítio elevado, consigo ver cá em baixo a rua de São Bento, consigo ver toda a encosta ali do príncipe Real, o Bairro Alto, vejo o rio. Ou seja, apesar de estar em casa, se me apetecer olhar para Lisboa, posso olhar para Lisboa. 

#umapororocanotejo #lisboa #lisbon #portugal #instagood #explorepage #explore #instagood #follow #like #photography #instadaily #photooftheday #bhfyp #art #insta #NewInterview #RealTalk #tattoo by @chicoatomic
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8 months ago
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Chico Atomic # Tattoo Lisboa by @chicoatomic
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