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Dimensão ficcional da narrativa. Bizarro e lindo lixo existencial cinematográfico. Twitter:@diegesisx
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Alphaville (1965)
Direção: Jean-Luc Godard 

'Eu me recuso a me tornar o que vocês chamam de normal.' 
É difícil enxergar certos padrões na vida ao nosso redor quando estamos imersos e não temos uma perspectiva de como seria de fora. Assim, seria possível uma população inteira entender que a cobiçada estabilidade emocional-social é uma utopia/distopia que anula o fator humano que nos diferencia dos animais? 
Alphaville é sobre uma cidade distópica em um outro planeta, suspensa no tempo-espaço, governada por um supercomputador, chamado Alpha 60. Esse computador é responsável por ditar as regras e os rumos que a sociedade deve tomar, além de anestesiar os seres humanos, banindo emoções e sentimentos que fogem da Lógica, e também seus derivados, como a arte e a linguagem. 
Nosso protagonista, Lemy Caution, é mandado à Alphaville com o propósito de destruir Alpha 60 e assassinar o Professor von Braun, seu criador. No meio do caminho, Lemy acaba conhecendo Natacha von Braun, filha do Professor, e o contato dos dois desperta sentimentos adormecidos na jovem cidadã de Alphaville. (+) taken in Alphaville by @diegesisx
7
9 months ago
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Nosferatu (2024) 
Direção: Robert Eggers

"Love is inferior to you. I told you, you are not of Human kind". 
Nosferatu... Nosferatu. Tudo que o vampiro de 1979 tinha de coitadinho, incel e carente, aqui, não existe mais. É só ruindade pura. Mas isso é bom, é ótimo, é perfeito! Pois assim como o amor pode se transformar no mais profundo ódio, o mesmo ódio pode dar espaço ao mais lindo amor, mas só para quem sabe amar (e nós amamos o Nosferatu). 
A historia nos apresenta, desta vez, Thomas Hutter, agente imobiliário que reside na Alemanha, encarregado de viajar para se encontrar com o conde Orlok em seu castelo, pois Orlok deseja adquirir uma casa no bairro de Hutter. Ignorando o mal presságio de sua esposa Ellen, Thomas acaba atraindo à sua cidade a própria destruição, acompanhada do vampiro que busca Ellen. 
Há uma terrível tensão sexual entre Ellen e Nosferatu. O corpo que suspira e funga dele, parece, mesmo de longe, contorcer e arrepiar em convulsões pélvicas o corpo dela. Essa 'coisa deles' escala a um nível em que não sabemos mais o que é tesão, transtorno psiquiátrico ou condenação eterna por erros da infância; talvez tudo junto, em uma espécie de simbiose pútrida. Quando a merda de um se une às fezes do outro, é quando se dá o início da relação, e escrevo isso não só falando dos dois, mas sobre toda humanidade. Ela precisou dele para curar seus problemas humanos, e ele passou a desejá-la para saciar sua solidão infinita. O problema é que ele não é humano, ele não é Deus e muito menos o Diabo. Nosferatu é a morte que anda e brinca de Deus, mimetizando o Pai Eterno em seu reino excomungado, despertado e sozinho, esse vampiro talarico vê em Ellen a única missão existente em seu horizonte. E quem sofre nisso, é quem não tem nada a ver com a história, quem está próximo. Pois mesmo ela dizendo que o odeia, no fundo ela o ama mais que tudo. O ódio e o medo genuíno são sofridos por quem está ao redor da catástrofe. Mas não por nós, pois sempre amaremos Nosferatu. taken in Wisborg by @diegesisx
5
2 years ago
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Solaris (1972)
Direção: Andrei Tarkóviski 

"Nós não precisamos de outros mundos. Nós precisamos de espelhos". 
Tudo que temos é esse planeta. Toda aventura humana, tudo que foi e ainda é, todo sentimento e cada pedaço da história foi construído sobre esse nosso mundo de água. E ainda que nossa consciência mimetize as marés, há uma espécie de maldição, a manutenção de uma forma de pensamento coletivo que nos mantém à parte da imensidão do nosso inconsciente. 
A história é sobre uma estação espacial que orbita o planeta fictício de Solaris, onde sua tripulação acabou apresentando um colapso nervoso. Um psicólogo é mandado para a estação para que sejam feitos relatórios sobre a possibilidade de que se continue a missão de exploração do planeta. 
Acontece que o planeta afeta o ser humano pra valer. Feixes de radiação foram lançadas sobre o infinito oceano, este que é uma especie de organismo vivo e inteligente, que respondeu manifestando seres humanos das antigas memórias reprimidas dos homens que residiam na estação. Esse oceano, essa especie de criatura cósmica, reconheceu o ataque e rejeitou essa natureza invasora batendo aonde dói, nas feridas emocionais de cada um. 
Por fim, qual o objetivo de explorar outros mundos? Em tudo que há de reprimido em nossa alma, há um apego de mesmo tamanho. Se explora outros mundos, para que não se explore a nós mesmos. É difícil não se apegar em um mundo hostil de solidão e ressentimento, onde a maré enraivecida engole e penetra em cada espaço da existência de cada ser. As águas acabam por preencher o vazio de nosso insconsciente, fazendo borbulhar, esquentando o que estava adormecido, tornando-nos para sempre um só. taken in Soviet Union/USSR by @diegesisx
4
2 years ago
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Incident in a Ghostland (2018)
Direção: Pascal Laugier 

'A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido (H.P. Lovecraft)'. 
O ser humano, diferente dos outros animais (com exceção dos cães domésticos), sente o medo de uma forma única. Um cervo que bebe água em uma represa e é atacado por um leopardo volta a tomar água assim que consegue escapar; um ser humano nunca voltaria a beber água da mesma forma. As feridas se manifestam em nossa alma em forma de trauma, e a nossa capacidade de fantasiar e contar historias é o que causa o medo psicológico, aquele que nos faz temer o futuro por causa do passado, e ter pavor do desconhecido em consequência de tudo que um dia foi tão familiar. 
A história nos apresenta Pauline, mãe de duas filhas, Beth e Vera, que acaba de herdar a casa de sua falecida tia. Logo na primeira noite na clássica casa medonha vitoriana, infestada de bonecas por todos os cantos, dois invasores se trancam com elas lá dentro e coisas acontecem. Anos depois, mesmo cada uma tendo lidado com a tragédia de forma diferente, parte de todas elas vai para sempre viver naquela terrível noite. 
Em um ambiente de dor e medo, não há apenas deleite na loucura, mas também redenção ao se confrontar e esmagar o causador do medo, se entregar 
à possibilidade de quase morte, a glória do triunfo! Penso que talvez por isso existam lutadores, guerreiros. E também os escritores! Seres mágicos, capazes de traduzir para as palavras mundos infinitamente mais complexos que nossa capacidade de compreensão, criando uma ponte entre o imenso universo desconhecido com o nosso planeta de monstros. taken in GhostLand by @diegesisx
2
2 years ago
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Crash (1996)
Direção: David Cronenberg

"O acidente de carro é um evento fertilizante e não destrutivo." Por mais esquisito que possa parecer, experiências de quase morte relacionadas aos automóveis podem mudar o rumo das coisas, ou simplesmente afundar o rumo que já existia previamente, levando tudo para o buraco. O trauma cria um buraco profundo na alma, extravasando lá do fundo todo material reprimido, repleto de projeção sexual em objetos inanimados e em tecidos de cicatrização ciborgue, é cada uma! A partir de então, condicionado fica o homem à toda matéria que agora o domina, matéria expelida do trauma, tornando o indivíduo um instrumento do mal, um fantoche de seus próprios prazeres estranhos. 
A trama nos apresenta James e sua esposa Catherine, que vivem um relacionamento aberto peculiar, onde ambos tentam se satisfazer com outras pessoas, mas sem sucesso. A reviravolta ocorre quando James vive um acidente de trânsito, que acaba com a morte do outro motorista. Em meio aos destroços, James contempla o seio exposto da esposa do homem que acaba de falecer, sendo o suficiente para despertar nele uma espécie de tara sexual progressiva por carros e corpos mutilados. Para melhorar a situação, ele e a viúva ficam hospitalizados no mesmo local, onde conhecem um médico especialista em reconstrução de corpos acidentados, que possui a mesma fissura por carros, acidentes, corpos metalizados e sexo fetichista. Através desse médico, descobrimos que existe uma organização de pessoas que compartilham desse mesmo distúrbio. 
Além de toda estranheza já mencionada, o filme deixa explícita a despersonalização do homem. Não se trata apenas de simples questões universais a respeito do tema, como o fato batido de que 'homens com pênis pequeno/disfunção erétil gostam de carros grandes para compensar a falta de potência' ou que 'homens são fissurados por carros por causa da adrenalina do iminente desastre', mas há também uma ruptura do ser, como se a proximidade com a morte destruísse as barreiras que definem o próprio ser humano. É um processo duplo, de ruptura e fusão; + taken in Canada by @diegesisx
4
3 years ago
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Buffalo 66 (1998)
Direção: Vincent Gallo

"Hoje é sua grande estreia, sua grande chance. Isso é atuação. Você é minha esposa." 
Como pode uma criatura que nunca foi amada, amar? Alguém que nunca aprendeu de forma empírica seu valor próprio e pertencimento; isto é, nunca lhe foi ensinado nada disto. Não há prazer algum em percorrer a existência quando até o dia de seu nascimento é amaldiçoado, mas a sensação de dormência quando um desajustado se encaixa em outro, compensa todo estrago ocorrido até ali. 
A trama nos apresenta Billy Brown acabando de sair da prisão. Ele é um rapaz muito esquisito, num nível capaz de fazer o telespectador se perguntar se o ator não deve ser assim na vida real, mas enfim, ao sair da prisão, Billy parece perdido no mundo. Deitado em posição fetal, sem ter para onde ir, meio perdido, Billy, como um feto que acaba de ser jogado de volta no mundo que o descartou, acaba conhecendo uma dançarina e a sequestra, exigindo que ela obedeça seu plano. Billy queria que ela fosse com ele até a casa de seus pais, fingindo ser sua namorada. 
Parte da ideia do desconforto que o filme nos transmite é ligada a aspectos que remetem aos primeiros anos da vida de um ser humano: desde o momento em que o conhecemos, em um ambiente iluminado e gelado, como uma sala de cirurgia, Billy sofre como uma criança desamparada. Incapaz de saciar sua vontade de urinar quando o convém, todo cheio de alergias e problemas gástricos, esse Herói surrado ainda tem que lidar com o fato de ter uma mãe maníaca obcecada por um time de futebol americano (Buffalo66) e um pai crápula asqueroso. 
A questão é não é só ser odiado, mas também nunca ter sido amado! Isso mexe com a cabeça do ser humano num nível que só quem é, sabe; mas ainda assim, é possível empatizar. Pairam no ar os sinais da castração que a falta de amor causa na pessoa, sempre na atmosfera que ela carrega, e também em seus ombros cansados, suas mãos inseguras, uma impotência emocional estampada em sua face e olhar devastado pela rejeição eterna. A redenção não é apenas aceitar a maldição que caiu sobre ti, mas enxergar com beleza a desgraça do outro, que ainda permanece ali, também humilhado, diante de seus pés. taken in Buffalo, Ny by @diegesisx
4
3 years ago
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Alien Abduction: Incident in Lake County (1998)
Direção: Dean Alioto.

"Oh man. You know what I think, I peed my pants". O contato com seres de outro planeta é algo recorrente e cristalmente claro ao longo de toda história, é óbvio, se você possui ao menos duas sinapses. Cada caso com sua peculiaridade, e cada peculiaridade sendo emitida pelo fator humano, inerente a todos os seres humanos, tornando única a forma como os meros mortais reagem à proximidade com uma forma de vida totalmente nova e ininteligível. 
O filme nos apresenta uma família em um jantar de Ação-de-Graças, dia bem simbólico por sinal. Ao longo da noite, coisas estranhas vão acontecendo. No meio disso, percebemos que o patriarca da família havia falecido há um tempo, e por isto existia toda uma questão sobre o filho mais velho ter que assumir o papel de líder local. Assim que há o primeiro contato, logo percebemos a imoralidade, onde nem animais são poupados. Por isto, é bom lembrar: eles não vêm em paz! Pode ser que em alguns casos até venham; mas a corrupção é quase unânime. Percebe-se que a proximidade de tais criaturas com seres humanos nos provoca uma especie de delirium, e aquilo que nos é guardado com muita dor é extravasado, como se os átomos de seus corpos fossem diferentes dos que compõe o nosso corpo mortal, logo, emanam um tipo de energia que nos deixa inebriados. Aqui, todos os limites estão rompidos, é a própria colonização! Somos o experimento de eras, o gene perdido de um universo, a mercê de tanto trauma, replicando em nossos irmãos terrenos a maldição colonial que nos destrói desde o início dos tempos. taken in Lake County by @diegesisx
1
3 years ago
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Hiroshima Mon Amour (1959)
Direção: Alain Resnais

‘Chegará o tempo em que não poderemos mais nomear o que nos une. O nome desaparecerá gradualmente da nossa memória. Então, desaparecerá completamente.’ 
Poucos são os felizardos que conseguem construir sobre certas cidades um novo amor que aos poucos nasce, digo, certas cidades especiais, e não qualquer pedaço de terra esquecido por Deus que existe por aí no planeta. Chega um momento em que se torna difícil desvincular a cidade da pessoa, a pessoa da cidade, e a paixão de todo contexto local; e no fim das contas, inútil seria esta separação, já que o fruto de certos amores são palpáveis e dolorosos, como as memórias que ainda restaram. 
Em Hiroshima Mon Amour, nos é apresentada a historia de uma atriz francesa e um arquiteto japonês. Os dois vivem uma espécie de ‘noite de amor’ na cidade de Hiroshima, pois ela está ali para as gravações de um filme. Assim, esse contexto permite aos dois a evocação de memórias, o despertar dos prazeres, e o mergulho dentro do coração alheio, que apenas o amor proporciona. 
Mas que amor é esse? Um amor que brota do asfalto nocivo de Hiroshima? Um amor que explode em silêncio, e gradativamente cresce como um cataclisma, finalmente nos chocando com sua onda de som e fogo? Um amor dolorido e impuro, capaz de fundir dois corpos, tornando-os areia radioativa? Sim, é esse amor! Hiroshima, aqui, representa, além de tudo, como o amor pode nascer e renascer, inclusive, em um contexto super desfavorável. As vezes, mesmo vencendo a guerra, algo dentro de nós morre; em outras vezes, precisamos perder tudo e esperar. Pois ele renasce, e como renasce! Como se estivesse intrínseco ao solo, ao solo de todos os lugares, de cada vila abandonada e de cada cidade histórica, de cada alma humilhada e de cada coração despedaçado que existe nesse mundo, de todos os beijos na cama e de todos abraços de despedida. E, no fim das contas, felizardos são aqueles que esperam e continuam para sempre a se lembrar. taken in Hiroshima by @diegesisx
2
3 years ago
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Holy Motors (2012)
Direção: Leo Carax

“Seu castigo, é você ser quem é. Ter que conviver consigo mesma.” 
Em uma cidade como Paris, onde suas luzes despertam os sonhos e os sonhos despertam a arte, o drama deve ser vivido. Não só vivido, como também deve-se convencer, tem que parecer natural. Do contrário, a plateia inerte e sonolenta desperta, e a vigília é um direito apenas do artista. 
Nosso herói é o Mr. Oscar. Sua rotina consiste em interpretar vários personagens diferentes ao longo do dia, tendo como ajudante sua motorista Céline, que o transporta em uma limusine branca de um lado ao outro da distópica Paris. Assim, indo desde mendigo ou monstro subterrâneo, até bancário ou pai-de-família, Mr. Oscar encarna na pele dessas personas por instantes, seguindo roteiros criados pela Holy Motors (uma espécie de empresa automobilística-midiática), se perdendo nesses pedaços de vida que encontra ao longo dos dias. 
Tendo sempre a noção de que está sendo filmado, mesmo declarando que não enxerga as câmeras por serem muito pequenas, vemos a ruptura da matéria consistente que mantém a unicidade de Mr. Oscar. Observamos ele aos poucos se deteriorar em um mundo que já apodreceu há tempos, onde a santa máquina que os mantém girando derrubou certos conceitos comuns à aventura humana terrestre: o amor, a arte, o sono e a morte. 
Dessa forma, a queda dá origem à fusão: os gêneros se cruzam naturalmente; o amor não é exatamente verdadeiro, mas musical e dramatizado; a morte não configura mais o eterno fim; a arte se entrelaça à vida, não havendo mais distinções; e o sono é um privilégio apenas dos telespectadores, pois o artista mantém nossos sonhos acordados, e não há nada que nos mantém mais vivos do que ver os outros morrendo. E essa é a beleza do ato para o artista, ter a consciência de que a melancolia do eterno despertar é mais prazerosa que o insuportável e sonolento pesadelo de ser a mesma pessoa todos os dias. taken in Paris (Paris, Fra by @diegesisx
1
4 years ago
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Pickpocket (1959)
Direção: Robert Bresson

“Eu acreditei em Deus, Jeanne, por três minutos”. 
Há um forte impulso dentro de certos homens, “bem-aventurados”, que o elevam acima de seus camaradas e companheiros de sociedade, pelo menos em sua própria visão. Tal impulso, como todos os possíveis outros que existam, nasce de uma idéia, um pequeno embrião de pensamento, que toma forma e fagocita seu hospedeiro, deixando-o com uma espécie de rígida dormência. Nosso herói, Michel, sofre com esse monstro interno que foi alimentado por uma vida apática e empobrecida, castigado pelas dores alheias e confinado em um muquifo domiciliar claustrofóbico. Assim, Michel é consumido pela ideia de que está acima dos demais, que seus vis atos apenas enaltecem a grandeza do Deus que mora dentro de si, tangenciando o julgamento moral dos mortais que deveriam lhe agradecer por toda humilhação. 
Desse modo, no meio de toda essa Síndrome de Raskólnikov, Michel passa a furtar transeuntes nas ruas de Paris. Porém, ainda que mergulhando cada vez mais nessa bateção de carteira, não é possível enxergar euforia em seus atos, apenas o efeito anestésico da ideia que já tomou conta de todo seu ser: tudo é permitido! E esse conceito o excita, não o crime em si, mas a possibilidade de passar até por cima da mãe. Michel é apenas mais um de muitos esquisitos que se escondem por aí — sim, se escondem! Pois acham que ao negarem Tudo, se alçarão aos céus, como ratos que adquirem asas e se tornam morcegos. Mas, pertencendo ao esgoto, nunca deixarão de ser ratos. taken in Paris, France by @diegesisx
2
5 years ago
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Stalker (1979)
Direção: Andrei Tarkovsky

“Nosso mundo é irremediavelmente chato. Não tem telepatia, nem fantasmas, nem discos voadores, nem nada disso. O mundo é regido pelas leis do ferro-fundido.” 
A falta da esperança permeia o mundo desajustado dos homens, reflete a insegurança frente às barreiras de ferro e concreto que os prendem ao chão, limitando sua ascensão espiritual. Mas e se um local fosse capaz de reviver nossos sonhos mais profundos, nem que por um breve instante; o que romperia do âmago e se projetaria em um frenesi catártico? Qual o reflexo de seu desejo, se ele vem de uma vida de vilezas e desesperança? Seria tudo que é seu, muito parecido com o meu? 
Stalker conta a história de um local na antiga união soviética onde caiu um meteorito. Após pessoas desaparecerem em seus arredores e coisas inexplicáveis acontecerem, o exército cercou a região e tornou inacessível a entrada ao local. Assim, os stalkers são pessoas que trabalham levando curiosos à Zona, turistas que crêem na misticidade da área, em uma possível realização de seus desejos. Na trama, o Stalker é encarregado de conduzir o Escritor e o Professor, um buscando inspiração para escrever e o outro um possível Prêmio Nobel, respectivamente. 
A obra, quase a todo instante, deixa claro ao telespectador a relação íntima do diretor Andrei Tarkovsky com a natureza radioativa do local. Seja pelo contexto de guerra-fria da época ou pelos dramas pessoais do diretor acerca dos danos causados pela indústria química, é possível sentir como se ele estivesse conversando conosco. A fotografia do Mundo dos Homens em sépia contrasta com o belo colorido que nos surpreende quando nossos três heróis adentram na Zona, uma contraposição entre o sujo/desalmado e o místico/vivo. Porém, tais mudanças não vêm apenas do exterior, mas do interior de nossos aventureiros: sem saber há quanto tempo estão lá ou quais armadilhas encontrarão, logo a Zona começa a fazer efeito sob seus espíritos. Desse modo, vemos a gigantesca influência de Dostóievski, tanto na revelação da alma de nossas personagens, quanto na alusão aos 3 irmãos Karamazov. 
(+) taken in Estonia by @diegesisx
2
5 years ago
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Mauvais sang (1986)
Direção: Leos Carax

“We did something irreperable. Why? For nothing”. 
Viver a vida implica a coexistência de diversas pontes problemáticas que se cruzam. Geralmente, se correlacionam e pesam sob os ombros dos bem-aventurados questões complexas de diversos âmbitos, colocando em batalha a tríplice moral-vital que sustenta esse Ser: o amor, o passado e a nação. Como construir um novo amor com os fragmentos dolorosos de um que já se foi? 
Como seguir em frente, se velhos fantasmas do passado se mostram mais concretos que as dores físicas do presente? 
Mauvais sang nos presenteia com Alex, jovem introspectivo e silencioso (apelidado de Boca Fechada), que vive à sombra do falecido pai, mesmo com a falta de contato entre os dois. Com o sonho de recomeçar sua breve vida, Alex aceita participar de um roubo orquestrado por dois antigos colegas de pai, que buscam furtar o antídoto para um vírus que está contaminando aqueles que se relacionam sexualmente sem a existência de um amor genuíno. 
A trama parece utilizar os mesmos pincéis que Godard usou para pintar seu estilo revolucionário: os cortes bruscos e uma confusa trilha sonora nos atordoam, ao mesmo tempo em que se mesclam períodos de silêncio e contemplação. E não é ao acaso que a quietude nos engole, pois nosso herói Alex foi apelidado na infância como Boca Fechada devido à sua mudez, ainda que possuísse uma destreza invejável com as mãos. Assim, sua tendência à praticidade se tornou o reflexo de uma vida inteira de erros, mas não destruiu o miolo sentimental que ele guarda dentro de si, e que eventualmente toma uma maior forma, relevando uma persona brincalhona e carinhosa, com trejeitos até infantilizados e imaturos. 
Desse modo, Alex constrói com seus sentimentos aquilo que é incapaz às suas mãos. Percebe-se que nosso herói busca constantemente se livrar de seu passado trágico, mas tropeça em seus próprios sentimentos, que são preenchidos pelo vibrante vermelho que preenche a tela e nos transmite uma sensação de paixão e alerta, em meio a cenários de neutralidade suja cinzenta. E não seria essa a natureza de nosso herói, uma casca grossa de cimento que envolve um núcleo vermelho pulsante? (+) taken in Paris, France by @diegesisx
4
5 years ago
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