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— "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" (Calvino, 2007, p. 16);
— Estudo James Joyce;
— Literatura/cinema.
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"Tradição pode ser definida como uma extensão da cidadania. Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes: nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que meramente estão andando por aí. Todos os democratas contestam que os homens devem ser desqualificados pelo acidente de terem nascido; a tradição contesta sua desqualificação pelo acidente de terem morrido" (Chesterton, 2019, p. 57).

A tradição não é apego cego ao passado, mas fidelidade ao que permaneceu. Ela é a memória viva da civilização; herança que atravessa gerações por meio de símbolos, ritos e verdades que resistiram ao tempo. Onde o presente vê apenas antiguidade, a tradição reconhece maturidade. A tradição, pois, é aquilo que resistiu ao tempo porque tinha razão de permanecer. Valorizemos o perene, que não se deixa dissolver pelo instante. 

A mentalidade contemporânea suspeita de tudo o que não nasceu ontem. Confunde ruptura com coragem e novidade com verdade. Ao rejeitar o legado recebido, empobrece a linguagem, dissolve critérios e se torna refém do instante. O que se apresenta como ruptura costuma ser apenas repetição — sem memória e sem profundidade. Típico da contemporaneidade.

O tradicionalismo afirma que a sabedoria é cumulativa. Há mais verdade no que atravessou séculos do que no entusiasmo passageiro do agora. Símbolos antigos, sobretudo os sacros, não são ornamentos: são formas consagradas de ordenar a vida e preservar o sentido. Ouvir os mortos não é negar o tempo. É impedir que o tempo se torne vazio.

A tradição é, portanto, um exercício de humildade histórica. Ela reconhece que não somos o ponto culminante e fulcral da experiência humana, mas seus herdeiros provisórios. Só pode renovar de fato quem recebe; só pode avançar quem sabe o que preserva. Um presente que se julga absoluto perde a medida, dissolve critérios e se condena ao fracasso.

O futuro só se sustenta quando nasce do passado. Fora disso, há apenas fragmentação, esquecimento e ruína disfarçada de progresso.

Tradição, e não progresso vazio.

Sem mi-mi-mi.

Referência 

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Principis, 2019. by @felipe_mikesio
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9 months ago
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Sou autor no livro em homenagem aos 300 anos de Fortaleza.

É um prazer inestimável fazer parte dessa coletânea caleidoscópica da alma da capital do Ceará. Fico feliz!

Você encontra, na obra, crônicas de todos os tipos, de todas as escritas; encontra, pois, uma multiplicidade de amores, vivências, saudades, lembranças, alegrias, tristezas e uma miríade de considerações ímpares, tão sem par — idiossincráticas e incomensuráveis por natureza. 

Eu escrevo sobre o Benfica, falando da boêmia à efervescência cultural, das livrarias ao carrinho de lanche do Wilson. Esse é um bairro múltiplo, histórico, marcante, cheio de vida. Foi bom escrever sobre ele, pois "A história de Fortaleza se entrelaça com a história do Benfica" (Mikésio, 2025, p. 146).

És o coração pulsante da cidade.

"Tudo é história, é um pedaço do quebra-cabeça que constitui as raízes indissociáveis do Benfica" (Ibid.).

Agradeço a oportunidade. Viva a literatura!

Referência

MIKÉSIO, Felipe. Benfica, o coração pulsante de Fortaleza. In: CAVALCANTE JUNIOR, F. S. (Org.). Fortaleza Amada. Fortaleza: Editora UFC, 2025, p. 146-147. by @felipe_mikesio
15
9 months ago
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Fim.

Agora é despedida mesmo.

A todos os alunos que fizeram parte dessa minha trajetória (não só os da fotografia ou dessa turma): muito obrigado! Guardarei, com carinho, no meu coração, lembranças maravilhosas e inesquecíveis. Fizeram-me sorrir verdadeiramente. Estarei na torcida por vocês. Desejo-lhes tudo de bom!

É como disse Drummond (2012, p. 26):

"[...] as coisas findas, 
muito mais que lindas,
essas ficarão".

Referência 

DRUMMOND, Carlos de. Memória. In: Claro enigma. Posfácio de Samuel Titan Jr. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 26.

Ps.: obrigado! by @felipe_mikesio
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4 months ago
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Patos e natureza. by @felipe_mikesio
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17 hours ago
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Será um texto diferente de todos que já escrevi.

Li esse livro há pouco mais de seis anos e não me lembro, basicamente, de nada do desenvolvimento, do que acontece, dos personagens secundários e de tantas outras coisas que constituem um romance.

E por que diabos estou escrevendo sobre ele?

Foi um livro que me marcou.

Lembro-me de estar lendo essa obra, balançando-me numa rede no alpendre lá de casa, no interior, escutando o canto dos pássaros — parece poético demais, mas é comum (e, como sempre falo, é no comum que temos o extraordinário).

E tem o antes: comprei-o lá no Iandê, na Caucaia, após avistar, ao longe, essa capa fantástica de bonita. As capas da Bertrand Brasil são de uma beleza ímpar.

Mesmo sendo um livro de quase 300 páginas, li-o em uma tarde — e ainda, com carinho, coloquei uma fita na parte que estava rasgando.

Comecei a leitura um pouco antes do almoço, fui encher a pança, tomei banho, coloquei uma camisa do Corinthians LARANJA (homenagem ao terrão), deitei na rede e li. Sem fazer anotações, sem grifar, sem fazer nada além de ler, pela primeira vez, um livro de Hemingway — antes do afamado "O Velho e o Mar" (prefiro este que estou a falar), que li posteriormente.

Sobre a obra (falando do que lembro e do que é importante para mim): o que me fascinou, imediatamente, foi a figura demasiadamente humana de Harry Morgan, personagem principal do romance.

Morgan é um homem simples, durão e pragmático. O total oposto do Homem Supérfluo — aquele que não faz porra nenhuma da vida. Sua principal meta diária e de vida: colocar comida à mesa. Um homem decidido a fazer de tudo para cuidar e proteger a família.

E é aí que entra Hemingway. 

Ele tem uma escrita extremamente única — muito evidente em seus contos (são indivisíveis e, infelizmente, subestimados/pouco conhecidos). É seca, direta, contundente e sem firula.

Não precisa enfeitar a miséria, romantizar o sofrimento ou transformar seus personagens em heróis. A realidade aparece com toda a sua dureza, e ele não parece preocupado em torná-la mais bonita para nós.

CONTINUA ⬇️⬇️⬇️ by @felipe_mikesio
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a day ago
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Feliz Dia dos Professores!

Tenho um carinho enorme por essa profissão e por quem escolhe fazer dela parte da própria vida. Ensinar é uma responsabilidade imensa, e uma das formas mais bonitas de participar da história de alguém.

Não sigo o caminho da docência, mas como é foda ser professor!

Acho incrível pensar que um professor pode apresentar um livro que alguém nunca mais vai esquecer, despertar uma curiosidade que se transforma em paixão ou ajudar um aluno a enxergar possibilidades que ele nem imaginava.

Dar aula é muito mais do que transmitir conhecimento: é compartilhar o que se sabe, aprender nas trocas, acompanhar descobertas e fazer parte de uma fase da vida de tantas pessoas.

E tudo isso enquanto se enfrenta uma rotina que nem sempre recebe o reconhecimento que merece. Por isso, quem escolhe ensinar merece muito mais do que homenagens em uma data comemorativa: merece respeito, valorização e condições dignas para exercer a profissão.

Já tive algumas experiências que me fizeram enxergar isso de perto. Do Ensino Fundamental: 6° ao 9°, e Ensino Médio. E foi bom demais! Experiência única.

Minha relação com eles sempre foi cheia de brincadeiras, respeito, apoio, conversas e risadas. Foi uma experiência muito divertida e gratificante, que guardo com muito carinho. No meio de tantas redações e aulas, construí vínculos e vivi momentos que levo comigo até hoje.

Também tive a oportunidade de ser mediador cultural na Casa de José de Alencar, compartilhando conhecimentos sobre literatura, Romantismo e as obras do escritor. Para quem ama tanto os livros quanto eu, poder apresentar esse universo a outras pessoas foi uma alegria enorme.

Quando penso nos professores que passaram pela minha vida, lembro não apenas do que aprendi, mas de quem me ajudou a descobrir meus próprios caminhos.

Há coisas que aprendemos que só fazem sentido muito tempo depois, e talvez o professor nunca chegue a saber o quanto foi importante naquele processo. Mas foi, é e sempre será lembrado.

A todos os professores que fizeram e fazem parte dessas histórias, o meu carinho, a minha gratidão e o meu respeito.

Feliz Dia dos Professores! by @felipe_mikesio
6
3 days ago
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"[...] contanto que se ame e tenha coragem" (Dostoiévski, 2012, p. 107) é uma boa definição sobre amar e continuar amando. 

Referência 

FIÓDOR, Dostoiévski. Diário do subsolo. Tradução e notas de Oleg Almeida. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 107.

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#dostoievski #diariodosubsolo #memoriasdosubsolo #olegalmeida #literaturarussa by @felipe_mikesio
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4 days ago
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Hoje, minha mãe e meu pai completam 18 anos de casados.

Dezoito anos de uma vida compartilhada, de tantos momentos bons, de arrumações superadas, de mudanças e de tudo aquilo que só quem divide a vida com alguém sabe o que significa.

E acho muito bonito olhar para vocês e ver a história que construíram juntos. Afinal, um casamento não se resume aos dias felizes, mas também à parceria, ao cuidado e à disposição de continuar caminhando lado a lado, mesmo quando as coisas não são tão fáceis. E isso que é foda numa verdadeira união.

Fugindo do clichê: fico muito feliz por ver minha mãe ao lado de um homem de verdade, que a ama, respeita e cuida dela. Você fez a escolha certa, mãe!

E, no seu caso, Davi, essa admiração vem acompanhada de um carinho ainda mais especial, porque você também faz parte da minha história.

Eu era pequenininho quando vocês começaram essa caminhada, e você me viu crescer, cuidou de mim e participou da minha criação. Foi pai. E sou muito grato por isso. Tenho um carinho enorme por você e fico feliz por saber que minha mãe tem ao lado dela alguém honrado e íntegro como você.

Quem me conhece sabe o quanto valorizo um amor para a vida inteira. Sempre pensei em construir uma família, encontrar minha mulher e compartilhar com ela não apenas alguns anos, mas décadas, uma vida inteira, a eternidade. Quero envelhecer ao lado de alguém, construir nossas próprias histórias e, depois de tantos anos, olhar para trás e sentir a felicidade de ter vivido tudo aquilo com a mesma pessoa.

Quero, pois, alguém com quem possa compartilhar não apenas os melhores anos da vida, mas todos eles.

E é muito bom poder olhar para vocês e ver uma história que já dura 18 anos. Mais do que desejar viver algo assim um dia, fico feliz por ter essa referência tão perto de mim.

Espero que vocês ainda compartilhem muitos e muitos anos, que continuem cuidando um do outro e que nunca faltem motivos para celebrar a vida que construíram juntos.

Fico muito feliz por vocês e pela perpetuação do amor. 

Que Deus os abençoe; e que abençoe, também, essa união e todos os anos que ainda virão.

Que dure para sempre, como deve ser uma união.

Feliz 18 anos de casamento! by @felipe_mikesio
9
5 days ago
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Justaposição urbano-natural. Dicotomia cidade-natureza. by @felipe_mikesio
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5 days ago
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Neste Dia das Crianças, eu queria falar um pouquinho sobre elas, sobre o amor que representam e sobre essa vontade tão demasiada de, um dia, eu também ter uma pessoinha para chamar de filho(a).

Não sou pai; sê-lo, todavia, é um dos sonhos mais bonitos que carrego comigo. Não vejo a hora!

Fico imaginando como deve ser descobrir o mundo, novamente, pelos olhos de uma criança. Acompanhar suas primeiras palavras, comemorar seus pequenos progressos, contar histórias antes de dormir, receber aqueles abraços apertados e perceber que, para alguém tão pequenininho, a nossa presença pode significar o mundo inteiro.

Deve ser uma das formas mais bonitas de o amor existir: encontrar, em outra pessoa, uma razão tão grande para cuidar, ensinar, proteger e desejar que a vida seja generosa.

Quando penso na possibilidade de ser pai, imagino as pequenas coisas: uma mãozinha segurando a minha, perguntas inesperadas, brincadeiras no meio da sala, histórias inventadas, desenhos presos na geladeira e um beijo de boa-noite antes de dormir.

Imagino, também, a responsabilidade de ensinar, pelo exemplo, a ser gentil, respeitar as pessoas e nunca perder a capacidade de se encantar com as coisas simples da vida.

Ainda não sei como será viver tudo isso, mas espero que um dia tenha essa felicidade. E, quando esse dia chegar, quero me lembrar de que meu filho e/ou minha filha não precisará encontrar em mim alguém perfeito, mas alguém presente; alguém que saiba acolher, reconhecer os próprios erros, oferecer colo e amar até nos dias difíceis.

Neste Dia das Crianças, meu coração se enche de ternura por esses pequenos seres que tornam a vida mais bonita. Que nunca lhes faltem amor, proteção, sonhos e motivos para sorrir. E que eu também tenha, um dia, a alegria de descobrir, de pertinho, tudo aquilo que hoje habita tão carinhosamente os meus sonhos.

É... escrevendo este texto, penso que ser pai é tudo isso mesmo: descobrir que uma parte do nosso coração pode viver fora do peito — pequenininha, de mãos dadas conosco, ensinando-nos, todos os dias, uma nova maneira de amar.

Feliz Dia das Crianças! Que sejamos sempre capazes de cuidar da infância com o amor que ela merece. by @felipe_mikesio
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6 days ago
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Um extraordinário clássico americano. Um livro noturno, da madrugada, de solidão e reflexão.

"O Grande Gatsby", de Fitzgerald, não é, como muitos pensam, apenas sobre festas megalomaníacas, glamour ou a alta sociedade dos anos 20 nos EUA. É, antes, sobre tempo perdido, sonhos que não se realizam, esperança que dói e a solidão estrutural do sujeito moderno.

Cada gesto, cada olhar e cada festa é um lembrete de que a vida pode ser plena e vazia ao mesmo tempo, e que a presença de outros jamais preenche o buraco que carregamos dentro de nós.

Esse trecho (imagem ao lado) reflete tudo isso. A cidade brilha, as vitrines cintilam, os jovens passam apressados, os restaurantes respiram vida… e lá está Gatsby, no meio de tudo, visível e invisível, presente e ausente ao mesmo tempo, como se jamais tivesse pertencido a lugar algum. Um estrangeiro da sua própria vida

A crueldade do trecho está no que ele não diz: a cidade pulsa, move-se, mas não o acolhe. Ele observa, deseja, espera — e, ainda assim, permanece sozinho. Uma solidão que não se mede pela ausência de gente, mas pela impossibilidade de pertencer, de tocar, de ser visto de verdade.

É impossível ler sem sentir a própria vida refletida ali. Quantas vezes estamos cercados de pessoas, barulho, festas, imagens em movimento e, ainda assim, sentimos aquele vazio que nenhuma luz, nenhuma música, nenhuma companhia consegue preencher? Gatsby é o espelho cru desse sentimento: a solidão que existe mesmo quando tudo parece cheio, mesmo quando todos os olhares estão sobre nós.

Lendo esse trecho de madrugada, a cidade parece linda e vibrante — mas seu brilho é apenas superfície. Gatsby me lembra que todos nós, em algum momento, já caminhamos no meio de tudo e, ainda assim, permanecemos sozinhos, esperando demais, desejando demais, vivendo de menos.

E dói pensar que essa solidão não é exceção: é condição humana. É a lembrança cruel de que estar no meio de tudo não garante nunca estar em lugar algum.

É a vida sem maquiagem; com verdade.

Referência 

FITZGERALD, Scott. O Grande Gatsby. Rio de Janeiro: Record/Altaya, 2000, p. 51.

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#ograndegatsby #scottfitzgerald #madrugada #solidão #decadade20 by @felipe_mikesio
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10 days ago
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Eu vejo esse trecho de um jeito bem direto: existe desejo sexual (forte), mas também espiritual — genuinamente.

O narrador não está só admirando a outra pessoa; ele está envolvido fisicamente e emocionalmente com ela. Quando fala dos "[...] nossos corpos doidos", eu sinto que ele está mostrando, justamente, essa entrega, como se os dois se deixassem levar pelo desejo.

Mas também o narrador fala do corpo e da relação como se estivesse vivendo algo muito maior do que, simplesmente, uma atração. Quando ele fala em "[...] apoteose branca de carne...", entendo que ele transforma o desejo em algo quase sublime e inalcançável.

O erótico e o sagrado tomam cena. Entrelaçam-se entre a castidade e o pecado.

A expressão "[...] nua e litúrgica" passa, justamente, essa sensação: ao mesmo tempo em que existe desejo pelo corpo, existe também uma espécie de admiração e fascínio por ele.

Também acho interessante que ele não descreve tudo de forma explícita. Ele fala do corpo, da nudez e dos "delírios", e isso já deixa claro o clima sexual da cena. Nada é encenado, mas sentido, como a mão que pulsa e a virilha que sente.

Para mim, essa forma de escrever faz o desejo parecer ainda mais intenso, porque a gente percebe o que está acontecendo pelas sensações do narrador. Somos guiados... bem devagarinho... E o êxtase vem!

E quando ele diz: "Eu tinha-a! Eu tinha-a!", fica muito evidente o quanto ele estava tomado por aquele momento. Não mais apenas algo corpóreo, mas etéreo.

Eu interpreto esse trecho como uma mistura de desejo, prazer e sensação de ter, finalmente, aquela pessoa para si. Como se estivesse tentando acreditar que aquilo, realmente, está acontecendo. É como se o desejo fosse tão intenso que chegasse a parecer um sonho.

É uma passagem bem carnal, mas também muito emocional. Apresenta-se possibilidades e quebras de estigmas/dogmas de corpo, entrega, desejo e fim.

A sexualidade, pois, não aparece apenas como algo físico. Ela está muito ligada à paixão, ao fascínio e à própria imaginação do narrador.

Trecho de uma ambiguidade bonita e deliciosa.

Referência 

SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio. São Paulo: Editora Escala, s.d., p. 49. by @felipe_mikesio
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14 days ago
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