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Arte ritual contemporânea
Criador da série Corações dos Orixás
Obras originais • Fine Art • Edições limitadas
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Oxum é água de fundamento. 
É o poder antigo que corre nas entranhas da terra, alimenta o ventre e assegura a continuidade da vida.
Antes do ouro, das joias e dos espelhos, já existia o seu axé, indispensável à criação e à permanência de tudo aquilo que nasce.

Nos ensinamentos ancestrais de Ifá, quando os Orixás tentaram organizar o mundo sem a participação de Oxum, seus trabalhos não prosperaram. 
A terra não produzia, a vida não se multiplicava e os caminhos permaneciam fechados. 

Somente quando reconheceram sua autoridade a criação encontrou continuidade. Porque nenhum poder se completa desprezando a força feminina.

Oxum é Ìyá Odò, mãe do rio. 
Sua água não é apenas elemento da natureza. 
É território sagrado, morada de sua força e expressão de um mistério que atravessa o nascimento, a fertilidade, a prosperidade e a descendência.

No Candomblé, seu fundamento não se encerra na doçura. Oxum é senhora de vontade, sabedoria e autoridade. Conhece a riqueza que alimenta e a miséria que ensina. 
Conhece o segredo das águas que oferecem vida, mas também daqueles rios que transbordam quando seus limites não são respeitados.

Seu abebé é instrumento de majestade. O ouro manifesta sua realeza. 
O mel evoca sua capacidade de adoçar os caminhos, sem retirar a firmeza de suas decisões. 
Oxum não precisa abandonar a delicadeza para exercer seu poder.

No barracão, sua presença é reconhecida nas cantigas, no toque dos atabaques e na dignidade de sua dança. 
Cada gesto carrega memória. 
Cada louvação reafirma um axé transmitido pelas mãos dos mais velhos e preservado no respeito aos fundamentos da casa.

Neste coração, sustentado por mãos negras, Oxum se apresenta como força de criação e permanência. 
O ouro anuncia sua soberania, enquanto as águas recordam que toda existência precisa de uma fonte para continuar.

Oxum é mãe, mas não somente acolhimento. 
É rainha, mas não somente riqueza. É beleza, mas jamais apenas aparência.

É o poder feminino que não pode ser retirado da criação.

Ora yê yê ô, Ìyá Oxum!
Obra de arte exclusiva para @leila_penteado
Sua bênção, Minha Senhora!

© Jefferson Mendonça.
Edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados. taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
1
12 hours ago
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OXÓSSI MENINO: O AXÉ ANCESTRAL DO REI DE KETU.

Okê Arô, Oxóssi! Okê, Odé!

A mata reconhece seu rei mesmo quando ele se apresenta menino. Antes que suas mãos pequenas segurassem o ofá, o axé dos antigos já acompanhava seus passos. 
Oxóssi não precisa crescer para ser grande. 
Sua força vem de longe, do tempo em que os mais velhos ensinavam a ouvir a folha, respeitar a caça e repartir o alimento.

Odé é rei de Ketu, caçador de uma só flecha. 
Conhece as veredas escondidas, o silêncio dos bichos e o lugar onde a vida se renova. 
Sua flecha não parte por vaidade. Parte com fundamento, porque há um povo esperando seu retorno, há bocas esperando comida e há uma comunidade que precisa permanecer de pé.

Na imagem do pequeno caçador mora a lembrança do aprendizado dentro do terreiro. 
O mais novo observa, pede a bênção, escuta o toque do atabaque e aprende que o saber dos ancestrais não se compra nem se apressa. É recebido com respeito, cuidado e responsabilidade.

Oxóssi é o alimento que chega à mesa, a folha conhecida por quem tem saber, a inteligência que encontra saída onde só parecia haver mata fechada. 
Sua riqueza não é a caça guardada para um só, mas a fartura que alcança todos.

Quando seu nome é saudado na casa de santo, saúda-se o rei que sustenta, o pai que abre caminhos e o caçador que conhece a necessidade dos seus filhos. 
A onça vigia, os pássaros anunciam sua passagem e a floresta guarda seus segredos.

Que o ofá de Odé encontre sustento para cada família. 
Que nenhuma criança se deite com fome. 
Que os mais velhos tenham sua sabedoria respeitada e que os mais novos jamais percam o caminho do axé.

O corpo retratado é de menino, mas a força que o habita é ancestral. 

Oxóssi é fundamento vivo, memória de Ketu e fartura repartida.

Okê Arô, meu pai Oxóssi! Arolê, Odé!

Arolêeeeeeee!!!!
Axé!

© Jefferson Mendonça.
Edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados.
É vedada a reprodução, total ou parcial, sem prévia autorização.

#ArteSacra
#arteespiritual
#artedeterreiro
#oxossi taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
2
a day ago
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Íròkò Issó! Eró! Íròkò Kissilé.

Antes que existisse um nome para cada ancestral, antes que o primeiro filho aprendesse a reverenciar seus mais velhos, Íròkò já guardava nas profundezas da terra a memória daqueles que o mundo ainda conheceria.

Íròkò é o tempo que não morre. 
É a raiz que permanece quando o corpo retorna ao barro. 
É o testemunho sagrado de todas as vidas que passaram pela terra, deixando seus passos, suas dores, suas rezas e seus fundamentos.

Íròkò Olúwére!

No terreiro, diante da gameleira envolvida pelo ojá branco, até o silêncio carrega reverência. 
Ali mora um Orixá antigo, senhor de uma sabedoria que não se aprende nos livros. 
É preciso respeitar o chão, ouvir os mais velhos e compreender que cada fundamento preservado custou a resistência de muitas gerações.

Quantas mãos já tocaram aquela terra pedindo proteção? 
Quantas lágrimas foram entregues às suas raízes? 
Quantos filhos partiram para o Orun deixando aos que ficaram a responsabilidade de manter o sagrado vivo?

IÍròkò sabe. 
Íròkò viu. 
Íròkò guarda.

Neste coração, as raízes tornam-se veias, a madeira se faz carne e a seiva carrega a memória de um povo que aprendeu a resistir sem abandonar seus Orixás.

Íròkò ensina que ninguém chega sozinho ao mundo. 
Cada filho é continuação de muitas vidas. 
Cada ilê carrega a força de quem o levantou. 
Cada reza pronunciada hoje já viveu na boca de um ancestral.

Que Íròkò sustente os filhos quando faltar força. 
Que suas raízes guardem os nomes esquecidos e que o tempo jamais arranque de um povo a memória de sua origem.

Porque a morte pode levar a presença, mas não consegue arrancar da terra uma ancestralidade verdadeiramente enraizada.

E quando já não houver ninguém para contar nossa história, que nossas raízes ainda falem por nós.

© Jefferson Mendonça.
Edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados.
É vedada a reprodução, total ou parcial, sem prévia autorização.
#coraçõesdeorixas
#iroko
#tempo
#bandeiradetempo 
#funfun taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
7
5 days ago
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Diante de Ogunté, a cabeça se inclina e o corpo reconhece a presença do sagrado. 
Seu nome atravessa o barracão; o atabaque sustenta o chamado, e a dança dá corpo à memória guardada pelos mais velhos.

Iemanjá se apresenta com a força das águas e a firmeza de uma mãe guerreira. 
Sua espada carrega a responsabilidade de guardar os seus.
Há acolhimento em seu gesto, autoridade em seu passo e coragem diante daquilo que ameaça a vida. Quem se aproxima encontra o cuidado de uma mãe que também ensina respeito, compromisso e palavra cumprida.

Em sua ligação com Ogum, água e ferro acompanham essa presença. 
A lâmina participa de sua proteção, lembrando que cuidar exige atenção, decisão e força para enfrentar as batalhas do caminho. 

Ogunté ampara o filho cansado, firma aquele que vacila e chama à responsabilidade quem precisa aprender a caminhar.

Nesta obra, o azul profundo envolve as paramentas. 
Os peixes evocam a vida em seus domínios; o abebé recebe a luz; a espada afirma sua força guerreira. 
As ferramentas reunidas na corrente recordam trabalho, defesa e caminho.
Cada elemento compõe a presença de uma mãe cuja beleza carrega a dignidade do sagrado.

No terreiro, sua memória permanece no canto aprendido, no toque preservado e nas mãos que cuidam de suas coisas. 
Seus fundamentos pertencem às casas que os guardam, com suas histórias e formas próprias de culto. 
A reverência se aprende na convivência, na escuta dos mais velhos e no zelo de gesto.

Ogunté permanece de pé diante da dor dos seus filhos. Sua presença alcança quem chora em silêncio, quem atravessa perdas e quem reúne forças para continuar. 
A espada acompanha a coragem de proteger; as águas, a grandeza de sustentar.
Quando seu nome é cantado, o barracão reverencia a maternidade que guarda a vida.

Odoyá, Iemanjá Ogunté!

Ìyá áfín Ògunté à tó f' ara ti bi oké!
Omí o Yemayá!
Omí Lateo!
Omí Yalodde!
Odoyá!
Sua benção, Minha Senhora!

© Jefferson Mendonça.
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#decoracaodeinteriores
#arteparadecoracao
#interiordesignbrasil
#iemanja
#ogunté taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
13
6 days ago
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Nas mãos de Oxum, o abebé guarda a grandeza de quem conhece o valor da própria existência.

Seu ouro recebe a luz, mas é às águas que esta obra entrega sua reverência. Cada flor, cada curva e cada fio que atravessa o espelho compõem uma homenagem à senhora dos rios, à sua soberania e ao axé que sustenta a vida.

Quando Oxum dança no terreiro, seu gesto traz a dignidade de uma rainha. Há fundamento no movimento, memória no canto e devoção no corpo que se curva diante dela. 
O abebé acompanha essa presença: erguido em sua mão, torna visível uma força que atravessa gerações.

Em seu reflexo, cabem as marcas que o tempo deixou. 
Cabem o rosto cansado, o pranto, as perdas que ninguém testemunhou. 
Sob o olhar de Oxum, essas marcas encontram acolhimento. 
A dor pode ser reconhecida sem que a pessoa seja reduzida ao que sofreu.

Há coragem em permanecer sensível depois da ferida. 
Há poder em reconhecer o próprio valor quando tantas vozes tentaram diminuí-lo. 
Oxum conhece a firmeza necessária para proteger aquilo que é precioso. 
Sua doçura tem autoridade; sua generosidade tem discernimento.

Nesta obra, as flores douradas parecem abrir caminho para uma lembrança: a vida pede cuidado. 
Os fios sobre o espelho evocam vínculos, continuidade, pertencimento. 
A forma que desce em escamas aproxima o ouro do movimento das águas, como se o rio prolongasse sua presença até a mão que sustenta o abebé.

Diante dele, a reverência alcança as mães, as mais velhas e todos aqueles que preservam o culto com responsabilidade. 
Alcança o chão do terreiro, onde o nome de Oxum é cantado e sua presença é recebida com respeito.

Que este abebé seja contemplado com a delicadeza de quem se aproxima de uma água sagrada. 
Que seu brilho recorde a dignidade de cada vida e a força de continuar.

Ora yê yê ô, Oxum!

Sua bênção, Minha Senhora!

© Jefferson Mendonça.
Edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados.
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#oxum #candomble #aquarela #abebe #espelho taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
4
14 days ago
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Coração de Ajè

Sob o pano branco, no centro do mercado, Ajè guarda o valor do trabalho, a dignidade das trocas e a esperança de quem busca sustento. Sua presença alcança a casa, o alimento e o amanhã de uma família.

Neste coração, o branco e o brilho perolado evocam a serenidade de uma orixá funfun, paciente, sábia e generosa. 
Sua quietude contém autoridade. 
Há cuidado sobre cada conquista e discernimento para que a abundância encontre onde permanecer.

Ajè Ògúgúlùsò, senhora da sorte e das realizações humanas, abençoa o esforço de quem trabalha e espera colher o fruto das próprias mãos. 
Seu nome anuncia progresso e realização: que o caminho se abra, que o trabalho prospere, que a vida floresça.

Entre as vozes do mercado, sua presença lembra que toda troca tem responsabilidade. 
O dinheiro carrega origem, intenção e destino. 
Receber exige sabedoria; negociar pede justiça; repartir permite que a prosperidade alcance outras vidas.

Este coração fala também da proteção sobre o que ainda está nascendo. 
O sustento ameaçado, a conquista atravessada pela inveja, o esforço que precisa de amparo para seguir. Ajè acolhe a esperança sem dispensar a paciência e o cuidado que sustentam o crescimento.

Há uma emoção profunda no alimento colocado à mesa, na dívida quitada, no repouso de quem conseguiu garantir o amanhã. 

Nesses gestos, a riqueza ganha corpo e devolve dignidade à existência.

Que este coração honre sua generosidade e sua justiça. 
Que a bênção de Ajè encontre morada, fortaleça o trabalho digno e faça da abundância uma força capaz de nutrir a vida. 

Seu amparo guarda a alegria de conquistar e a consciência de cuidar de tudo aquilo que se colhe.

Oríkì Ajè.

Aki beru loruko ti a npe Ifá
Akiberu loruko ti a npe Odù
Olómo sawe loruko ti a npe Ajè
Ajè ko yawa je ni ile mi o.

© Jefferson Mendonça.
Edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados.
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#aje #Ajè #coração #mar taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
2
16 days ago
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Coração de Oyá e Oxum

Entre a força do vento e a profundidade das águas, este coração guarda a reverência a duas Ayabás.

Oyá e Oxum conservam nele seus nomes, seus domínios e sua soberania. 
Cada traço se curva à grandeza dessas mães e à memória de quem ensinou a saudá-las.

Oyá traz o movimento dos ventos, a presença dos raios e a autoridade da tempestade. 
Diante dela, o medo encontra coragem. 
Sua força alcança o filho quando a perda lhe pesa no peito, quando permanecer de pé exige mais do que o corpo suporta. 
Há firmeza em seu gesto e um amor capaz de acompanhar a travessia sem abandonar quem sofre.

Oxum guarda a profundidade das águas doces, a fertilidade e o mistério da vida que se forma. 
Seu cuidado alcança a ferida escondida, o pranto contido para que o dia pudesse continuar. 
Sua beleza tem soberania. 
Sua delicadeza tem decisão. 
Sob o brilho do ouro, há sabedoria que reconhece o valor de cada vida e a responsabilidade de preservá-la.

Ambas feiticeiras antigas.
Poderosíssimas. 

Neste coração, o vento toca a água. 
A presença de uma não dissolve a grandeza da outra. 
São mães poderosas, reverenciadas em sua força. 
A incorruptibilidade evocada pela obra afirma uma dignidade que nenhum interesse compra, nenhuma ameaça curva e nenhuma palavra vazia consegue diminuir.

No terreiro, esse respeito vive na cantiga, no toque e nas mãos dos mais velhos. 
Vive na cabeça que se abaixa para receber a bênção. 
Há filhos que chegam sem conseguir dizer onde dói. 
O peito se abre em lágrimas, e o chão que guarda tantas histórias recebe mais uma.

Este coração carrega essa entrega. 
Há nele o peso da dor, a força do amparo e gratidão de quem encontrou cuidado quando já não sabia pedir. 
Cada linha honra Oyá e Oxum: duas mães diante das quais o amor se torna compromisso e a arte aprende reverência.

Eparrei, Oyá!
Ora yê yê ô, Oxum!

© Jefferson Mendonça. Obra original e edição autorizada pelo artista.
Todos os direitos reservados. 
É proibida a reprodução, alteração, distribuição, revenda ou utilização comercial sem autorização expressa do artista. taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
14
16 days ago
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Coração de Logun Edé.

Quando o rum chama Logun Edé, não é apenas a beleza que entra no barracão.

Entra a mata.

Entra o rio.

Entra o silêncio daquele que sabe esperar antes de lançar o ofá.

Este coração nasce desse encontro.

Dentro dele correm as águas doces de Oxum, carregando riqueza, inteligência, encanto e realeza. 
Ao redor, permanece a mata de Oxóssi, firme, atenta, conhecendo o instante exato da caça. 

Em Logun, nenhuma dessas forças se enfraquece. 

Elas se reconhecem.

Por isso seu ouro não é enfeite.

É fundamento. E dos antigos!

Seu brilho não é vaidade.

É poder.

Sua beleza não é fragilidade.

É estratégia.

Logun Edé sabe que nem toda guerra começa com barulho. 
Algumas são vencidas no silêncio, na leitura do caminho, no domínio do próprio corpo e na inteligência de quem não revela seus passos antes da hora.

Este coração guarda essa ciência.

Há doçura, mas não há ingenuidade.

Há fartura, mas não há desperdício.

Há juventude, mas não há fraqueza.

Quem vê somente o príncipe não conhece o caçador. 
Quem contempla apenas o ouro pode não perceber o ofá preparado.

No terreiro, seu caminho exige seriedade. 
Fundamento não se inventa, não se aprende na pressa e não se entrega à curiosidade.

Fundamento se recebe.

Fundamento se guarda.

Fundamento se aprende aos pés dos mais velhos.

Para o iaô, a iniciação é um caminho de profunda exigência. 

É aprender a reunir aquilo que o mundo insiste em separar: doçura sem submissão, beleza sem vaidade, força sem descontrole e estratégia sem falsidade. 

Carregar ouro não o livra da disciplina. 

Nascer para a fartura não significa receber sem trabalhar.

Dentro deste coração, o rio corre sem anunciar seu destino.

A mata observa.

O ouro reluz.

E o caçador espera.

Logun vai à guerra como príncipe.

Combate como caçador.

E retorna como rei.

Lógun ô akofá!

© Jefferson Mendonça. Edição autorizada do artista.
Todos os direitos reservados. Reprodução proibida sem autorização.
#logun #lógun #principe #oxossi #mata #oxum #rio #aquarela #coração #candomblé taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
16
17 days ago
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Há nomes que aprendemos a pronunciar olhando os mais velhos baixarem a cabeça.

Oyá é um deles.

Aprendemos no terreiro, entre o canto e a escuta, com o corpo compreendendo aos poucos a reverência. 
Uma mãe levanta a voz para saudar. Outra responde com os olhos cheios d’água. 
Quem chegou há pouco acompanha, ainda sem conhecer todas as palavras, mas já tocado pelo que acontece naquele chão.

Eparrei, minha mãe.

A senhora é saudada por mãos que já vestiram muitos filhos, por vozes que guardam cantigas recebidas de outras vozes. 
Seu nome atravessou gerações até chegar à nossa boca. 
Quando o cantamos, carregamos também a responsabilidade de conservar aquilo que nos foi confiado.

Oyá, senhora dos ventos, receba nossa saudação.

Na roda, seus movimentos alargam o espaço. 
O tecido acompanha o corpo, o barracão responde ao canto, e cada filho encontra uma maneira de reconhecer sua mãe. 
Há quem sorria. 
Há quem chore. 
Há quem consiga apenas levar a mão ao peito.

Diante da senhora, podemos entregar o cansaço que escondemos até de quem nos ama.

Acolha o filho que chegou ferido. Sustente aquele que atravessa o luto. Dê firmeza a quem precisa tomar uma decisão difícil e ainda procura onde apoiar os pés.

Senhora dos Eguns, diante dos mistérios que pertencem ao seu domínio, pedimos licença e guardamos respeito. 
Há saberes que exigem tempo, preparo e a palavra dos mais velhos.
Que nossa pressa nunca passe por cima do fundamento.

Minha mãe, ensine-nos a honrar os que vieram antes.

Quando a ausência apertar, ajude-nos a cuidar da memória. 
Quando a vida exigir coragem, faça-nos lembrar das mãos que nos levantaram. 
Que saibamos proteger os nossos sem perder o juízo, sustentar nossa palavra e responder pelos passos que damos.

Receba este canto, Oyá.
Receba a gratidão de seus filhos.
Receba também aquilo que a voz embargada não consegue dizer.

Enquanto houver quem ensine sua saudação a uma criança, seu nome encontrará uma nova voz. 
E nela seguirá viva a lembrança de quem ensinou.

Eparrei, Oyá!

© Jefferson Mendonça. Edição autorizada do artista.
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#oya #aquarela #coração #candomblé taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
3
18 days ago
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Exú Enú Gbáríjo: a boca coletiva dos Orixás

Antes do primeiro atabaque, há licença a pedir. 

Antes que a palavra encontre o mundo, há uma boca que a sustenta. 

É por isso que o terreiro saúda Exú.

Enú Gbáríjo não fala sozinho. Em sua boca vivem muitas vozes. 
Conta a tradição que os Orixás lhe deram parte de suas bocas para falar por todos diante de Olorum. 
Desde então, quando Exú abre a boca, a palavra não pertence a um só.
Carrega o peso dos antigos, o desejo dos vivos e a força daquilo que ainda vai nascer.

Ele recebe o que chega, mastiga o que parece impossível e devolve transformado. 

Palavra tem corpo. 

Uma bênção levanta alguém do chão; uma mentira também pode derrubar uma casa. 
Por isso, diante de Exú, ninguém deveria falar sem saber o que põe no mundo.

No barracão, o rum chama. 
Os pés respondem. 
Uma mais velha pronuncia seu nome com respeito, e entende-se: o sagrado mora na voz que atravessou gerações sem se calar. 
Mora na reza aprendida de ouvido, no conselho dado à porta, no nome que a violência tentou apagar e que o povo continua dizendo.

Exú é caminho, mas é também a coragem de nomeá-lo. 
É quem leva o recado entre o Aiê e o Orum, quem faz da oferenda encontro e da fala compromisso. 
Não há comunicação sem escuta, nem tradição viva sem gente disposta a passá-la adiante.

Enú Gbáríjo nos lembra que uma boca pode carregar um povo inteiro.
Quando a roda responde em coro, ninguém canta só. 
Cantam os que vieram antes. 
Cantam os que resistiram para que o tambor não parasse. 
Cantam até os que ainda não chegaram, porque alguém abriu caminho para sua voz.

Que Exú guarde nossa língua da covardia e da mentira.
Que nos dê palavra firme para defender a vida, ouvido atento para reconhecer os mais velhos e coragem para dizer o que precisa ser dito.

Laroyê, Exú! Mojubá!

© Jefferson Mendonça.
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Todos os direitos reservados.
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#candomblé #galo 
#exu #esu #aquarela taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
2
20 days ago
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Coração de um capoeirista .

Há nomes que não cabem numa lápide.

Porque seguem vivos no couro do atabaque, no chamado do berimbau, no pé que risca o chão, no corpo que entra na roda e na memória de quem aprendeu que existir também pode ser um ato de resistência.

Este coração carrega o nome de Mestre Môa do Katendê.

Romualdo Rosário da Costa nasceu e cresceu numa Bahia onde tambor também é linguagem, onde corpo também é arquivo e onde ancestralidade não se aprende apenas nos livros. 
Ainda menino, encontrou a capoeira no terreiro de sua tia. 
Dali em diante, fez do movimento um ensinamento, do ritmo uma ferramenta de memória e da cultura negra um território de afirmação.

Foi mestre de Capoeira Angola, compositor, percussionista, educador e fundador do Badauê. 
Levou para as ruas a força do afoxé, do tambor, do canto e de uma tradição negra que nunca pediu licença para existir.

Môa sabia que uma roda de capoeira não começa quando dois corpos entram no jogo. 
Ela começa muito antes, na memória dos que vieram primeiro.

Ensinar um toque era transmitir fundamento.

Abrir uma roda era abrir caminho.

Chamar uma criança negra para perto era dizer: você pertence a uma história que tentaram apagar, mas não conseguiram.

É isso que pulsa nesta obra.

As cordas atravessam o coração como o som do berimbau atravessa o corpo. 
As contas evocam terreiro, proteção, memória e continuidade. 
O coração é de carne porque o legado de Môa foi construído assim: entre pessoas, ruas, tambores, ensinamentos e presença.

Em 2018, sua vida foi interrompida pela violência.

Mas sua morte não pode ocupar mais espaço do que sua existência.

Porque Môa permanece onde há roda aberta, tambor respondendo, corpo gingando, criança aprendendo e memória sendo transmitida.

Tentaram interromper um homem.

Não interromperam seu fundamento.

Este coração não é apenas homenagem.

É memória em movimento.

É compromisso.

É permanência.

É um povo dizendo que seus mestres não serão apagados.

Mestre Môa do Katendê, presente!

© Jefferson Mendonça.
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1
22 days ago
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O mar nunca foi apenas água.

Guarda uma memória anterior aos nossos nomes. 

Ali Iemanjá se revela.

Presença absoluta. 
Ventre, caminho, mistério e poder.

Força que sustenta, protege, corrige e devolve.

Sua maternidade não cabe na fragilidade.
Seu amor tem peso.
Tem movimento.
Tem força de correnteza.
Também retira o filho daquilo que o destrói.

Iemanjá conhece o choro escondido. A palavra presa na garganta. 
O medo. 
A saudade que permanece.

Quantos de nós entregaram ao mar o que não puderam contar a ninguém?

E o mar recebeu.

Diante Dela, muita gente desaba. 
Mãe não exige explicações. 

Ela entende.

Suas águas guardam promessas, lágrimas e memórias. 
Cada onda traz a voz de quem veio antes.

Existe ancestralidade naquele azul.
Existe memória.
Existe mistério.
E existe uma mãe observando.

Iemanjá protege os seus sem pedir licença. 
Quando é preciso, torna-se muralha.
Quando é preciso, tempestade. 
E, diante de um coração exausto, torna-se porto.

Mas suas águas não servem apenas para acolher.

Elas também lavam.

Levam o que já terminou.
Arrancam da alma o que apodreceu.
Devolvem movimento ao que parou.

Entrar nas águas de Iemanjá é lembrar que a vida pode recomeçar.
Que o mar revolto encontra calmaria.

Depois de mergulhar no mar, o corpo parece mais leve. 
Vem um sono manso, como se as águas tivessem levado um peso que nem sabíamos nomear.
Nós sentimos. 
Iemanjá limpa.
Leva tudo o que já não precisa ficar.
O peito enfim respira leve.
Escute as ondas.
Talvez seja uma mãe dizendo: descanse.

Entregue:
O medo.
A tristeza.
A saudade.
Aquilo que pesa.

Permita que as águas levem o que não precisa carregar para sempre.

Que Iemanjá ponha serenidade onde existe tormenta. 
Que lave nossas feridas sem apagar a história. Que seu colo nos encontre quando o mundo parecer grande demais.

E que nunca nos esqueçamos:
há sempre um mar diante de nós.
E dentro dele, uma mãe.

Odoyá, Iemanjá.
Odoyá, minha mãe.

Em breve, essas artes vão sair do papel e ganhar vida em novos produtos.

© Jefferson Mendonça.
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#iemanja #odoya #eruiya #coração #mar taken in Salvador, Bahia, Brasil by @jeffmendonca
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22 days ago
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