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Potyguar.
Equipe @prapretopsi
Aquilombada @quilomboflordemilho
Psicologia/Raça/Gênero/Relações Étnico Raciais/Luto/Território.
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Ada amava o fogo, o susto, a aventura, os rolês apocalípticos. 
Encontrou seu nego mandingueiro na Cigarreira, era bar de murinho vermelho, um portão de grade e garrafas antigas guardando pingas artesanais de tudo quanto era tipo de coisa.  O preto mais lindo de Natal, tinha cheiro de gente boa de abraçar. Sensível, romântico, maduro, um mapa para se perder.
— Me chamam de perigo por conta da capoeira, eu era jovem, diziam que eu era traiçoeiro. 
Ada pediu uma cachaça de Gengibre e cismou:
— Oxente, moço que pinga cara é essa?!
Ada falava do preço, mas nunca economizava no que fazia o coração acelerar.
Ela gostava de Perigo porque ele fazia jus ao nome. Encontrar um homem daqueles exigia curso especializado em molho baiano. Era impossível sair ilesa de um nego tão doce.
Depois foram ao bar da Meladinha. Ada, quis cantar, desistiu ao ver o preço do karaokê. Um bebo soltou a voz no microfone cantando “Menino Bonito”, de Rita Lee. Eles riram tanto que resolveram ir embora.
Naquela noite, Perigo falava de amor com a boca encostada no pé da barriga de Ada. Palavras, beijos e corpo em descontrole. Havia uma força puxando os dois, como dois ímãs tentando resistir ao inevitável. Era impossível distinguir onde um terminava e o outro começava.
Cada movimento produzia pequenos sons abafados, barulhos discretos, quase secretos, mas Ada queria gritar. O desejo sem pressa. A delicadeza molhando o território já sonhado.
No outro dia, Ada foi para a sessão de psicanálise:
— meu bem, quando essa sessão vai baixar de preço?
A psi riu.
— Você foi ver o Perigo de novo? Já contou que seu nome é Ada porque significa cilada?
— Ainda não.
— Semana passada você disse que é impossível morar no perigo, que amar custa carinho, custa a vida. O que aconteceu?
Ada baixou os olhos.
— Ada... você já reparou que toda vez que diz “Perigo”, seus olhos sorriem? Mas toda vez que diz “amor”, você chora?
A psi fechou o caderno.
— Cachaça de gengibre custa caro. Karaokê custa caro. Nossa intimidade custa caro. Amar custa caro. Mas o que mais me preocupa não é o preço.
Ada ergueu a cabeça e perguntou alto já chorando com a cara inchada e o nariz escorrendo:
— ENTÃO É O QUE? 

Jule Silveira e Mario Omar taken in Natal Rio Grande Do Norte by @julesilveira
263
2 months ago
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eu gosto de escutar gente, seja no consultório, no mercadinho da esquina, na mesa do bar, em roda, quando o espaço me acolhe, também gosto de contar minhas histórias. Sincronizando tudo, a cabeça faz um arrudeio… e eu escrevo.

o amor me parece coisa mística e os encontros mais bonitos tem uma sinergia de brilhar olhos (por aqui, não precisa ser romântico).
nesse lugar entre pensamento e sensação, eu gosto de habitar, não com verdades absolutas, mas sempre com vontade de provocar, de sentir, de me atravessar.

essa semana foi feita de muitos sentimentos, escutas e partilhas.
nesse emaranhado, eu pari um texto.

divido com carinho, como quem bota bolo e café na mesa pra uma conversa comprida, só por acreditar que partilha faz a gente crescer.

sei que nadar contra a maré dá trabalho, e defendo que não existe um caminho certo ou errado, o que existe é escuta interna, cada uma de nós se consultando, se percebendo, e seguindo como puder e der.

assim a gente caminha.
com o peito vivo, um passinho de cada vez.
Bem devagarinha.

Com carinho, Jule 🤎 taken in Rio Grande do Norte by @julesilveira
54
a year ago
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PARA NÓS, MÃES DE COLO VAZIO 

Perder quem nasce de um pedaço seu é amputamento, a dor é na alma, como a terra seca, rachada, não tem chão, não tem consolo, não tem aconchego e muito menos resposta. Tem sempre um pedaço faltando, quem pariu três não faz uma soma igual a dois e se contenta com o resultado faltante, é profundo! Não julgue quando não conseguir levantar pq até respirar… dói. Essa falta de sentido que o olhar fica perdido, vazio de apertar o peito, frio. Tenta não ficar muito tempo aí, lembra de respirar…
Nosso corpo pode não cicatrizar como antes, algumas marcas vão ficar, apesar do incômodo, o corpo é parte e ele também conta nossa história, só que pela voz dele.
Eu queria dizer que você não tá sendo castigada, que não há culpa no seu corpo e que você não é um fracasso, que ninguém merece se despedir de um amor tão brevemente, nem você nem a sua cria merecem essa distância. Dificilmente suas perguntas serão satisfatoriamente respondidas, você não tá sozinha nessa. Apesar de não saber, somos muitas, esse coração dilacerado há de cicatrizar mas você nunca mais será a mesma… 
Você não é menor por não ter parido o chamado da perfeição ou por não ter conseguido chegar lá onde dizem que é o jeito certo, nem tudo a gente consegue explicar, é importante não esquecer isso.
A gente vai aprender muito sobre amor e liberdade com esse sopro de vida que tem nome e sobrenome, em algum lugar de mim eu escuto que liberdade também é sobre aceitar com leveza as partidas e sentir o sentimento de missão cumprida, nem tudo é pra ser de um jeito só, nem os nossos contos vividos. Passei o mês com uma lua prateada no peito e só agora te escrevendo entendi o porque. 
Salve a nossa força, ela é maior que imaginamos, sinto muito por nós, rezo pro tempo trazer a sabedoria para travessia desse labirinto, vamo junto. 

-

Teríamos comemorado seus 11 anos dia 20/05, o mês de maio é duro… apesar do pesar, nosso encontro foi bonito e me sinto honrada por ter sido casa dessa pequena que nomeei Isis. Amor não é sobre tempo! 

[O texto é meu, mas o olhar é dela @milena_torresss]

#LutoPerinatal #LutoMaterno #PerdiMeuBebe #ApoioAoLuto #Psicoterapia #Acolhimento by @julesilveira
66
2 years ago
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ONÃ INDICADA A 5 CATEGORIAS NO RIO WEBFEST 2026!!! ✨

Adupé, @riowebfest ! Que alegria ver essa história chegar tão longe.

Onã é uma autoficção de @bruno.poti que resgata o feminino reprimido na infância. A trama acompanha Poti, jovem periférico que, por meio da Jurema Sagrada, ressignifica sua dor em arte ao criar uma drag queen como expressão artística do seu feminino.

Uma escrevivência que toca em experiências delicadas de pessoas periféricas, LGBTQIA+, negras e de terreiro. Fazer ficção também nos permite resgatar e reconstruir memórias que nos foram roubadas. Ocupar essas telas com nossas histórias é afirmar nosso direito de existir e de sermos lembrades.

Fazer cinema no Brasil é difícil e caro. Sem as políticas públicas culturais, Onã não teria sido possível. A websérie foi realizada com recursos da LPG RN e da PNAB Parnamirim - Ciclo I. Celebrar esse reconhecimento também é defender o investimento público na cultura.

À equipe e a todes que fizeram essa história nascer: essa conquista é nossa. À ancestralidade, a Exú, à Pombagira e à Jurema Sagrada do Rio Grande do Norte, nossa gratidão pelos caminhos abertos. Asè! ✨🌹

Direção: @bruno.poti e @verbofulo 
Realização: @deburu_
Fotografia Still: @tambureti taken in Rio Grande Do Norte Brasil by @julesilveira
31
3 days ago
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Hoje é o dia dela que foi minha primeira casa nesse mundo, quem me pariu, me fez carne. Mainha tem apelido de cangaceira, vive com a porta da casa aberta, puxa sempre uma cadeira na mesa pra quem chegar sentar e se alimentar, tem sempre lençol e toalha sobrando pra caso alguém precise ficar um tempo debaixo da sua asa, faz mil coisas de uma vez, adora fazer uma festa e reclamar que tá cansada.. “mulher pq tu inventa se tu tá cansada?” Ela responde braba “me deixe reclamar jule, eu sou assim, menina chata”.
Se fosse uma palavra era generosidade, tem sempre um dizer que ergue gente. Professora aposentada, eu cresci vendo ela trabalhando muito, um magistério e muita garra, depois da escola ela comprava uma sopinha na Floriano Peixoto e me levava junto pro Sindpetro, eu ficava quietinha no cantinho vendo minha mãe se articulando politicamente, voltávamos pra casa ouvindo Tim Maia, Louis Armstrong, Emilio Santiago. 
Apaixonada por Boungavilles e Girassóis, tem o dedo mais verde que eu conheço, tudo que ela toca brota, se multiplica! 
Eu só tenho um diploma por causa dela. 
Eu quis desistir e ela braba, não deixou. 
Minha mãe é referência, é uma matriarca honrada, a gente não é perfeita não, num tem romance, mas a gente tá junta pra tudo, o que der pra uma dá pra outra e eu sei que isso é raro, ela quem me levou pra capoeira pela primeira vez, quem me fez ser apaixonada pelo mar, quem viveu na redinha e me fez amar aquele lugar, mto do que eu sou foi ela quem me ensinou. 
Feliz aniversário minha mãe, a senhora que gosta de casa cheia, zoada, que sua vida siga sendo essa festa, sua existência faz diferença no mundo de muita gente, eu te amo e tenho muito orgulho de ser sua filha, feliz vida sempre 🤎

Ela conta que nos anos 90 foi grávida de 8 meses de uma menina atrevida, com um tambureti na mão e esperança no coração, ver o Presidente Lula falar de um futuro possível para os trabalhadores, lá no machadão! Minha mãe tá na rua a mais de 36 anos. 
Ela vota 13, ela sabe das coisas! taken in Rio Grande do Norte by @julesilveira
26
7 days ago
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Ado era o homem mais alto-astral da Bahia, ainda mais no Início de mês reluzindo no mercado com o Vale-Refeição carregado e o coração Doce, doce não, mel. Ia receber Lia para jantar e, emocionado como só ele, imaginou um banquete encantado.
 Pegou abobrinha, parmesão, coentro, batata, manga, arroz, vinho, Ado era farto de felicidade.
 Na fila do atacadão, carrinho lotado, apareceu um moço bonito, segurando apenas um achocolatado.
 — Vá na frente, meu querido.
O moço ficou maravilhado com Ado.
 Ado saiu do mercado indignado que esqueceu a sacola mas levou tudo numa caixa de papelão com fundo desmantelado. Quem tá emocionado carrega até caixa sem fundo.
 Em casa, deixou tudo preparado mesa impecável, cheiro de comida, Djavan baixinho e um negócio odara no ar.
 Lia chegou morna.
 Olhou o forro da mesa.
 Depois a comida.
 Depois Djavan.
Ado já tava borocoxinho.
 Ele pensou: “Deixa a chata falar. Fala, chata.”
 Lia criticou o prato, a luz, o som, a toalha e até o jeito que Ado tinha se arrumado.
 levantou-se e disse:
 — Na próxima, você podia fazer uma sobremesa.
 Foi embora.
 Ado ficou só 
 Talvez o problema dos emocionados seja amar no atacado. Ado dava dengo em baldes e recebia em conta-gotas. Mas quem decide o tamanho do amor, quem transborda ou quem não sabe receber?
 No dia seguinte, voltou ao mercado. Vale liso, bolso apertado. Foi comprar só um negocinho.
E viu Lia entrando na câmara fria. Ado se ligou. Talvez ela trabalhasse ali havia tanto tempo que estava com o coração congelado.
 Na fila, reencontrou o moço do achocolatado. 
 Dessa vez, ele estava com o carrinho cheio. Ado sorriu, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o rapaz apontou para a frente:
 — Pode passar, meu querido.
 É bom ver como as gentilezas voltam.
 Passou.
Na saída, o rapaz caminhou ao seu lado por alguns metros. Conversaram sobre qualquer coisa, dessas que a gente esquece as palavras e guarda a companhia.
 Ado carregava sua caixa de papelão, ainda meio desmantelada.
 O rapaz segurou uma das pontas.
 E os dois seguiram assim, dividindo o peso.
 Ado não disse nada.
 Só sorriu.
 Dessa vez, o coração estava emocionado mas estava tranquilo. 

Jule Silveira e Mario Omar taken in Salvador, Bahia by @julesilveira
31
a month ago
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[Pra gente que gosta de gente]

Minha irmã,
chega uma hora em que a gente cansa de performar. Cansa de medir o quanto entrega, mostra, deixa o outro saber. Cansa desse jogo de parecer mais difícil, mais esperta, mais safa, mais ligeira. Como se o desejo precisasse ser estratégia. Como se ser lida fosse perder.
Tem um quê de puritanismo nisso, um braço daquele fetiche antigo pela virgindade: o valor estaria naquilo que ninguém conseguiu tocar, decifrar, possuir. Mas a gente já é mistério o bastante. 
É genuíno nunca ser lida por inteiro. A certeza que temos sobre o outro é, em grande medida, uma ilusão. A gente mal conhece o próprio território e insiste em falar do outro como quem conhece suas fronteiras.
É mais fácil dizer que o outro é confuso do que admitir: isso me atravessou. Eu quis. Eu senti. Eu tive medo. Eu gostei. Eu me importei.
Isso é carne farta pra quem tem coração honesto.
Não estou te dizendo para baixar todas as guardas. Com uma mão vc entrega, com a outra vc se defende, mas sustente o seu desejo, se responsabilize pelo que sente, fale sobre si sem transformar o outro em território conhecido. Reconheça a própria fome antes de construir uma teoria sobre a comida.
Meu corpo não aguenta mais tanta coisa. Tenho cansado de verdades absolutas. Talvez a única verdade que escuto agora seja esta: há coisas que não saberemos.
Talvez maturidade seja menos descobrir o que o outro é e mais discernir se queremos permanecer diante do que não sabemos.
Joga tua energia para dentro. Deixa as cicatrizes em paz. Para de bulir no que tá quieto e olha para aquilo que pede socorro. Deixa a agua esborrotar.
Cuida da tua cumieira.
Lá fora vão querer você mansa, calada, conveniente. Talvez até burra, se for preciso para que você não incomode.
Fortaleça por dentro. Sinta-se segura para falar, mudar de ideia, desejar, recuar, não saber.  Rosne, se precisar.
Porque chega a noite, tudo silencia, o céu escurece e sobra você. Você e a casa que construiu dentro de si. Pare de arengar com seu corpo.
Volte pra casa e encontre você lá.

(Pra quem chegou até aqui 🫶🏽)
Adupé. taken in Rio Grande do Norte by @julesilveira
39
2 months ago
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Seu Nego mandou no grupo dos sete filhos: 
“Em nome de Deus, hoje ninguém apareça lá em casa, viu. Hoje é amô pra dez que Dona Linda vai comer sozinha.” 
Ela leu, riu e deu-lhe um tapinha no braço. 
— Você é muito linda. Linda.
Quarenta e um anos de casamento, e ele ainda sabia fazê-la corar.
Foram cedo, de mãos dadas, na feira, escolheram meia banda de carneiro gordo, uma codorna magra, uma jaca mole madura, pitomba, umbu, cajarana e tanta fruta que as sacolas arriavam para a fartura dos dois. Também compraram um galão de vinho sangue de boi de 5L. Voltaram para casa pra comemorar o aniversário de casamento. 
Muita fartura na vida deles. Nos sete filhos, nas amizades, no café passado para quem aparecesse, nas histórias, nas redes estendidas depois da aposentadoria entre as ervas e as flores. Tinham aprendido que riqueza era ter sempre alguma coisa para repartir.
Na cozinha, Dona Linda fez cuscuz com leite de coco. Depois, uma música de Alcione encheu a sala e os levou para um tempo em que seus corpos eram jovens, quentes, cheios, desejados.
Riram.
Porque agora havia outras belezas.
Os corpos maduros estavam ali, verdadeiros e com cabelos brancos, pelos, marcas, dobras, barrigas, cicatrizes e rugas. Já não havia a pressa de possuir. Havia a delicadeza de conhecer. Seu Nego sabia onde a mão demorava, onde o carinho fazia Dona Linda fechar os olhos. Ela conhecia o silêncio dele, o jeito como o peito subia quando a vontade ainda acendia. E acendia.
A comida nunca foi contada entre eles. Nem o amor. Sempre tiveram fome, seja de carneiro, de fruta, de beijo, de colo, de vida.
À tarde, ficaram juntos na rede, encostados um no outro. Depois se procuraram com a ternura de quem já conhecia cada caminho e, ainda assim, encontrava uma estrada nova. 
Seu Nego abriu o vinho e naquela noite, a casa ficou em silêncio. Os sete filhos ficaram longe. Entre duas taças, duas redes e dois corpos envelhecidos, Seu Nego olhou para Dona Linda e para a própria história. Davam beijos demorados e inteiros, sem pressa de voltar à superfície.
Quarenta e um anos depois, ainda havia neles muitas farturas pra compartilhar e muitas outras para conhecer.

Conto de Jule Silveira e Mario Omar taken in Brasil by @julesilveira
140
2 months ago
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[Pra gente que aprendeu a correr cedo demais]

Minha irmã,
eu sei que você carrega um cansaço que não é só físico, é o cansaço de quem nunca aprendeu a ser ajudada. De quem lê o gesto do outro como prova do que falta, como se cada mão estendida viesse carimbada com “você não deu conta”.
E aí você trava.
Sua cabeça sabe que ajuda é cuidado, mas seu peito só enxerga favor. É quase uma lâmpada expondo seus buracos e você justificando a existência deles.
Fica essa sensação de dívida, como se aceitar carinho fosse peso, como se pedir ajuda fosse inadequação. Como se toda mão que chegasse perto pudesse cobrar o preço de ter segurado você.
Eu conheço essa teimosia véa besta.
Quer sustentar tudo, mesmo torto, mesmo penso, mesmo exausto. Prefere o esforço imperfeito ao conforto perfeito porque, se foi você quem fez, ninguém tem o direito de apontar o dedo na sua cara.
Você aprendeu que é melhor tudo meio capenga, meio remendado, mas seu, do que algo lindo, feito com a ajuda de alguém que depois possa te cobrar o preço da mão estendida.
Porque você celebra o outro com uma facilidade imensa. Você se emociona, vibra, chora. Sabe reconhecer a beleza quando ela acontece no corpo de outra pessoa.
Mas, quando é com você, nunca parece bom o bastante.
Nunca bonito o bastante.
Nunca merecido o bastante.
Você sabe que o cuidado que te oferecem é amor, mas trava. Só pede ajuda quando está no fim, quando está escassa, quase podre por dentro.
O que você não sabe lidar é com o outro: o espaço que ele ocupa, a mão estendida, o risco do vínculo. Porque, na sua história, o outro… sempre machuca.
E eu queria que você soubesse que não estou te pedindo para deixar de ser forte.
Só queria que, algum dia, você pudesse descobrir que receber também pode ser uma forma de força. Um colo não precisa te diminuir. Alguém cuidar de você não significa que você fracassou em cuidar de si. Talvez exista um jeito de aceitar o amor sem procurar a dívida escondida dentro dele.
Talvez exista uma presença que não use suas fragilidades contra você.
Caminhe com seus buracos.
Com seu jeito torto.
Você não precisa aprender isso de uma vez.
Tem gente que te ama na cheia e na minguante.
Acredite.
🤎 taken in Rio Grande do Norte by @julesilveira
13
2 months ago
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Eu tenho referências vivas.
Eu tenho para onde olhar.

Arrudiei o país e voltei ainda mais nutrida.
Com mais sonhos, mais vontade e os olhos brilhando para os caminhos que ainda se abrem.

Há algo bonito em viajar e encontrar, pelo caminho, gente que nos lembra que aquilo em que acreditamos não é sonho solitário. É construção. É continuidade. É chão sendo aberto por muitas mãos.

Agradeço ao @crprn17, pela possibilidade de estar.

Agradeço aos meus colegas, companheiros de sonho, pela força e pela coragem de seguir quando parece que não faz mais sentido @nqroz @istheniopsi @psi.jessicalorena 

E agradeço, sobretudo, aos mais velhos.
Aos que começaram a cultivar esse chão muito antes de nós e que seguem nos ensinando que o cuidado precisa existir em todos os ciclos da vida.

Mesmo quando o sistema grita alto o descarte dos “fins”, a gente insiste em lembrar: não há fim que não faça parte de um ciclo. Há travessias, despedidas, lutos e tudo isso é circularidade como ensina Nego Bispo 🤎

Nos cuidados paliativos, eu encontrei mais uma vez a força dessa sabedoria: cuidar também é sustentar a dignidade quando a vida muda de forma.

Eu honro quem veio antes.
Agradeço quem abriu caminho.
E sigo, com os pés no chão e os olhos acesos.
Máximo respeito Professor Ernani e Professora Sibele 🍃
@ernanicmendes 
@georgiasibelenogueira 

É coisa, vice.
Vamo nessa! 🐍 taken in Rio Grande do Sul by @julesilveira
18
2 months ago
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Ada precisava muito conversar com perigo. A conversa mais perigosa do mundo é a de despedida.
Naquela noite, os dois pareciam querer gastar no corpo tudo aquilo que a vida tinha deixado quebrado. Se encontraram com a fome de quem reconhece no outro uma casa onde nunca conseguiu morar.
Testa com testa.
A mão de Ada percorreu o rosto de Perigo devagar, tava na hora de partir.
Ela amava arder com ele. Amava a vertigem, a fome, o calor de não saber onde aquilo ia dar. Amava até o susto.
Mas estava cansada.
O silêncio dele cansava.
— Perigo, eu cansei de ter que ser valente o tempo inteiro.
Ele não respondeu.
Tudo isso seria perfeito para a Ada de alguns anos atrás. A de hoje queria um amor corajoso.
Porque para lidar com cilada é preciso coragem.
Ada já tinha amado muito, o nome cilada não era em vão.
Tinha tido o drama, a armadilha, o anzol, o sanguessuga. Tinha amado homens que chegaram e foram embora.
Talvez Perigo fosse apenas mais um nome para aquilo que ela já conhecia.
Ela ainda o desejava. E foi justamente por isso que ir embora foi tão paradoxal.
Ada beijou sua testa, ajeitou a gola da camisa dele e ficou alguns segundos olhando aquele homem que tinha sido incêndio, carinho e desassossego.
— Eu queria que desse certo.
Perigo fechou os olhos.
— Eu também.
O mais triste dos amores é aquele em que dois desejos sinceros não conseguem construir uma vida possível.
Ada levantou.
Foi embora com o coração apertado, o corpo ainda lembrando dele e vontade de voltar. Mas não voltou.
Liberdade não é não amar ninguém. É amar e ainda assim escolher partir.
A vida continuaria acontecendo.
Às vezes com Perigo. Às vezes com ciladas.
A vida não precisava terminar naquele incêndio, havia outros caminhos, outras chamas, outros amores e, sobretudo, havia uma Ada inteira esperando por si mesma.

Esse conto é a parte II 
Leia o conto antes desse.

Conto de Jule Silveira e Mario Omar taken in Natal Rio Grande Do Norte by @julesilveira
93
2 months ago
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[pra lembrar de num esquecer]

Eu gosto de ouvir gente velha.
Tenho saudade das rasteiras que um velho amigo encantado me dava, sem dó nem piedade. Gosto da palavra sem pena, que aperta minha mente. Do pé que corre malicioso e acerta meu peito. Da rasteira com sorriso no rosto que me derruba. Gosto de ver minhas verdades espalhadas no chão de cimento e de rir de tudo isso enquanto penso como a vida é maluca. Tem uma alegria estranha em ver minhas verdades espalhadas no chão de cimento. E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de quem não tem medo de bagunçar o que eu achei que já sabia.
A gente vive construindo sistemas pra se proteger. Fechamos portas pra impedir que o vento entre, com medo da poeira, da sujeira, da confusão e do sol clareando o quarto escuro. Às vezes o que a gente chama de bagunça é só a vida respirando dentro da casa.
Um mestre me disse, numa encruzilhada regada a cerveja, que gosta de ser sempre o que sente mais. Eu nunca esqueci essa frase.. Eu volto muito naquela encruzilhada.
Não gosto de boca cheia de verdade. Engraçado dizer isso sabendo que a minha fala muito.
Depois da navalha, tenho olhado pra cada lugar onde ancorei essa língua. Tenho visto ela distorcer, retorcer, endurecer, querer nomear antes da hora. Às vezes o que a gente perde é pra ser deixado pra trás mesmo. Anda pra frente. Água parada apodrece. Leva só o que ficou. Desapega. Solta. Boca faz feitiço. Tem água, tem vento, vibra.
A verdade, às vezes, vira uma gaiola bonita. Dessas que a gente demora pra perceber que fechou por dentro.
Canta teu processo pra arregaçar caminho.
Controle é você segurando uma coleira enquanto ela também segura você.
Corre campo. Ligeirinha, mas sem pressa. Miudinha, mas pesada. Aceita. Num tem essa de leveza. A encantaria é onde a gente tira a mochila pra vadiar, mas, quando volta pra casa, o mundo não apaga tuas histórias.
E cura não é conforto.
Cura deve ser muito mais sobre aprender a se fortalecer pra ser quem se é, com tudo que mora dentro. Do bonito ao feio, se é que isso existe.
Aceitar é uma parada difícil pra quem passou a vida quebrando muro pra conseguir entrar nos espaços.
- continua taken in Pium, Rio Grande Do Norte, Brazil by @julesilveira
32
3 months ago
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