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Política Pública • Cotidiano • Literatura
Pelo olhar de quem vive a cidade.
Texto novo toda semana na bio 📌
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Ele não estava deprimido. Não estava ansioso.
Estava vazio.

Ia trabalhar, voltava, sustentava a família, aparecia nas festas. Cumpria tudo. Sorria quando precisava sorrir. Respondia quando perguntavam como estava. Funcionava em tudo.
Só não sabia o que sentia. E quando alguém perguntava de verdade, o que você quer, o que você está sentindo, o que é seu, ele respondia com o que achava que deveria sentir. A diferença entre as duas coisas ele não conseguia acessar. Não porque estava mentindo.

Porque tinha perdido o acesso há tanto tempo que nem lembrava que havia algo lá.

Rollo May observou esse padrão nos anos 1950, em Nova York. Não era o homem cheio de desejos reprimidos que Freud descreveu. Era quase o oposto. Era o homem que não sabia o que queria porque nunca tinha sido encorajado a descobrir.

Aprendeu cedo que o que importava era entregar. Não sentir.
Junho é o mês da saúde mental masculina. 

A campanha pede que o homem fale. Mas falar pressupõe saber o que dizer. 

Esse texto é sobre o que vem antes disso.

📲| Link na bio: Antes do Silêncio. by @macrodocomum
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4 months ago
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“Hoje dizemos que quem não aguenta ficar sozinho tem um problema de dependência emocional, que ainda não se conhece de verdade. A solidão voluntária virou sinal de maturidade.

Duzentos mil anos atrás, a pessoa que não aguentava ficar sozinha tinha sobrevivido. A outra, provavelmente não.

Não estou dizendo que cultivar a solidão é errado. Estou dizendo que naturalizar essa ideia, tratar como se fosse óbvio que o ser humano deve querer e tolerar o isolamento, ignora uma história longa e bagunçada em que cada época decidiu uma coisa diferente sobre o que significa estar só.

E talvez o desconforto que aparece no quarto quieto não seja fraqueza nem vício em tela. Talvez seja só o corpo sendo honesto sobre de onde ele veio, antes de qualquer filosofia ter chegado para explicar o que ele deveria sentir.”

📲| Leia o texto completo clicando no link na bio 📌 by @macrodocomum
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5 months ago
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Naquela mesma semana, o Ceará registrou uma sequência perturbadora: Ana Kévile Nogueira Batista, 17 anos, morta em Deputado Irapuan Pinheiro depois de recusar importunações sexuais. Josilene Gomes da Silva assassinada a tiros em Icapuí. Tentativas de feminicídio em Maracanaú, Pacajus, Crato, Caucaia, Fortaleza. Entre janeiro e março deste ano, 6.330 mulheres registraram crimes previstos na Lei Maria da Penha no estado, uma média de 70 casos por dia. 

O feminicídio, nesse contexto, não é um desvio. É o ponto final de uma frase que vinha sendo escrita há muito tempo.

O Estado cearense tem falhado em ler essa frase antes do fim. A redução nos índices gerais de homicídio no Ceará (conquista real) não foi acompanhada de uma estratégia equivalente de proteção às mulheres. A violência doméstica precisa chegar ao nível de foice e UTI para ganhar manchete. Isso é uma falha institucional. Mas é também reflexo de algo que vai além do Estado.

O Feminicídio como Projeto: A Omissão que Custa Vidas.
📲| Leia o texto completo na bio 📌 by @macrodocomum
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5 months ago
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O deserto e o mosteiro são a mesma coisa. Dois jeitos de fugir do mundo que a gente aprendeu a chamar de coisas opostas.

Texto completo no Macro do Comum
Link na bio

📰 Nº 04 by @macrodocomum
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4 months ago
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📞 O ORELHÃO NÃO GUARDAVA NADA.

Se toda lembrança está guardada no aparelho, o que ainda é seu de fato? Uma pergunta que o orelhão nunca precisou responder.

🔗 Texto completo no Substack do Macro do Comum 
(link na bio).

📰 Nº 03 by @macrodocomum
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4 months ago
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Junho é o mês da saúde mental masculina. A campanha pede que o homem fale mais, peça ajuda, não carregue tudo sozinho. Não está errada.

Mas há algo anterior que ela não toca.

Falar pressupõe saber o que dizer. E muitos homens não falam não porque são fortes demais, não porque têm vergonha, não porque foram ensinados a engolir. Falam porque genuinamente não sabem o que está acontecendo dentro deles. Perderam o acesso há tanto tempo que nem lembram que havia algo lá.

Rollo May chamou isso de vazio. Não depressão, não ansiedade. Vazio. O homem que funciona, entrega, aparece e que um dia percebe que não sabe o que quer, o que sente, o que é dele e o que é do papel que aprendeu a ocupar.

Esse texto é sobre isso. 
Sobre o que vem antes do silêncio.

📲| Antes do Silêncio.
🔗 Link na bio. by @macrodocomum
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4 months ago
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Nova cara, mesmo propósito. Leitura que vale o tempo. 

📲| Link na bio para ler todos os textos. taken in Fortaleza, Brazil by @macrodocomum
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5 months ago
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Você abre o Instagram, vê alguém postando sobre precisar de tempo sozinho para se reconectar, e pensa: faz sentido.

Faz sentido porque você cresceu ouvindo isso. Porque virou senso comum. Porque hoje quem não aguenta ficar sozinho tem problema de dependência emocional, não se conhece de verdade, precisa trabalhar isso.

Mas essa ideia tem uns trezentos anos. O corpo que você carrega tem duzentos mil.

Por quase toda a existência humana, estar fora do grupo era estar em perigo. Sem tribo, sem proteção, sem colheita, sem inverno que se passasse. O sistema nervoso aprendeu isso tão fundo que nem percebe mais que aprendeu. Ele só reage. O quarto quieto de repente parece errado sem que você saiba dizer por quê.

Na Grécia antiga, querer ficar só era listado como sintoma de doença. Em Roma, o exílio era a segunda punição mais grave do Estado, logo depois da execução. Os primeiros eremitas cristãos que tentaram transformar a solidão em prática espiritual viraram atração turística sem querer. Quanto mais fugiam, mais gente vinha ver.

A solidão voluntária como virtude é uma invenção recente. O desconforto que ela causa não é.

📲| Leia Solidão nunca foi natural.
Novo artigo no link da bio. by @macrodocomum
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5 months ago
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Tem frases que parecem escritas ontem e foram escritas décadas atrás. Essa é uma delas.

Milton Santos completaria 100 anos no dia 03 de maio. Um dos maiores geógrafos do mundo, um dos intelectuais negros mais importantes da nossa história e alguém que dedicou a vida a entender o espaço não como abstração, mas como lugar onde a desigualdade acontece de verdade.

A alienação que ele descrevia não some. Ela só muda de plataforma.

100 anos de Milton Santos (1926–2001) by @macrodocomum
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5 months ago
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Seis da manhã em Fortaleza. Um homem espera o ônibus diante de um tapume de obra. Ele ainda não sabe, mas passará o dia seguinte no mesmo lugar, e o próximo, e todos os outros que vierem. Está ali sem capacete, sem o registro na carteira e carregando uma dívida que o empreiteiro anotou num caderno qualquer, valores que serão abatidos de um salário que nunca chegará inteiro.

O nome jurídico é trabalho análogo à escravidão. O nome cotidiano é apenas a vida como ela se apresenta em um terreno qualquer.

Em 2025, o governo federal resgatou 2.772 pessoas nessa condição. Pela primeira vez, 68% estavam em área urbana. Não em fazenda remota. Em obra de alvenaria, em prédio em construção, em trabalho doméstico numa cidade com nome, num bairro com CEP. Do total, 83% se autodeclaram negros, a maioria homens entre 30 e 39 anos, com baixa escolaridade. O perfil não é acidente estatístico. É a descrição de quem o sistema deixa mais exposto, ano após ano, como se fosse natural.

O endereço mudou. O perfil não.

Quem assina a lei não dorme na obra.

📲| Leia o texto completo na bio 📌 by @macrodocomum
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5 months ago
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Lá vai eu, com o bolso repleto de fichas primeiro, não para jogar fliperama, e sim usar no orelhão, daí, depois de um tempo, levaria uns cartões colecionáveis da Telemar. Levava consigo também, um papelzinho que tinha uns números decorados. Ah, e tinha também o tom de discagem, aquele som chato e contínuo que nenhum aparelho do mundo reproduzir mais.

A conversa acontecia. Durava o tempo que durava. E quando o fone voltava pro gancho, sumia. Não ficava em lugar nenhum. Não virava histórico, não virava áudio guardado, não virava prova de que você esteve ali, naquele dia, dizendo aquilo pra aquela pessoa. O orelhão falava e esquecia. E ninguém achava isso um problema.

Tem um ensaio de Nietzsche de 1874, Sobre a Utilidade e Desvantagem da História para a Vida, que começa com uma imagem que parece simples demais pra ser filosófica: um animal pastando. O bicho está ali, comendo, vivendo, sem angústia. E Nietzsche pergunta: por quê? Porque o animal esquece. Cada momento some e o próximo chega limpo, sem o peso do anterior. O homem, ao contrário, é o animal que não consegue esquecer. Arrasta cada versão de si mesmo, cada erro, cada promessa, cada conversa que devia ter ido diferente.

Para Nietzsche, isso não é virtude. O excesso de memória não liberta. Paralisa.

O Orelhão não guardava nada.
📲| Leia meu texto completo na bio 📌🔗 by @macrodocomum
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6 months ago
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G.A. Cohen dizia que a justiça não mora só na lei. Mora em quem decide o que a lei protege. No Brasil, 1,34% do funcionalismo furou o teto constitucional entre 2024 e 2025. Não o professor, não a enfermeira. O Judiciário, que concentra 79,9% desses casos, criou uma categoria nova: a “indenização por existir”. Custou R$ 20 bilhões. 

O arcabouço fiscal, naquele dia, estava de folga. 
A austeridade tem endereço certo. 
Sempre teve.

O Teto de Gastos é para os Outros
Link do meu texto completo na bio. 🔗📌 by @macrodocomum
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6 months ago
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