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Psicóloga clínica e analista junguiana.
Autora de Ínfimas Íntimas e Avessos.
Projeto literário semanal: Do que habita em mim.
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A Terapia Certa era um filme que eu esperava ansiosamente. Ontem, quando estreou na Netflix, lá estava eu, ávida para assistir. Ricardo Darín está entre meus atores preferidos e forma com Diego Peretti uma dupla de química incrível.
A história acompanha um psicanalista renomado que, após um abalo na clínica, passa a desacreditar em seus métodos tradicionais. A partir daí, começa a interferir na vida de seus pacientes, ultrapassando os limites da relação terapêutica.
Esse filme ficou pulsando em mim.
Reforçou o cuidado que precisamos ter, como psicoterapeutas, com o uso da sugestão. Algo que sempre ressalto nas aulas e supervisões.
Não que sugestões não aconteçam em psicoterapia. Mas precisamos estar atentos ao que sugerimos, de onde parte essa sugestão e a serviço de quem ela está. Das necessidades do paciente ou do poder que podemos exercer sobre ele?
Recebemos pessoas em sofrimento, paralisadas diante de situações difíceis, que nos perguntam o que pensamos, o que faríamos em seu lugar ou o que devem fazer.
É nesses momentos que nossa atenção precisa ser redobrada. Ao oferecermos respostas, às vezes apressadamente, corremos o risco de expressar mais nossos valores e convicções do que aquilo que o paciente necessita. Com isso, podemos impedir que ele encontre suas próprias respostas e siga seu caminho. Uma preocupação presente na obra de Jung.
Isso não significa deixar de acolher, cuidar ou dedicar o melhor de nossa escuta e conhecimento à pessoa que nos procura.
Mas há sugestões que ultrapassam os limites da relação terapêutica e entram no delicado território da ética profissional. O filme mostra as consequências dessa transgressão para todos os envolvidos.
Afinal, entre acolher o sofrimento de alguém e escolher por ele, existe uma distância que precisamos reconhecer e respeitar. Talvez seja nesse espaço que resida uma das maiores responsabilidades do nosso trabalho: cuidar sem ocupar o lugar daquele que nos procura.



#cinema by @niceluconi
13
16 hours ago
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Gosto de histórias de amor. Aliás, gosto de histórias humanas, das relações e inter-relações que, mesmo subliminares, estão presentes em nossas vidas e nos filmes de qualquer gênero. Percebi que é à procura delas que assisto a filmes tão diferentes.
Foi assim com Love of Your Life, um love story com Margaret Qualley, uma das atrizes que mais me encantam.
O filme fala de amor, perdas, luto, traumas e renovação. Sem grandes apelos dramáticos, encanta pela fotografia, iluminação e delicadeza da narrativa.
Mas uma fala entre os personagens me fez parar, até transformá-la neste escrito.
“Não escolha ser infeliz. É preguiçoso e mais difícil”, diz a personagem mais idosa à jovem protagonista.
Olha só! A infelicidade associada à preguiça! E, mais surpreendente ainda, a ideia de que mantê-la pode ser mais difícil do que transformá-la. Achei o máximo!
Já pensei muitas vezes nessa demora da infelicidade. Em como ela parece permanecer em nós, enquanto a felicidade tantas vezes nos parece tão fugaz.
Pensar na infelicidade como preguiçosa me trouxe outra perspectiva: algo que se instala, se acomoda, demora a partir e parece resistir às nossas tentativas de mudança.
E nos deixar conduzir por essa preguiça pode dar muito trabalho, além de sofrimento.
Quantas vezes reconhecemos aquilo que nos faz sofrer e, ainda assim, permanecemos onde estamos? Por medo ou paralisados na dor, seguimos caminhos conhecidos, mesmo que nos levem sempre aos mesmos lugares.
Não porque gostemos de sofrer, mas porque sair desse lugar exige movimento, decisões e coragem para abandonar aquilo que, embora doloroso, nos é familiar.
É importante lembrar que as situações que nos tornam infelizes nem sempre dependem de nós. E que nem sempre conseguimos sair delas. Mas, quando há caminhos possíveis, permanecer onde estamos também pode custar muito. Talvez mais do que enfrentar as mudanças que adiamos.
E pensar que uma história de amor me faria encontrar a infelicidade onde nunca havia imaginado: lado a lado com a preguiça. 
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#loveofyourlife #psi by @niceluconi
4
2 days ago
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Muito se tem falado sobre narcisismo. Parece até que vivemos uma globalização do tema. Mas hoje quero dedicar um olhar especial à pessoa que vive ao lado do narcisista.
Recentemente, uma palestra do Dr. Paulo Toledo Machado Filho me trouxe reflexões importantes sobre uma possível configuração de casal complementar: o narcisista grandioso e o vulnerável.
Lembrando que o narcisismo pode aparecer como traços de personalidade ou configurar um transtorno. E que a aparente superioridade pode esconder uma profunda ferida de inferioridade. Por trás da necessidade de admiração, há uma fragilidade nem sempre reconhecida.
Mas afinal, quem vive ao lado de Narciso?
Quem são as pessoas que se sentem atraídas por ele, permanecem nessas relações e, muitas vezes, pagam um preço elevado por isso?
Como destacou o palestrante, há pessoas que parecem escolher repetidamente parceiros que as desvalorizam, exigem muito e pouco oferecem. Em algumas relações, a grandiosidade de um compõe uma dinâmica complementar com a vulnerabilidade do outro.
Enquanto um precisa brilhar, o outro parece destinado a permanecer à sombra.
No narcisismo vulnerável, sentimentos de inferioridade e insegurança podem acompanhar uma intensa identificação com o sofrimento. É a pessoa que mais se dedica, mais compreende e menos é compreendida. Cuida de todos, menos de si mesma.
Nesse par complementar, enquanto um sustenta sua importância pela superioridade, o outro pode encontrar no sacrifício uma forma de reconhecimento.
Um precisa ser o maior. O outro, aquele que mais suporta.
Romper essa dinâmica exige um complexo trabalho de diferenciação. O narcisista grandioso precisa reconhecer a ferida escondida em sua grandiosidade. O vulnerável precisa recuperar seus desejos, sua voz e um lugar próprio na vida.
Isso não significa responsabilizar vítimas por abusos, nem dizer que toda pessoa que sofre numa relação apresenta narcisismo vulnerável.
Mas vale lembrar que, em tempos de tanta atenção aos narcisistas, precisamos olhar e cuidar também de quem vive ao seu lado, até porque aqueles com características grandiosas nem sempre reconhecem suas dificuldades ou procuram nossos consultórios.
#narcisismo #psi by @niceluconi
7
3 days ago
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Neste feriado, em que andei tendo conversas interessantes com o tempo, assistir a Refúgio de Inverno foi algo que posso chamar de grata coincidência ou, como sugere Jung, de sincronicidade.

Em um momento, me dediquei à faxina de um espaço cheio de lembranças e histórias que agora pedia simplificação. Em outro, escrevi minha crônica de domingo sobre os três sentidos do tempo segundo os antigos gregos, que nos convidam a lançar novos olhares sobre a vida.

Nesse contexto surge “Refúgio de Inverno”, filme em que o tempo marca e cala a vida de Stella e Gerry, um casal na casa dos setenta anos que enfrenta crises individuais e conflitos de um casamento de longuíssima data.

Stella, profundamente religiosa, acredita ter recebido um milagre anos atrás. Apesar da crise com o marido, continua a cuidar dele, sem abrir mão de sua fé. Gerry atravessa frustrações pessoais e profissionais, mas não encontra na religião alívio para suas dores, embora tenha sua maneira de “anestesiar” os sofrimentos.

Mas o que me sensibilizou sobremaneira foi um diálogo em que Gerry diz a Stella:

“Pra mim, estar com você é a coisa mais maravilhosa que existe. Passar por este mundo ao seu lado é o verdadeiro milagre. Você é o milagre.”

E aqui dei a minha parada para acertar as ideias.

Que incrível! Enquanto ela acreditava que o milagre de sua vida tinha vindo do Divino, ele declarava que seu maior milagre vinha em forma de amor humano, de um encontro e convivência de muitos anos que, mesmo atravessada por dificuldades, desencontros e tantas correções necessárias, continuava sendo aquilo que dava sentido à sua vida e a seu futuro.

Se esse diálogo deu um bom resultado na vida dos dois? Não sei… vamos torcer que sim.

Quanto a mim, segui pensando na beleza que é olhar para a vida como um mundo fértil em milagres. Talvez baste um ajuste de lentes, de atitude e de atenção à vida e, de repente, ali, muito perto, está o milagre.

E quem garante que, por trás dele, não está o Divino tão reverenciado por Stella? by @niceluconi
8
5 days ago
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Nada há de estranho em pensar que, à medida que os anos passam, nos confrontamos com o tempo de maneira mais intensa. Seu tic-tac transborda de lembranças e questionamentos, mas também de expectativas e planos para a próxima badalada.
Diante do tempo, raramente ficamos indiferentes. Ora ele corre loucamente, ora parece não ter pressa, se demorando em instantes intermináveis.
Por isso eu me sinto mais confortável quando penso em como os antigos gregos compreendiam o tempo.
Para eles, a vida não acontecia apenas em sua horizontalidade, em que o tempo é medido em anos, calendários e, por que não dizer, em rugas e marcas no corpo. Esse é o tempo implacável de Chronos, em que o tic-tac do relógio segue, segue e… segue.
Mas, felizmente, a vida não acontece apenas nessa linha que avança.
Há também um tempo que nos convida a sair da horizontalidade e mergulhar na profundidade daquilo que vivemos. É Kairós, o tempo do significado, da experiência que pode nos transformar. É o tempo do momento oportuno, em que um instante pode valer por muitos anos. Onde um encontro pode abrir caminhos que sequer imaginávamos.
Talvez Kairós nos mostre que nem sempre precisamos de mais tempo, mas precisamos, isso sim, viver com maior profundidade aquele que temos.
Mas os gregos ainda nos presenteiam com Aion, o tempo que transcende nossa existência. O tempo do mistério que nos lembra que há algo na vida que não alcançamos apenas com a razão. Por mais que tentemos organizar nossa existência, haverá sempre algo que nos escapa, um mistério que participa da nossa história.
Ao longo da vida, vamos estabelecendo diferentes relações com esses três tempos: Chronos, Kairós e Aion.
Quando jovens, muitas vezes vivemos como se o tempo fosse inesgotável. Com os anos, já não importa apenas quanto tempo temos, mas o que fazemos dele, como o habitamos e que significado damos ao que vivemos. E Aion que permanece conosco, lembrando que não somos donos absolutos de tudo, nem mesmo do nosso próprio tempo.
Assim, sigo pensando que viver é aceitar o tempo que corre, reconhecer o tempo que acontece e confiar no tempo que permanece além de nós.


#doquehabitaemmim #tempoaltempo #mitologia #psi by @niceluconi
4
7 days ago
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Sabe um sábado de faxinão? Pois foi hoje por aqui!
Depois de uma pequena reforma, pequena só no tamanho porque a bagunça foi das maiores! Meu Deus!
Por outro lado, o Dia das Crianças chegando, comemoração marcada e lá fomos nós dois enfrentar a limpeza.
De início pensei: vou tirar só o grosso para o churrasco acontecer. Depois… bem, depois eu vejo! Kkk
Mas que nada! De uma prateleira à outra, lá se foram muitas horas de limpeza, organização e, de repente, quase um surto. Respira, te equilibra e volta ao foco! Até máscara usei!
Foco foi necessário, não só pelas coisas a lavar, secar e devolver aos seus lugares, mas porque enquanto trabalhava nesse lava-guarda, a memória, sorrateira, entrou na faxina.
Cada peça trazia uma história. Aquela viagem, a outra, as lembranças, as saudades. E me peguei pensando: sabe de uma coisa? Se eu vivesse a minha vida novamente, não traria nenhum souvenir das viagens. Nem lembrancinhas, canecas, copos ou ímãs de geladeira. Dia desses, aliás, desafoguei minha geladeira de tantos ímãs.
Se eu vivesse minha vida novamente, só traria das viagens as lembranças que coubessem no meu coração. E era isso!
Curiosamente, não considerei esse pensamento trágico ou pessimista. Pelo contrário, pareceu libertador. Um desejo de leveza, de espaços livres, de limpeza fácil e de uma vida mais fluida.
Tudo teve seu tempo. Amei cada detalhe e cada época em que esses detalhes fizeram a diferença. Mas hoje alguns já me incomodam. E a faxina me colocou diante desses sentimentos.
Percebi que aspiro por mais espaços, quero meu tempo mais pra mim, pra nós. E, pra isso, simplificar as coisas faz uma enorme diferença.
Sabe qual foi minha conclusão depois de tanta faxina?
Que a grande questão não é exatamente “se eu vivesse minha vida novamente”, mas como quero viver minha vida hoje e como desejo planejar meu futuro.
Nesse sábado, entre panos, poeira, objetos e lembranças, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Mas foi o Tempo que tomou conta dos meus pensamentos, ora acalmando, ora inquietando, me lembrando de que ele é uma das grandes incógnitas da nossa existência.
A propósito, amanhã no Do que habita em mim, ele será o protagonista. by @niceluconi
10
7 days ago
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Esta semana, a Sombra parece andar fortemente entre nós.
Fomos tomados por adversidades e polarizações que, querendo ou não, chegaram à nossa intimidade. E, talvez por sincronicidade, chegou até mim East of Eden, série da qual falei ontem e que traz a Sombra atravessando pessoas, relações e gerações.
Independentemente disso, a Sombra já estava escolhida como tema deste Psicologia em Pauta.
Talvez seja um dos conceitos de Jung que mais nos desafia. Presente nos mitos, contos de fadas, literatura e cinema, assusta, provoca raiva e repulsa. Dificilmente nos deixa indiferentes.
Jung conceitua Sombra como aspectos de nós mesmos desconhecidos pela consciência. Aquilo que não reconhecemos em nós e enxergamos com clareza nos outros. “O inferno são os outros”, escreveu Sartre. E como é mais fácil encontrá-lo lá do que reconhecer aquilo que também nos habita.
Mas a Sombra não guarda apenas o que consideramos negativo. Nela também permanecem qualidades não desenvolvidas, desejos, criatividade, coragem, força. Gosto de pensar que guarda sementes que ainda não germinaram.
Jung se contrapôs à concepção do mal como privatio boni: privação ou ausência do bem. Não basta cultivarmos o que consideramos bom. Não basta nos “iluminarmos” para a Sombra desaparecer.
Podemos ser amorosos, religiosos, generosos, éticos e ainda assim ter uma Sombra. Ela não depende de sermos bons ou maus. Pertence à condição humana.
Reconhecê-la requer consciência e humildade, mas também pode nos trazer um acréscimo de humanidade para nos tornarmos “homens entre homens”, como nos lembra Marie-Louise von Franz.
Negar a Sombra pode dar-lhe ainda mais autonomia e fazê-la aparecer onde menos esperamos: nos julgamentos, opiniões ferrenhas, humores, escolhas e relações.
Quanto mais reconhecemos aquilo que nos habita, maior nossa responsabilidade diante do que fazemos com isso.
Penso que o trabalho com a Sombra é obra para a vida toda. Há nela o que precisamos reconhecer e transformar, mas também potencialidades a desenvolver.
Me pergunto então: 
E se olhássemos mais profundamente para a Sombra? Teríamos uma sociedade e uma vida mais saudáveis?

#psicologiaempauta #psicologia by @niceluconi
9
10 days ago
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Quase maratonei East of Eden, série da Netflix baseada no romance de John Steinbeck e criada por Zoe Kazan. A série traz uma riqueza incrível de conteúdos psicológicos. A própria Zoe fala explicitamente em shadow selves, nossas “partes sombrias”, e se pergunta sobre aquilo que recebemos das gerações anteriores e carregamos conosco.
A protagonista Cathy, interpretada por Florence Pugh, está impecável em um papel de extrema complexidade psicológica.
Sim, recomendo a série como um campo fértil para reflexões sobre escolhas, herança psíquica, repetição entre gerações e a possibilidade de não repetir o destino familiar.
Ao longo dos episódios, acompanhamos dramas, traumas, narrativas e, em especial, diálogos de uma sensibilidade e profundidade irretocáveis.
Entre tantos, um me fez parar e escrever este texto.
Em determinada cena, um dos personagens atravessa um momento de profunda tristeza. A dor parece tê-lo afastado das pessoas ao seu redor e da própria vida. Um amigo, tentando incansavelmente ajudá-lo, lhe diz:
“Finja estar vivo. Uma hora, será verdade.”
Voltei à cena. Ouvi novamente e comecei a escrever este texto. 
Que frase de tamanho impacto, pensei, pois “fingir”, naquele contexto, não se tratava de negar o que estava acontecendo, mas da importância de se levantar da cama, olhar para a vida, para o jardim a ser plantado, para os filhos ao seu redor. De fazer aquilo que lhe cabia enquanto reescrevia sua história e criava o seu futuro.
A dor continuava ali. Não era preciso vestir uma alegria que não sentia. Muito menos apressar um sofrimento que precisava de tempo.
Mas não esperar estar bem para voltar a viver.
Como é comum a gente imaginar que primeiro precisamos recuperar a vontade, a esperança, o desejo, para então retomarmos a vida.
Quem sabe o caminho possa mesmo acontecer ao contrário: começamos a viver e, pouco a pouco, alguma coisa em nós começa novamente a desejar a vida.
“Finja estar vivo. Uma hora, será verdade.”
Certamente o amigo não estava ensinando a fingir, mas a recomeçar.



#eastofeden #psicologia #sombra #psi by @niceluconi
25
11 days ago
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De uma amiga para outra Avessos se torna indicação! Obrigada Lurdes Basso! Bjbj by @niceluconi
7
13 days ago
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Tenho pensado nas mágoas que carregamos pela vida. Ou serão elas que nos carregam?
Algumas chegam e vão embora quase imperceptivelmente. Outras encontram um lugar dentro de nós e se acomodam de tal forma que parecem não ter pressa de partir. E, nesses casos, o estrago pode ser grande. Dificilmente passam sem deixar rastros.
Ao olharmos atentamente para a mágoa, percebemos que ela não vem sozinha. Em seu interior ela carrega raiva, tristeza, ressentimentos, decepções, inconformidades. Encontramos também lembranças que se tornam ruminações, situações (mal)vividas, palavras ditas ou não ditas. Magoados, reconstruímos cenas, repassamos aquilo que poderíamos ter dito ou feito e, quando percebemos, damos novamente vida ao que já aconteceu.
Essa é uma das grandes armadilhas da mágoa: acontecimentos vividos se preenchem de emoções e voltam a ganhar vida. Nos tornando prisioneiros de seus efeitos.
Não acredito que possamos simplesmente decidir não sentir mágoa. Tampouco penso que toda ferida precise terminar em perdão. Algumas coisas não serão esquecidas. Outras talvez jamais sejam compreendidas.
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer uma mágoa e permitir que ela comande a nossa vida. Entre permanecer paralisado por aquilo que nos feriu e reconhecer nossos pontos vulneráveis, cuidar deles e nos fortalecer. Talvez assim, pouco a pouco, deixemos de permitir que a mágoa se aproprie de nós.
Uma vez reconhecida, a mágoa pode encontrar seu devido lugar: aquele que, de algum modo, nos influencia, mas não determina quem somos.
Penso que está aí uma grande tarefa da vida: aprender a visitar nossas mágoas sem nos prendermos a ela. 
Reconhecer aquilo que doeu, dar-lhe o devido lugar na nossa história, mas, a tempo, levantar e seguir em frente.



#doquehabitaemmim #mágoa #psicologia #junguianos by @niceluconi
13
14 days ago
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Ao longo da vida, fui fazendo muitas mudanças. Grisalhar, guardar os saltos altos para raríssimas situações, priorizar roupas confortáveis, me distanciar do velho “vai lacear”. Prestar atenção aos papéis que ocupo e me perguntar: o que ainda me serve? O que me representa? O que não quero mais pra mim?
Venho aprendendo que aquilo que mostro ao mundo precisa se aproximar cada vez mais de quem sou e menos de quem imaginava que deveria ser, ou do que esperavam de mim. 
E aqui entra o conceito de Persona.
Para Jung, Persona é a face que apresentamos ao mundo, uma máscara necessária à nossa adaptação à vida coletiva. O problema começa quando essa máscara deixa de nos servir e passamos a nos identificar de tal maneira com o que mostramos ou representamos que já não sabemos quem somos para além disso.
E não estamos falando apenas de aparência.
Somos mães, pais, profissionais, esposas, maridos, cuidadores, amigos. Cada papel pede uma maneira de estar no mundo, mas nenhum deveria dar conta de tudo o que somos.
Penso, por exemplo, numa mulher tão identificada com a maternidade que seus desejos e projetos vão desaparecendo. Quem pagará a conta dessa renúncia? Sua saúde? Ou também os filhos, que poderão carregar uma dívida que não contraíram?
Ou em quem passou tantos anos sendo aquela pessoa que resolve tudo que já não sabe pedir ajuda ou simplesmente dizer “não sei”, “não quero”.
A Persona que nos ajuda a viver também pode nos aprisionar.
Talvez o saudável seja essa possibilidade de movimento: entrar e sair dos papéis, modificá-los e permitir que outros desejos encontrem espaço.
Com o passar dos anos, tenho estado especialmente atenta aos vários papéis da minha vida. Sem esquecer, evidentemente, que sigo inserida na cultura e nas demandas sociais. Que pobreza nos esperaria no entardecer da vida se já não precisássemos nos adaptar ao mundo e aos outros.
Não foi por acaso que iniciei este texto falando de cabelos, roupas e calçados. Cada mudança me faz pensar que uma Persona flexível é aquela que, ao voltar para casa, me permite dizer:
Hoje andei confortável. Minha roupa coube perfeitamente em mim.
##psicologiajunguiana #psicologiaempauta #jung by @niceluconi
11
17 days ago
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Nesses tempos em que tantos segredos vêm à tona e ocupam noticiários e redes sociais, pensar sobre eles foi quase inevitável por aqui.
Me peguei pensando neste tema que, de algum modo, atravessa a vida de todos nós.
Guardar um segredo que alguém nos confiou é uma das formas mais silenciosas de respeito. Quem nos conta alguma coisa coloca em nossas mãos uma parte de sua intimidade. Há algo de muito delicado nessa entrega.
Mas nem todo segredo protege.
E nem todos os segredos que carregamos são nossos. Alguns nos foram confiados, com ou sem o nosso “consentimento”. Estamos mesmo dispostos a carregar o segredo do outro? Será isso privilégio ou peso?
Há segredos que, com o tempo, ocupam cada vez mais espaço dentro de nós. Guardamos por medo, vergonha, culpa, preconceito. Porque não sabemos como contar, tememos o que acontecerá ou acreditamos que podemos dar conta sozinhos.
E vamos sustentando.
Até que aquilo que parecia guardado começa a nos pressionar por dentro. O corpo sente, o sono se altera, a ansiedade aparece, os pensamentos se repetem. O segredo passa a se revelar em nós.
Algumas vezes é preciso romper o limiar do segredo.
Encontrar alguém, pedir ajuda, confiar nos apoios possíveis. Isso exige atravessar o medo do julgamento, o preconceito, a vergonha e até a onipotência de acreditar que precisamos resolver tudo sozinhos.
Há segredos que precisam ser preservados. Outros precisam encontrar um lugar onde possam ser ditos. E há aqueles cujas consequências ultrapassam a vida individual e atingem outras pessoas. Nesses casos, o silêncio precisa ser questionado.
E há ainda aquilo que simplesmente nos pertence.
Nem tudo em nós precisa ser conhecido pelo outro. Há uma intimidade que não precisa ser revelada. Somos também aquilo que preservamos.
Segredos podem aproximar ou separar. Proteger ou adoecer. Ser prova de confiança ou um peso carregado durante uma vida inteira.
A existência de um segredo pode e precisa ser revisitada para avaliarmos seu peso e o que precisamos fazer para continuar guardando-o. Ou não. 

#doquehabitaemmim #segredos #psicologia by @niceluconi
9
21 days ago
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