Posted On: May 23rd 2025, 05:05 pm
É assombroso ser pego despercebido pela câmera frontal do celular que se abriu sozinha. O espanto vem em seguida “isso não sou eu”, ou pelo menos não deveria. “Você sabia que as câmeras do celular distorcem a nossa imagem? Não podemos confiar no que a gente vê ali”. Você não é exatamente aquilo, também não é uma imagem completamente diferente, manchada por distorções sejam elas das lentes das câmeras, ou outras. Mas tudo meio que é. O que vemos virtualmente não é realidade, mas é como se fosse. Ela tem potência de realidade. Quem nunca se pegou rindo pelos dedos, usando mil teclas de kkkkk, rs rs rs, hahaha, e carinhas chorando de rir, enquanto se mantinha sério olhando pra tela brilhante do celular? Ou quando manda meme pra amiga, pro namorado, ou colega do trabalho. “Amiga veja isso, é a gente”, “Sou eu”, “É tu”. Sequer passa por representação em palavra. Não existe mais o aqui e agora, é vazio de temporalidade.. é tudo em todo o canto ao mesmo tempo. São nômades e dispersos. Um efeito moebius, com sua passagem do interior para o exterior, relações de publico e privado, objetivo e subjetivo. É uma imagem de si mesmo lançada ao mundo. Tudo isso nos coloca em crise com a identidade clássica, sem obedecer limites antes conhecidos, causando grande impacto em nosso processo de subjetivação. O virtual ocupando o lugar do sonho, da fantasia, sem que seja representado. Um excesso de discurso, que embora nos coloque em contato com o outro, nos aliena.. Pois esse outro é muito contaminado por meus efeitos narcísicos. Uma prisão na produção de imagens de si mesmo, um delírio, sem uma atualização, um compartilhar com o outro. Se antes produzíamos sonhos, que seriam as primeiras traduções do nosso inconsciente, que depois passariam por várias outras traduções e atualizações, passando pela palavra.. hoje nós produzimos conteúdo. As fantasias apocalípticas tomam status de realidade, microchips, implantes, modificações corporais, inteligências artificiais.. uma selva inteira de fantasias reais em demasia para o homem dar conta.
Continua…