Posted On: August 16th 2025, 01:52 pm
𝑨 𝑹𝒊𝒃𝒆𝒊𝒓𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑵𝒂𝒖𝒔, 2025
acrílico e óleo sobre tela, 100x100 cm
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𝙖𝙗𝙚𝙘𝙚𝙙á𝙧𝙞𝙤
eu quero escrever
mas o meu peito não larga as palavras.
ele quer só para si, para observar e rever,
todas as mágoas e paixões escravas.
aquelas que eu senti
e gostava de resumir,
observo-me sem ti
e impossibilito-me da ação do deixar ir.
sempre que o tento fazer,
escrever o que o meu peito tanto quer guardar,
olho para a minha figura sem querer
e observo-me a observar
as letras do alfabeto no meu teclado:
o A amargo e o D dolorido,
lembro-me do sorriso de um J deslocado
e o G ainda agora sentido.
eu quero escrever,
mas o meu peito não me deixa.
pressiono os meus dedos frios e a doer
no G de Gasolina e no A de Ameixa.
eu pressiono mais uma vez,
tento expulsar o que o meu peito tanto guarda.
o J dá por si a sorrir invés
de voltar para o amor que o aguarda.
o teclado transforma o D numa figura triste,
não porque ele simplesmente quer,
junta-se um G à equação e ele ri-se
da pessoa que ele achava ser.
DG não se junta em ditongo,
falta uma ou duas vogais.
o A triste com traço longo,
no entanto, funciona sozinho sem sinais.
sinais de quem efetua o ato de escrever
ou achava que efetuava,
o meu peito já não o deixa fazer
já não acreditava num abecedário que o amava.
o A afastou-se por si,
o D gosta de arrastar o meu peito pelo caminho,
o G acredita-se maior e sorri
por um J, que agora caminha sozinho.
o meu peito não me deixa escrever,
isto porque está farto de letras.
as consoantes, sozinhas, não se conseguem ler,
embora, escritas em tintas pretas.
as vogais, no entanto,
que têm trajetória independente,
ficam sozinhas no seu triste canto,
ou coladas a um T ou F que mente.
enquanto eu sentir o peso das letras,
o meu peito nunca irá permitir o teclar.
o abecedário é feito de tretas
e o meu coração é o único que me tenta salvar.
este teclado torna-se imprevisível,
e é o maior vício que dá para ter.
as letras tornaram-me invisível:
eu próprio não sou A,
sem me lembrar de outro A qualquer.
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de: 𝘼𝙁𝙊𝙉𝙄𝘼 e 𝘾𝙖𝙨𝙖 𝙙𝙤 𝙀𝙘𝙤