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4 months ago
Photo by Jéssica Coura on June 04, 2026.
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Posted On: June 4th 2026, 07:13 pm
A menina que eu fui anda por aí. Aqui, em mim, ela não mora mais em tempo integral. Aparece de vez em quando, geralmente quando estou machucada. Surge nos dias em que alguma falta pesa, quando o medo faz mais barulho do que deveria ou quando a vida parece exigir de mim uma coragem que não encontro imediatamente esses momentos, procuro por ela. Procuro porque lembro da sua coragem e da sua ausência de medo - que, para mim, são coisas diferentes. Coragem é seguir apesar do medo. Ausência de medo é simplesmente não precisar enfrentá-lo. E aquela menina tinha os dois. Tinha também um olhar doce e firme, uma confiança quase desconcertante para alguém tão jovem.

Passo boa parte da vida tentando trazê-la de volta. Ou talvez tentando ser ela outra vez. Ser ela. Ser eu. Às vezes me pergunto em que momento aconteceu a ruptura entre nós duas. Ou se houve apenas uma. Talvez tenham sido várias, pequenas e silenciosas, espalhadas pelos anos.

Existe uma lembrança que sempre retorna. Talvez porque exista fotografias dela. Estou na borda de uma piscina, prestes a largar para uma prova de 100 metros medley em um campeonato estadual. O que mais me chama atenção hoje não é a competição, nem o resultado. É a expressão daquela menina. A serenidade. A confiança. Ela simplesmente ia. Não existiam cenários imaginários de fracasso. Não existiam planos de contingência. Não existia o desgaste dos “e se”. Ela apenas fazia o que precisava ser feito. E, na maior parte das vezes, dava certo.

[continua]
Comments (11)
debsleana 4 months ago

debsleana

❤️

dani_fmendes 4 months ago

dani_fmendes

❤️

vitteixeira 4 months ago

vitteixeira

❤️‍🩹❤️

dyozmio 4 months ago

dyozmio

Muito parecido com o meu processo. Eu busco mais a minha criança quando estou triste ou angustiado. Tento me reconectar por meio de uma música que lembre o passado, um vídeo antigo da seleção de 82 ou do Flamengo antigo, e, de uma forma mais geral, desde que o Flamengo voltou a ganhar e eu me reconectei com o futebol. Um dos planos que eu tinha quando criança era passar meus brinquedos para meus filhos, mas fui embora de Santos pouco antes de meu pai deixar a casa da minha infância. Não pude estar lá e pedir o saco onde estavam meus jogos de botão e meus hominhos (as "action figures" não existiam). E o saco e parte das minhas memórias foi "pro saco". Mas eu estou aqui e não deixo de ser aquela criança.

edneymartins 4 months ago

edneymartins

Gente, que encontro maravilhoso! ❤️

mateusborges86 4 months ago

mateusborges86

Nossa! ❤️

malaumoura 4 months ago

malaumoura

Lindo!

jess.coura 4 months ago

jess.coura

Hoje, às terças-feira, sentada diante da minha terapeuta, quando choro por alguma dor, alguma ausência ou algum medo, penso nela. É quase automático. Como quem busca uma testemunha antiga de si mesma. Eu passo tanto tempo procurando aquela menina como se ela tivesse ido embora, mas a verdade é que ela não foi. Ela sou eu. A mesma que hoje sente medo, mas continua caminhando. A mesma que já não tem a ingenuidade de antes, mas acumulou outras formas de força. A mesma que às vezes se perde e, ainda assim, encontra o caminho de volta. Talvez seja aprender a reconhecer, mesmo entre as dores da vida adulta, a criança corajosa que continua existindo dentro de nós, esperando apenas ser lembrada.

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