Adoro essas escritas viscerais de si, essa literatura que esbarra nas feridas da vida para alargá-las e, quem sabe, torná-las mais doces. A literatura não tem esse dever, mas tem esse poder: servir como um dispositivo de elaboração dos traumas.
No centro do livro está a experiência do câncer de mama. A partir dessa experiência-limite, a obra se divide em três seções que percorrem o medo da morte, a feminilidade e, por fim, a exaltação da vida. Não é uma narrativa de declínio, mas de superação: da morte à vida. O último poema, brilhante como encerramento, tem por titulo Lista:
— Viver.
Inúmeras questões íntimas e sociais emergem com força poética e rara sensibilidade. O que significa, para uma mulher, experimentar-se careca? A perda da feminilidade? Da identidade? Karen escreve uma sequência de poemas sobre isso que seria hilária, não fosse tão trágica e violenta.
Não acredito em uma felicidade fácil, gratuita. Acredito numa felicidade ligada à luta, ao movimento: uma felicidade entendida como processo, e não como resultado. É bonito acompanhar a vontade de lutar, de superar e de viver da voz lírica de Karen, que também encontra espaço para homenagear tantas companheiras, de Henrietta Lacks à poeta argentina Alfonsina Storni, que conheci há pouco tempo e agora tenho vontade de desvendar.
“Sou eu e não mais sou” reúne poemas brilhantes sobre trauma, adoecimento, dor e violência, politizando o corpo, a saúde, a estética e a própria experiência de viver. Tudo isso com muita latinidade, potência e intensidade poética. Menatti cria imagens poderosas e dança com delicadeza entre as palavras.
Poesia gostosa, madura e muito bem construída. Acompanhar a travessia da autora em direção à vida foi, para mim, uma belíssima travessia poética também.
Certamente um dos melhores livros de poemas que li este ano.
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