Posted On: July 10th 2026, 10:10 pm
O vento da noite traz-me imagens: uma palavra que não digo cobiça a chuva que rodeia as mãos dos homens. De alguns homens com o grampo das granadas entre os dentes, à espera de que o fogo surja para consumir os destroços de espelhos dissolvidos no tempo. Estão de pé sobre pedras de mármore. Exilam-se ali, golpeados na goela; seus gritos se amotinam. Mergulhariam, se pudessem, em qualquer abismo. Nem o calor deixaria lastro após a catástrofe, e encarar a morte arranharia o vocábulo das pedras e dos desertos.
Ouvi das ruínas que o amor é sempre tão breve, sempre tão pouco. Ouvi também dos mariscos guardados no mar e dos homens que deambulam solitários, essas sanhas avariadas de desprezo. Queriam eles um mundo que conseguisse ver um lume, ainda que transparente, mas são tão inconclusos os passos que se dão entre as anedotas desviantes. Carregavam nos bolsos pequenas brasas de um incêndio antigo, sem saber se aqueciam as mãos ou alimentavam a própria noite. Tão pacífica é a dança dos ventos no balançar do mundo. As marés recolhem o sal dos nomes e devolvem apenas o rumor daquilo que um dia ousamos chamar de destino. Observar o quinhão que sobra dos abraços é experimentar uma versão ingovernável de nós mesmos.
Dá-me o lume desse instante e inspira a captura do meu olhar sobre as coisas vãs. Dá-me a voz de um deus ou a pele lasciva das ninfas do Olimpo. Dá-me quadros coloridos sobre a parede do quarto e uma chave que abra todas as janelas. Dá-me a pronuncia da palavra “beijo” numa língua que ainda não decifrei.
Sobre os nervos, sempre vou desesconder o correr trôpego dos cavalos e o voo migratório das aves no inverno. Talvez então eu compreenda que toda ruína conserva um princípio, que toda palavra oculta um país, que toda noite guarda um fogo ainda por nascer. E, quando a manhã tocar as pedras com sua luz indecisa, restará apenas o rumor do vento atravessando os corpos, como se a esperança fosse a última língua que ainda aprendemos a pronunciar.
10 de julho de 2026