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Um dia eu disse que tinha amado minha experiência na Flip do ano passado. Que jamais havia visto tanta gente reunida por um mesmo propósito: celebrar a palavra. A palavra como arte, como encontro, como memória, como alma.
Contei que aproveitei cada instante. Participei de mesas, escutei saraus, encontrei amigos, fiz novos, lancei meu romance de estreia, brindei lançamentos, caminhei pelas ruas de Paraty atento às conversas, às pessoas e aos livros.
Então, alguém me respondeu que também tinha ido e não havia gostado. Achei curioso. Mas compreendi. Talvez aquela pessoa simplesmente não encontrasse o mesmo encantamento que eu em um evento inteiramente devotado à literatura.
A literatura sempre esteve na minha vida, muito antes de eu saber que ela existia como ofício, como estudo ou como possibilidade de futuro. A poesia também sempre esteve comigo, antes mesmo de eu compreender o que significava viver poeticamente.
Meu avô tocava violão e cantava todas as tardes. Um tio aprendeu sozinho a tocar sanfona. Outro fazia balões para as festas de São João. Minha família sempre viveu cercada de histórias; histórias que atravessam gerações, desde meus tataravós, anedotas, causos, lembranças contadas à mesa, na calçada ou ao redor das fogueiras. Talvez tenha sido ali que nasceu meu amor pela palavra.
Por isso, a Flip, apesar das críticas que todos conhecem e que também considero importantes, continua sendo, para mim, um lugar mágico. Caminhando por Paraty, encontrei Conceição Evaristo, Itamar Vieira Junior, Marcelino Freire, Jeferson Tenório e tantos outros escritores que admiro. Mais do que isso: encontrei leitores apaixonados, pessoas que fazem da literatura uma forma de estar no mundo.
Durante aqueles dias, a cidade inteira parece respirar a língua portuguesa. Cada esquina abriga uma conversa sobre livros. Cada rua parece lembrar que as histórias ainda são capazes de reunir pessoas.É bonito demais viver isso.
Desejo uma festa literária inesquecível a todos que estão em Paraty este ano. Que os livros encontrem novos leitores, que os encontros se multipliquem e que a palavra continue nos transformando.
Em breve, espero voltar para celebrar tudo isso outra vez. taken in Paraty RJ by @everton.rocha.rio
8
3 days ago
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O vento da noite traz-me imagens: uma palavra que não digo cobiça a chuva que rodeia as mãos dos homens. De alguns homens com o grampo das granadas entre os dentes, à espera de que o fogo surja para consumir os destroços de espelhos dissolvidos no tempo. Estão de pé sobre pedras de mármore. Exilam-se ali, golpeados na goela; seus gritos se amotinam. Mergulhariam, se pudessem, em qualquer abismo. Nem o calor deixaria lastro após a catástrofe, e encarar a morte arranharia o vocábulo das pedras e dos desertos.

Ouvi das ruínas que o amor é sempre tão breve, sempre tão pouco. Ouvi também dos mariscos guardados no mar e dos homens que deambulam solitários, essas sanhas avariadas de desprezo. Queriam eles um mundo que conseguisse ver um lume, ainda que transparente, mas são tão inconclusos os passos que se dão entre as anedotas desviantes. Carregavam nos bolsos pequenas brasas de um incêndio antigo, sem saber se aqueciam as mãos ou alimentavam a própria noite. Tão pacífica é a dança dos ventos no balançar do mundo. As marés recolhem o sal dos nomes e devolvem apenas o rumor daquilo que um dia ousamos chamar de destino. Observar o quinhão que sobra dos abraços é experimentar uma versão ingovernável de nós mesmos.

Dá-me o lume desse instante e inspira a captura do meu olhar sobre as coisas vãs. Dá-me a voz de um deus ou a pele lasciva das ninfas do Olimpo. Dá-me quadros coloridos sobre a parede do quarto e uma chave que abra todas as janelas. Dá-me a pronuncia da palavra “beijo” numa língua que ainda não decifrei.

Sobre os nervos, sempre vou desesconder o correr trôpego dos cavalos e o voo migratório das aves no inverno. Talvez então eu compreenda que toda ruína conserva um princípio, que toda palavra oculta um país, que toda noite guarda um fogo ainda por nascer. E, quando a manhã tocar as pedras com sua luz indecisa, restará apenas o rumor do vento atravessando os corpos, como se a esperança fosse a última língua que ainda aprendemos a pronunciar.
 

10 de julho de 2026 by @everton.rocha.rio
7
15 days ago
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O Banco do Nordeste Cultural @ccbnb_fortaleza reuniu um time de autores cearenses no mini auditório para uma uma conversa sobre literatura feita por pessoas Lgbts. 

O momento teve curadoria e medição do poeta e jornalista @diegojgregorio e contou com @everton.rocha.rio , @steniogardel e @rauldmasceno 

Poesia como bandeira. Poesia como escudo. taken in Fortaleza - Ceará - Brasil by @everton.rocha.rio
34
25 days ago
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No dia 27 de junho, às 11h, o mini auditório do Banco do Nordeste Cultural Fortaleza @ccbnb_fortaleza recebe LER, ESCREVER, EXISTIR uma roda de conversa que reúne autores LGBTQIA+ para compartilhar experiências sobre a produção literária contemporânea no Ceará.

Com participação de Stênio Gardel, Raul Damasceno, Isadora Gurgel e Everton Rocha, o encontro terá mediação e curadoria de Diego Gregório (@diegojgregorio ) propõe um diálogo sobre escrita, identidade, afetos e representações a partir das trajetórias e obras dos convidados.

Uma oportunidade para conhecer diferentes vozes da literatura cearense e celebrar a diversidade que fortalece nossa cultura.

27 de junho - sábado 
Às 11h 
Mini Auditório do Banco do Nordeste Cultural Fortaleza 
Entrada gratuita pelo OUTGO
Classificação indicativa: livre taken in Fortaleza - Ceará - Brasil by @everton.rocha.rio
56
a month ago
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Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura, Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos Quase tudo do sentido a entendê-lo
B ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada, Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve, Impropícia e profunda.
Ricardo Reis (Heterônimo de Fernando Pessoa) by @everton.rocha.rio
0
2 months ago
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Em breve, 22 autores serão publicados pela Editora Nauta (@editoranauta ) por meio da obra O Amor Dorme no Peito – Antologia de Contos Homoeróticos, organizada por Marcos Samuel Costa (@marcossam_autor ) e Genisson Paes (@genissonpaes ).

O título da coletânea faz alusão ao poema El amor duerme en el pecho del poeta, de Federico García Lorca.

Fui um dos autores escolhidos para integrar essa publicação. E não poderia estar mais feliz, além de ansioso para compartilhar esse trabalho com todos os amigos que me seguem. 
 
Até lá fica o registro, desse momento, que para mim é muito caro, nessa minha jornada literária. 

📚 by @everton.rocha.rio
15
3 months ago
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Um trecho pequeno de minha crônica para o livro “Fortaleza Amada” publicado pela @editoraufc em comemoração aos 300 anos da cidade. 

A crônica “Pôr do sol da Barra do Ceará” nasce de um lugar que, para mim, guarda uma das vistas mais bonitas de Fortaleza. Como morador, aprendi a me demorar nesse instante de transição, o lusco-fusco, quando o sol, lento e majestoso, se despede do dia.

Como uma linguagem lírica, escrevi essa crônica que fala bastante sobre esse sentimento de gratidão que tenho para com a cidade que me acolheu. Aqui criei raizes. Vivi histórias. Nunca perdi, nem mesmo quando os instantes foram de luta. 

Cheguei aqui nos anos dois mil. Com os olhos cheios de espanto. A cidade grande assustava, mas também chamava. Entre idas à Ponte Metálica e fins de semana na praia, fui aprendendo a gostar das ruas de brisa quente, mas de vento abundante. 

No meio do caos do centro agarrei oportunidades, enfrentei injustiças, pude conhecer lados que nunca tinha visto. 

Foi aqui, entre encontros e desencontros, que a literatura me encontrou e ficou. 

O lançamento do livro “Fortaleza Amada” ocorrerá amanhã dia 23 de abril. Entrem no site da editora e garantam o livro que tem crônicas de vários escritores cearenses. 

Vamos nos presentear fomentando a literatura local! 

Parabéns Fortaleza!
Quem venham mais 300 anos. taken in Fortaleza, Brazil by @everton.rocha.rio
31
3 months ago
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luta de sonâmbulos animais sob a chuva. insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.
na cal viva da memória dorme o corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um
cão ferido. acorda-o para a inútil deambulação da escrita.
abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades. sozinho…
eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.
eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, meta-
morfose, água, fúria, lucidez, cinzas.
ardem cidades, ardem palavras. inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, objectos, arqueologias. arde a paixão no esquecimento de voltar a dialogar com o mundo. arde a língua daquele que perdeu o medo.
germinam fluidos mágicos por dentro da matéria contaminada do corpo, os órgãos profundos gemem assustados pelo excesso. nunca mais voltámos a encontrar um paraíso. a pausa para respirar não existe, o tempo dos grandes desertos absorveu a seiva dos adolescentes dias.
a insónia, essa ferida cor de ferrugem, festeja noctívagas alucinações sobre a pele. no ácido écran das pálpebras acendem-se quartos alugados onde pernoitá-mos. são enfim brancos esses pedaços de memória onde dávamos abrigo e sossego aos corpos.
para sobreviver à noite decidimos perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das máscaras, dos ros-tos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
era quase manhã no fim deste cansaço. despertava em nós o vago e trémulo
desejo de escrever.
passaram doze anos e esquecer-te seria esquecer-me. repara no estremecimento do sangue, a morte rendilhando peste nos ossos, os dedos paralisados, a fala, os espelhos.
Al Berto by @everton.rocha.rio
7
3 months ago
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✨ Vlog de sábado (11/04)

Levei vocês para uma cafeteria literária que inaugurou há quase dois meses (a @solliterariocafeteria). Eles têm um Clube de leitura próprio, que começou com o livro do @aledevirgem, “Meu amor meu ódio”.

Depois do encontro, teve sarau com poetas residentes, como @anna_vinci_escritora, @rubenitaams, @armindaserpa, @everton.rochario, @julieoliveira.escritora. Na hora, teve participação da @sofiaosoriodc.

Tudo foi idealizado pela escritora e dona da @editora.solliterario, @angelicasampaio10. Vale lembrar que evento assim tem todo mês, viu?

Agora me diz, cadê os fãs de sarau? Manda pro seu amigo que estava caçando uma cafeteria assim!

#livros #cafeteria #booktokbrasil #secultce taken in Sol Literário Cafeteria by @everton.rocha.rio
22
3 months ago
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Há algo de muito sutil na primeira flor que desabrochou nesse chão. Um convite a uma canção com a palavra amor na terra do sol. Respiramos o sol em Fortaleza tantas e tantas vezes difícil, tantas e tantas vezes bela, tantas e tantas vezes amarga. Encontramos mazelas, desempregos, tiranias. Encontramos valentia, intimidade, força milagrosa. Pessoas lindas e esquecidos nas favelas dos bairros em clamor. Seremos nós a lembrar deles, nós que também estamos ávidos por chuvas que nos lave o rosto toldado. Por um dia que amanheça de baixo de chuva. Nesse dia Fortaleza não terá mais melancólica, sem injustiças, sem sede por emprego, sem descasos do poder público. Um baobá pede que voltemos ao início. Um lindo baobá no cento da cidade roga que um anjo de pedra nos torne luz. Assim como o sol torne nosso olhar um convite pelas ruas da cidade. Ao ser convocado a investigar a avenida Treze de maio percebo-a inquieta. Ao ver as folhas que caem nos jardins do teatro José de Alencar vejo-as antigas. As lagrimas de sal da ponte metálica salpicando os meninos saltimbancos me anunciam um coração prometido ao sol. O relógio implacável da praça do Ferreira assistindo o nosso desaparecer é poema do silêncio. No fundo dos olhos de todo fortalezense há um convite a uma canção insolúvel demais que se esqueça. Sem deixar que a transfiguração do som das nossas bocas recite cartas de amor que deixamos nas esquinas de cinza e mármores. É chegada a hora de não estarmos sós aqui. Inquietos estamos todos a escrever de nosso amor. A terra que nos abriga também nos imola. Três séculos se passaram, antes deles muitos outros também ficaram para trás. Hoje nossa cidade tudo faz amor com o sol. Tudo faz carícia com o mar. Tudo faz saudade no horizonte. taken in Fortaleza, Brazil by @everton.rocha.rio
12
3 months ago
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Quer uma programação poética para este fim de semana? 

Trazemos nossa programação para os dias 11 e 12 de abril com muita alegria:
☕ No sábado (11), a partir das 15h, o primeiro encontro do Clube de Leitura Sol Literário, com o livro "Meu amor, meu ódio", de Alexandre de Almeida.
☀️ Também no sábado (11), a partir das 17h, a segunda edição do nosso Sarau Solar, com convidados especiais!
🧘 No domingo (12), de 8h às 9h, nossa Yoga Sol Literário, com Júlia Barros.

Venha aproveitar cada momento na nossa cafeteria. Esperamos por você! ☀

⚠️ Confira as atividades que precisam de inscrição e garanta sua vaga. taken in Sol Literário Cafeteria by @everton.rocha.rio
14
4 months ago
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Siga o perfil 📚@estantedoale 
Quando uma barragem se rompe, muitas histórias são levadas junto com as águas e o barro. "Inunda-me" conta uma dessas possíveis vidas transformadas pela trajédia. Everton Rocha traz Hugo e Ícaro, amados e separados pela irresponsabilidade de uma mineradora neste livro de prosa poética cadenciada e pura.

Livro 📕 INUNDA-ME - Everton Rocha 
Encontro presencial 14/03/2026 às 15H 
Casa de Juvenal Galeno 
CLUBE DE LEITURA AÍ DENTU-POESIA ❤️ 

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#clubedeleitura #escritoresceareses #aidentupoesia2026 taken in Casa Juvenal Galeno by @everton.rocha.rio
14
5 months ago
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