Posted On: August 6th 2026, 11:27 pm
Hoje eu reparei para uma janela em minha casa. Apreciei a paisagem. Nunca me permiti tal fascínio. Um pedacinho do mar, árvores, um céu belo e pássaros brigando pelo melhor lugar no galho. Caminhei pela casa. Senti o quanto estou "fora de dentro" Parei diante dos quartos das minhas filhas. Os mesmos quartos que abrigaram seus bercinhos. Uma forte saudade me tomou. Pensei na procrastinaçao dos nossos passeios e do cinema. Nenhum brinquedo para juntar. As meninas cresceram. Seguem seus destinos orgulhando-me. A casa ficou grande, organizada e silenciosa. Espaços sobrando. Eu sobrando. Silêncio. Tantas vezes implorei silêncio em meio ao barulho das pequenas. Briguei tanto para ver os brinquedos arrumados. já não há o cachorrinho xixando nos tapetes. Os varais estão sempre vazios. Os biscoitos mofam. Ninguém para assaltar a geladeira na madrugada às gargalhadas me convidando à farra! A memória simula minhas pequenas personagens vivendo a infância intensamente. Silêncio tem S de Solidão. E não é qualquer Solidão. É S de Saudade. S de Sobrando. Enxugo as lágrimas, pego a bolsa e vou visitar meu pai. Aos 94 anos, ele deve ter sentido algo parecido. Abraço-o. Fazemos planos para o seu aniversário. Quer uma calça e uma camisa novas. Combinei irmos ao shopping. Disse-me que só iríamos se eu tomasse o capuccino da casa dele. É mais barato. Reclamo que está andando devagar e peço que acelere os passos. Ele obedece vaidoso. Fecho-lhe um esquecido botão. Fala que nunca mais havia saído nem ao jardim. Que a casa estava um silêncio só. Que sentiu saudade e perguntou por onde eu andei a semana inteira. Nada respondo. Conduzo-o ao Café, reclama do preço, elogia o sabor. Falo da saudade que sinto de mamãe. Sou ignorada. Ele diz que nada paga aquela tarde comigo, mas paga o café reclamando do preço absurdo. Escolheu a calça e a camisa desejadas e as estendeu sobre a cama. Farei o bolo do seu aniversário e encherei balões. Frank Sinatra de quem ele gosta animará a festa. Ele gostou do meu barulho em sua tarde. E eu me lembrei de Kallil Gibran: "Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si m