Posted On: October 6th 2026, 09:00 am
Uma das coisas mais difíceis do nosso tempo é permanecer diante de quem pensa diferente sem sentir a necessidade imediata de convencê-lo, corrigi-lo ou reduzi-lo àquilo que pensamos sobre ele.
Dialogar exige escuta, mas também disposição para o desconforto. Exige suportar não ter a última palavra, fazer perguntas antes de concluir e reconhecer que mudar de ideia não é uma derrota.
Rubem Alves ensina que escutar é mais do que ouvir. É abrir espaço para que o outro exista diante de nós. Em um tempo de tantas certezas, prestar atenção ao que o outro diz tornou-se uma forma de cuidado.
Dialogar exige lembrar, ao pensar a pluralidade, que o mundo comum existe porque somos diferentes e, ainda assim, compartilhamos o mesmo mundo. A diferença não é um obstáculo à vida em comum. Ela é parte dela.
E, quando penso na disputa por espaços de fala, recordo Virginia Woolf e Um teto todo seu: a necessidade de um espaço próprio para pensar, escrever e existir com liberdade. Um lugar em que a própria voz possa existir sem pedir licença e sem precisar silenciar a voz do outro.
Não precisamos concordar para permanecer em diálogo. Precisamos reconhecer que o outro também tem o direito de existir, falar e discordar.
É assim que uma sociedade democrática se constrói: não quando eliminamos as diferenças, mas quando aprendemos a conviver com elas sem transformar o outro em inimigo.
Alliny Burich
Esperançosa em diálogos possíveis.