Posted On: October 18th 2026, 11:16 pm
Estou de saco cheio de militantes de esquerda que usam as redes sociais para dizer aos outros que saiam de suas casas, abandonem a vida digital e façam militância presencial, como se tivessem descoberto uma verdade política que o restante da humanidade ainda fosse incapaz de compreender.
Não se trata de negar a importância da organização coletiva, da ocupação das ruas ou da construção de vínculos políticos para além das telas. Trata-se de questionar a facilidade com que algumas pessoas transformam uma convicção legítima em uma prescrição moral, como se a própria maneira de compreender e exercer a militância devesse servir de medida para julgar a dos demais.
Há algo profundamente contraditório em defender a emancipação humana e, ao mesmo tempo, assumir uma postura de tutela diante dos outros. Como se as pessoas precisassem ser constantemente instruídas, corrigidas e conduzidas por quem acredita ter compreendido melhor o caminho. Como se a consciência política alheia fosse um território a ser administrado.
E há um efeito curioso nisso: quanto mais alguém insiste em dizer o que os outros devem fazer, menos disposição pode despertar para que façam justamente aquilo que recomenda. Não necessariamente porque a recomendação esteja errada, mas porque a imposição desperta resistência. A necessidade de preservar a própria autonomia pode se tornar mais forte do que a disposição de concordar com uma ideia que, apresentada de outra maneira, talvez até fizesse sentido.
A militância não deveria servir à construção de pequenas autoridades morais, muito menos à produção de hierarquias informais entre aqueles que supostamente compreenderam a realidade e aqueles que ainda precisariam ser ensinados a vivê-la.
Porque, se a emancipação significa alguma coisa, ela precisa incluir a possibilidade de pensar, escolher, discordar e encontrar os próprios caminhos; inclusive sem pedir autorização àqueles que acreditam saber qual deveria ser o nosso.