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Estagiária de nordeste.
Com as ferramentas de trabalho debaixo do braço.
Cigana de Brasil.
Nascida para a eterna novidade do mundão.
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Bora! by @palomices
38
6 hours ago
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Na louça, eram 14 olhos me observando. Duas vezes, vendo tv, caíram na minha cabeça. Viver numa APA é assim. As pererecas dividiam a cama, o banheiro e o teclado. Tinham também as muriçocas. Li que elas podem dormir até 16 horas. Mas a gente não. E bom, como a maioria só lê o começo, consegui espantar alguns curiosos. Aos que restaram, quero que o lugar continue frequentado por insetos, sapos, peixes-boi e assombrações de chapéu de palha balançando lampião, guardando a porteira. Até porque, quem ia querer morar em 4 ruas de terra com 200 hab? Todos os dias na mesma beira de rio para o pôr do sol, sem ninguém, ouvindo as madeiras dos barcos se roçando com a água, pornografia dourada. Voltar tendo que pedalar debaixo de um céu estranho, uma cor querendo aparecer mais que outra. E dormir com a barulheira de grilo, sapo, pássaro, morcego, fogos de são joão, uma rave. Não vejo sentido em atravessar um campo de futebol e um túnel de cajueiros para ir até a praia onde, de novo, você não encontra ninguém. E acho absurdo voltar catando uns frutinhos doces de mandacaru cheio de espinhos e, nesse mesmo campo, ter um cavalo jogando futebol com as crianças. A praia reflete o azul na areia e ficamos na dúvida de quem é quem, céu ou chão. Para confundir mais o sujeito, a areia tem uma constelação de pedrinhas coloridas. Você é obrigada a andar pelo céu, pisando em estrelas do mar. As conchinhas calçam as ruas. Isso porque tem muito marisco e os caldinhos que fazem, você fica lembrando. Não vale a pena. Aí você tenta navegar para o restaurante de uma aldeia Potiguara (uma das 33), passa por mangues com as raízes todas impregnadas de ostras, um mar de caranguejos. Muita lama. O barco para num banco de areia para um banho.Você vai boiando e vendo a mata, deixando a maré te levar por distração, deitada no leito do rio. Mas depois tem que andar até o barco e se fizer de novo vai ser bom igual. Muito repetitivo. Das poucas pessoas que conheci, gostei de todas. Péssimo, gera saudade. E tem um lugar onde se consertam discos voadores e desconcertam a mente com os sabores. No verão, diz que as águas são cristalinas. Bobear você leva uma narigada da Zelinha, a peixe-boi. Melhor não. by @palomices
36
a month ago
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Na faculdade, a gente não era da mesma sala. Mas toda vez que nos encontrávamos, a gente se ria. A gente se riu em todas as vezes que nos encontramos na vida.  Danilo é o cara e sempre vai ser. Uma unanimidade. O ser humano mais humano. O amigo mais amigo. A presença mais presença. O militante mais bem vestido e cheiroso de todas as causas. Uma vez saímos de barquinho popopó em Paraty e pedimos pro barqueiro nos levar pra uma ilha deserta. Sem gente, sem barulho, só três amigos, bebidas e palhaçadas. A ilha estava realmente deserta, apenas um barquinho lá longe. Danilo mergulhou e quando subiu pra superfície escutamos: DANILO! Era uma conhecida. Voltamos numa carreata de 5 barcos. Danilo era isso, um coletivo. Era um criativo brilhante. Criava pessoas. Criava o melhor das pessoas e fazia cada um acreditar nisso. Eu mesma, só sou eu porque ele me criou. Devo a ele boa parte da minha autoconfiança e agradeço por ter sido personagem do seu maravilhoso mundo. Fiz esse relicário de fotos e mensagens dele, para quando eu estiver feliz lembrar. Ele só merece alegria. A gente tinha um projeto muito antigo, que se chamava Onde Canta o Sabiá. Eram curtas de histórias que transformavam palavras brasileiras em lendas. De tempos em tempos, ele me cobrava. Bora escrever num edital? Tinha a lenda da saudade, que eram gêmeas. Eram saudades. Eu não sei o que fazer com elas. Mas vou vestir minha fantasia e imaginar que você ainda está aqui, pra gente se rir eternamente, como você prometeu. Te amo irmão ❤️ 
Repara, to sempre encostada em você, meu alicerce. by @palomices
115
3 months ago
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É pessoal e instransferível. Que pessoa maravilhosa essa cidade. Comecemos pela mesa e, com todo respeito, vou deixar o Rubacão de lado nessa análise. Quero falar sobre o Parmegiana, hit de todos os cardápios. Na padaria, no bar da praia, na madrugada. Perguntei para uma pessoense que me respondeu: é porque tem de tudo e muito. Tem crocância, tem coisa derretida, tem molho, tem carne, alimenta… A cada saída, eu encontrava esse tudo em forma de cidade. Uma praia com águas cristalinas, umas pessoas coloridas dançando na noite, uma música misturada com o tempero da rabeca. A música foi meu prato predileto da cidade.  Aprendi a decorar seus cantos, que iam dar direto no meu interior. Apresentava a cidade pros amigos visitantes como se fosse minha e me peguei tirando fotos de plaquinhas de VENDE-SE em apartamentos do Bessa, Caribessa, caso a sorte a Bessa aparecesse. Gostava de falar Moro no Bessa como se fosse um refrão. Criei rituais de cidade de interior numa capital e isso me segurou nela. O sertão na praia. A praia do interior. O grande contido no pequeno. O grande encontro de tudo que eu gosto. Me tornei íntima de João Pessoa porque de cara ela me entendeu. Falamos a mesma língua, em longos papos de pôr do sol, vendo as nuances de verde e o movimento das nuvens que dançavam com a abençoada falta de caixas de som. Nos divertimos em lugares pequenos e charmosos, com os mesmos personagens de se cumprimentar com os olhos. E nas horas de caos, ela me deu o silêncio que eu precisava. Pessoa amiga na simpatia sem excessos, no bom gosto, num sossego original. E poxa, como é difícil falar de alguém tão íntimo. Sempre faltarão adjetivos, porque o que quer que se diga, só aumenta a injustiça do sentir. 
Então volto ao Parmegiana. 
João Pessoa tá com um molho borbulhando que acabou de sair do forno, fazendo os imigrantes do país inteiro se derreterem por ela. Obrigada aos amigos íntimos que fizeram parte dessa temporada e ao seu Gilson do coco, que gostava de me ler enquanto eu lia na areia. 
Etimologia de parma: Pequeno escudo redondo <3
*não encontrei o autor da primeira foto, mas amo taken in João Pessoa - PB by @palomices
37
6 months ago
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Demorei pra decantar. Dífícil digerir ladeira. 
Primeiro, olhei pra cima e tinha uma estrela brilhante, um maracatu em Nazaré da Mata. E enquanto isso na sala da justiça, a voz de super Caetano sobrevoava o mar de fantasias coloridas. Antes do carnaval começar, pude entender as engrenagens da festa. O pulo sincronizado no refrão dos hinos, a reverência dos bonecos e estandartes em cada casa, os fogos e papel brilhante no ar. Quando um boneco se curvou pra mim pela primeira vez foi como ler um livro, cair no sono, sonhar com o enredo e ficar com a história por dentro. Olinda e seus rituais vão entrando em você. Gostava de observar as crianças com seus mini estandartes, os olhos curiosos. Outro dia, sentada na calçada, veio um menino rodando de um lado para o outro, com os braços soltos, imitando os de pano de um boneco. Ele me olhou com o corpo duro, tombou para a frente e me reverenciou. Eu olhei nos seus olhos que não se mexiam, o rosto sem expressão. Ele sabe que o olhar de um boneco de Olinda, apesar de parado, tudo sente. Eles sabem desde sempre as histórias do Homem da Meia Noite, do Cariri, do Elefante, John Travolta e grande, imenso elenco.  Esse ano deu pra ouvir os primeiros sinos tocando pelas ruas ainda vazias, miragem que nem de perto se desfaz, os caboclos de lança.  E tantos rostos escondidos, expressões de papel machê, irônicos Papangus, La Ursas, músicos, passistas, brincando a sério com o frevo, fervendo de alegria e orgulho por dentro. Montei no burrinho do Cariri, toquei na chave que desde 1921 destrava um carnaval de histórias. Cada agremiação desfila uma multidão de passado, os passos na ponta do Rainha evocam os anos. Quando tocam os primeiros clarins, um portal se abre e a gente fica sem saber em que época estamos. Me agarrei na tromba do Elefante e cantei pra ti, Olinda, essa canção. Foi lindo ver a manada de corpo único e vários corações. 
Com o Axé grudado no corpo, brinquei com velhos e novos amigos, fiquei rouca, louca e dependente de metais. Não sei se consigo ficar longe de um parapapá, da orquestra, olhar pra cima e encontrar gigantes girando e um estandarte onipresente: o da paz. 
Olinda tem toda a minha reverência. by @palomices
46
7 months ago
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Esta aí é minha energia de aniversário. Mais um ano nessa teimosia de encontros. Esticar o dinheiro e os músculos do miocárdio porque haja pra tanto Brasil. Da encantaria do Pará que ainda não sei se vivi, para os braços de Iemanjá na Bahia, que me devolveu pra Chapada Diamantina e afff, quanta construção de ideias e sentimentos. Viver naquela calmaria de cenário, me enchendo de amor e amigos que pareciam eternos, mas cachoeira não para nunca. Boné e as pernas pra cima num busão pra deixar as paisagens pra trás. Cheguei em João Pessoa devagar e com saudade, ouvi uma música local e outra e outra. Gostei da trilha, que não precisa ser a caminhante. Andar dançando vai ser o legado desse ano. Os lugares continuam sendo desculpa e pista, pra esse baile cheio de encontros. E quanta sorte tenho em cada contradança. Obrigada a todas as pessoas que fizeram parte desse ano, de perto ou de longe. 
Bora pra mais um ano pulando que nem cabra, de havaianas no pé. 
A gente se tromba, se ama, se abraça e se vévi, gostoso demais <3 by @palomices
32
10 months ago
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Quando ouvi o nome pela primeira vez, quis morar nele. Rio de Contas. Isso foi antes da vida nômade. Imaginei o literal, pedrinhas coloridas correndo embaixo de uma água transparente, formando um colar de histórias para serem contadas, de um passado que nem particípio era. Sonhado, vivido. Esse nome andou comigo pelo nordeste, pelo norte. E quando cheguei a conta já estava um pouco gasta, mas nem por isso lapidada, como merece uma diamantina. Era madrugada, começo do dia, e fui subindo a serra junto com o sol. Um véu de noiva corria pelas pedras me recebendo e sim, eu aceitava mais aquele casamento às cegas. Sem saber o que estava acontecendo, fui parar num Espaço Imaginário, de uma cidade cenográfica. Vazia, mas tão cheia de tudo. Lembrei dos animais que ocupam o espaço enquanto as pessoas não estão por perto e quando o barulho dos passos aparece, eles se escondem. A impressão que dava era quando eu andava as pessoas sumiam. Caminhei pelas pedras entre casas que eram insistentemente pintadas e mudavam de cor de um dia para o outro. Cores tiradas do céu azul, amarelo, laranja, lilás. Só por isso eu já estaria feliz, viver na beleza me seduz.  Mas teve um mundo nas entrelinhas da cidade parada, conversas em noites de lanternas acesas, ecos de sanfona e fogos que primeiro suspiravam, depois explodiam. Danças, bandeirinhas, caminhadas, mutirões. Teve barro, natureza, forró comendo solto, amigos que enfileirei como contas pra levar num colar guardado na caixa dos peitos, teve o passado pulando pedras filosofais e olhando a água correr. Rio de Contas que eu nem conheci, vai ficar mais imaginária ainda. Foi morar num mistério, um nada completamente intenso, sem uma localização certa no tempo e muita conta, muito conto no mesmo fio condutor. As montanhas ao redor são um abraço tão forte que quase não te deixam sair. E no vale, um ninho com ruas de pedras e ovos coloridos que escondem as gemas, as pessoas, se é que elas existem mesmo. Um lugar que mistura a literatura com a realidade, Guimarães Rosa com Jorge Amado, pequi com manga e café, Bahia com Minas. Isso faz a gente gostar demais da conta, feito um gambá. E saber que é na calma que tudo acontece rápido demais. by @palomices
75
a year ago
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é muito amor mesmo by @palomices
4
a year ago
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“O Bembé do Mercado transforma o espaço mais cotidiano da cidade, o mercado público, em terreno sagrado. Ali onde as mercadorias se misturam à memória e à história local, os Orixás chegam e ressignificam a arquitetura do cotidiano fazendo do gesto comum, prática extraordinária e do solo diário, um altar a céu aberto…Uma afirmação de que o sagrado afro-brasileiro não ficará mais confinado aos bastidores. Viver “em meio à tempestade” convocando os mortos, os ancestrais e os vivos à resistirem juntos, em território partilhado…Saudando Exu, o senhor das encruzilhadas, o mensageiro entre os mundos, nos recusamos à obediência colonial.” 
Trechos do texto da Dra. Jamile Borges da Silva 

É um mercado. Um lugar ordinário que cheira a peixe e passa batido, correndo, gritado e suado no dia a dia. Mas aí vem o Bembé e transforma tudo isso em museu, coloca uma lente de aumento em cada atitude pra trazer um passado e um porquê. Merece filmes, livros, apresentações, palestras, conversas. Oxalá o mercado ressurja em outros, de outras ruas, bairros, cidades, país. Esse evento continua batendo forte por aqui. by @palomices
0
a year ago
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Recôncavo, Cachoeira, Iemanjá, Ilê Axé Icimimó Aganjú Didê…São palavras que vão escrevendo um texto poético sozinhas, é só jogá-las aleatoriamente no papel. Ainda não entendo como o mundo foi parar viciado em cidades grandes. Iemanjá sereia, eu vou pra pedra da baleia. Eu continuo na fila indiana, no caso, na fila baiana, para entrar em cada beleza particular desse Brasil. Para desglobalizar, para ritualizar e vestir branco na sexta. E nessa mesma sexta olhar para o lado e encontrar umas pessoas nos canteiros beira-rio, como eu, assistindo ao por do sol no silêncio raro do hoje, sem um celular na mão. Quero continuar vagando na incerteza de uma rua de pedra e tomar cachaça local com a famosa local, que o mundo não conhece. Iemanjá sereia, quero que a pedra da baleia continue bem guardada entre os que honram e cantam a sua tradição. Quando me lembro da passagem relâmpago, ela vem com os tambores dos terreiros mais antigos da Bahia. Quero que Cachoeira continue preservada na minha memória como a canção do Ronnie Von .
Obrigada @ileaxeicimimo 💙 por tanta beleza by @palomices
27
2 years ago
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Volto pro Marajó porque a memória se adianta e sempre passa por lá, numa saudade que não tem nome de gente.  Até porque pessoa, bicho, paisagem, tambores, são uma coisa só, Marajoara, um conceito que vem antes do Paraense. Se o que encanta é o mistério, prometo não desvendá-lo. Um lugar onde fazer planos não funciona e, à deriva, tudo acaba acontecendo da maneira que se imagina. Encantaria, palavra mais cantada nas rodas. E mesmo a palavra é concreta demais, óbvia demais, para descrever Marajó. Pega a cor do guará, aquela que você enxerga e não acredita que está vendo e segue esse fio. É deitar num rio com a água cobrindo as orelhas e ir boiando, seguindo a correnteza pela manhã, tarde, chuva, noite e carimbó. E num rodar de saia, todo o cenário pode mudar. Já ouviu a engrenagem de um rio? Desce para escutar o povo do fundo, os Caruanas, aqueles que regem a cidade. Não conheço os segredos do Paracauari, por isso piso nesse chão devagarinho, descalça num brega de aparelhagem. Aparelhagem é quando o povo de cima, faz mais barulho que o do fundo e quer refletir as cores e os brilhos exuberantes da mata. Entre um desmaiar de sol e outro, ainda tem os búfalos que respeitam as faixas de trânsito, enquanto a bicicleta vai até a praia do Céu. Voltar viajando por outras galáxias, árvores douradas, marte não é tão vermelha e não tem chão que reluz. Se eu fechar os olhos, Soure é alaranjada, tem olhos de búfalo, bico de guará e raízes de mangue no lugar dos pés. Soure é antropomórfica. E ainda tem o Boto, Curupira, Matinta Pereira, Vaqueiro Boaventura, Mulher Cheirosa…com essa galera, não se anda só. Uma vez, bem afastada da cidade, um moço parou a carroça e veio correndo me entregar uma caneta com o meu nome talhado. Outra vez, estava fazendo massagem e a moça começou a entoar cantos de Iemanjá, o gato que acompanhava a sessão miava nas partes do corpo que doíam mais. O cotidiano marajoara. Em dezembro a saia roda mais uma vez e chegam as chuvas. (Continua nos comentários) by @palomices
27
2 years ago
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Carapanãs, tucupi, tacacá, pavulagem, égua, pirarucu. Oi? Cheguei de um luto pernambucano e ele sabiam. A gente é que nunca sabe o que está nas entrelinhas de um paraense. Tive que passar pelo banzeiro, me apequenar, caber em outro plano. Tinha um caminho pra isso, uma rua. Esse rio é minha rua, minha e sua. E em Belém comida está longe de ser apenas um substantivo feminino; alimento; refeição. Comida é uma entidade, uma identidade. Quando eu cheguei, quem me chamou pra gostar da cidade foi a comida. Peguei a rua do rio e naveguei em cada sabor.  Existe um contrassenso em tudo que é exagerado por lá: as cores, as roupas, o volume da música, os temperos, o copão. Tudo isso não escancara o que é o Pará. São filtros gigantes para quem é de fora se confundir. Porque o Pará não se explica. O Círio, como diria Fafá, não se explica. É preciso passar o calor, a sede, o medo. Pular as regras de tudo o que se vive fora de lá. Vestir um chapéu cheio de fitas coloridas, pura Pavulagem. As fitas penduradas aproximam as pessoas dos seres encantados. Eu, de fora, vivo confundindo uns com outros. Uns encantados com outros humanos. É preciso se assombrar com tanta gentileza e simpatia, com convites verdadeiros, trocas sinceras. Respeitar o que não se enxerga, encontrar verdade em cada lenda, estudar uma gramática que não existe no papel, falar a língua das ervas. Um caos planejado, uma caixa em cima da outra, uma história em cima da outra, uma cidade de um lado, uma Amazônia do outro. A proximidade com a floresta faz a vista da cidade ser quase uma distopia. Duas construções humanas totalmente opostas: a floresta e a cidade. Das estampas de oncinha usadas com propriedade às histórias que as tatuagens contam, tudo é ancestral e futurista, indígena, raiz de mangue. Talvez os urubus, drones símbolo da cidade, um dia me contem os segredos de tanta coisa que enche os olhos. Aliás, ver-o-peso, ver-o-rio, ver-o-açaí, ver, ver, ver…é mais um truque. Te convidam pra ver, mas você só vai entender se sentir. by @palomices
28
2 years ago
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