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Memória e estética do Pampa
Mate, arte e violão pampeano
📖 Filosofia Pampera: contos e adaptações inspirados em clássicos da filosofia.
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O Último Amigo (Adaptação dos livros VIII e IX da Ética a Nicômaco, de Aristóteles) @pamperodutra 

Ele levou 30 anos para descobrir que alguns dos seus amigos nunca estiveram ali por causa dele.

Durante muitos anos, seu Amadeu foi dono de um pequeno bolicho numa vila da Serra Gaúcha.

Todo sábado, depois de baixar o movimento, quatro ou cinco conhecidos se acomodavam ao redor de uma mesa.

Conversavam, jogavam cartas, davam risada.

E sempre havia alguém precisando de alguma coisa.

Um favor.

Uma ferramenta emprestada.

Uma compra anotada para depois.

Amadeu gostava daquela mesa cheia.

Depois de tantos anos, já nem chamava aqueles homens de fregueses.

Chamava de amigos.

Até que a idade pesou.

Os filhos seguiram outros caminhos e, depois de trinta anos atrás daquele balcão, Amadeu decidiu fechar o bolicho.

No último sábado, todos apareceram.

Na despedida, prometeram:

— Agora não tem mais bolicho, mas a amizade continua.

Amadeu acreditou.

No primeiro sábado, dois foram visitá-lo.

No seguinte, apenas um.

Depois, ninguém.

Amadeu pensou que todos andavam ocupados.

Até começar a encontrá-los pela vila.

Um na venda.

Outro jogando cartas em outro bolicho.

Foi então que percebeu:

eles não haviam deixado de sair.

Haviam deixado de procurá-lo.

Mas um daqueles homens continuava aparecendo.

Todo sábado.

Sentava na varanda, Amadeu cevava um mate e os dois ficavam conversando.

Certo dia, o neto perguntou:

— Vô… por que os outros teus amigos nunca mais vêm?

Amadeu olhou para o companheiro sentado ao lado.

— Talvez alguns fossem amigos do bolicho. Outros, da mesa.

Fez uma pausa.

— Esse aí parece que era meu mesmo.

Algumas amizades existem pelo que oferecemos.

Outras, pelos bons momentos que dividimos.

Mas há aquelas que permanecem quando só resta a nossa companhia.

E tu?

Se tudo aquilo que tens desaparecesse amanhã, quem ainda sentaria ao teu lado?

Se existe alguém assim na tua vida, marca essa pessoa nos comentários.

Talvez seja uma boa maneira de homenagear quem ficaria quando todo o resto fosse embora.

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera #amigosdeverdade taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
373
2 months ago
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O homem que deixou a vida para depois (Inspirado em Sobre a brevidade da vida, de Sêneca) @pamperodutra 

Seu Amaro passou a vida esperando sobrar tempo. Quando sobrou, já era tarde.

Quando era moço, queria voltar a pescar no arroio onde pescava com o pai.

Mas primeiro precisava terminar de pagar a terra.

— Depois eu vou.

Pagou a terra.

Então decidiu levantar uma casa melhor.

— Quando terminar a casa, vou ter mais tempo.

Terminou a casa.

Mas os filhos estavam crescendo, e era preciso garantir o futuro deles.

Trabalhou mais alguns anos.

Depois resolveu aumentar o galpão.

Depois vieram as cercas.

Depois algumas cabeças de gado.

E sempre que pensava em descansar, surgia alguma coisa que parecia mais urgente.

Os anos passaram.

Numa tarde de verão, já velho, Amaro estava sentado na varanda tomando mate quando o neto perguntou:

— Vô, quando tu parar de trabalhar, o que tu vai fazer?

Amaro sorriu.

— Ah, muita coisa.

Disse que queria voltar ao arroio onde pescava com o pai.

Queria visitar um velho amigo que não via fazia anos.

Queria pegar a estrada sem pressa.

Talvez passar uma tarde inteira sentado debaixo das árvores sem pensar no que precisava fazer no dia seguinte.

O menino ficou olhando para ele.

— E por que tu não faz isso agora?

Amaro abriu a boca para responder.

Mas ficou quieto.

O pai já havia morrido fazia muitos anos.

O velho amigo também.

E fazia tempo que suas pernas já não permitiam andar até aquele arroio.

Naquela tarde, pela primeira vez, Amaro percebeu uma coisa que nunca havia colocado nas contas.

Passara a vida inteira juntando dinheiro, terra e tempo.

Dinheiro ele tinha.

Terra também.

Tempo era justamente o que já não podia guardar.

Reflexão

E tu?

O que estás deixando para viver quando finalmente tiveres tempo? taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
130
a month ago
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O Homem Mais Feliz de Pelotas (Inspirado no encontro entre Sólon e Creso, narrado por Heródoto) @pamperodutra 
Um dos homens mais ricos de Pelotas fez uma pergunta simples:

— Quem poderia ser mais feliz do que eu?

No século XIX, quando o charque enriquecia Pelotas, Antônio era dono de uma próspera charqueada nos arredores da cidade.

Tinha terras.

Gado.

Empregados.

Uma grande casa.

E negócios que cresciam ano após ano.

Certo dia, recebeu a visita de um velho professor que não via desde a juventude.

O homem havia passado muitos anos viajando e conhecera gente de toda espécie.

Antônio fez questão de mostrar o que havia conquistado.

Caminharam pela propriedade.

Mostrou os galpões, os animais e falou dos negócios.

Contou também dos filhos, já crescidos e encaminhados.

Ao final da tarde, enquanto tomavam mate, Antônio perguntou:

— O senhor conheceu muita gente nessa vida. Diga-me uma coisa: já conheceu homem mais feliz do que eu?

O professor pensou por alguns instantes.

— Conheci.

Antônio ficou surpreso.

— Quem?

— Matias, o carpinteiro.

Antônio quase riu.

Conhecia Matias.

Trabalhara a vida inteira numa pequena oficina e morrera sem deixar grande patrimônio.

— Matias? Mas aquele homem passou a vida trabalhando e morreu sem deixar quase nada.

O professor respondeu:

— Não foi isso que eu vi.

Matias trabalhara até envelhecer.

Criara os filhos e tivera tempo de vê-los construir suas próprias famílias.

Era homem de poucas posses, mas de muitos conhecidos.

Quando alguém precisava de suas mãos, dificilmente negava ajuda.

E quando morreu, quase nada deixou para ser dividido.

Mas muita gente apareceu para se despedir.

Antônio ouviu tudo em silêncio.

Depois olhou novamente para sua propriedade.

— E mesmo assim o senhor diz que Matias foi mais feliz do que eu?

O professor balançou a cabeça.

— Eu não disse isso.

Antônio franziu a testa.

Então o velho explicou:

— De Matias eu conheço a vida inteira.

Fez uma pequena pausa.

— Da tua, conheço apenas até hoje.

Antônio não respondeu.

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
246
a month ago
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Inspirado no paradoxo do mentiroso, tradicionalmente atribuído a Eubúlides de Mileto. taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
6
7 days ago
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O Enigma do Presente (Inspirado nas reflexões sobre o tempo do Livro XI das Confissões, de Santo Agostinho). @pamperodutra 

Pampero: — Onde está o passado?

Gilberto: — No que já aconteceu.

Pampero: — Então ele ainda existe?

Gilberto: — Não. Já passou.

Pampero: — E o futuro?

Gilberto: — Ainda não aconteceu.

Pampero: — Então também não existe ainda?

Gilberto: — Não.

Pampero: — Se o passado já não existe e o futuro ainda não existe, o que nos resta?

Gilberto: — O presente.

Pampero: — E quanto tempo dura o presente?

Gilberto: — Como assim?

Pampero: — Um minuto é presente?

Gilberto: — Sim.

Pampero: — Mas o começo desse minuto já passou. E o final ainda não chegou.

Gilberto: — Então… um segundo.

Pampero: — Aquele segundo que tu acabou de falar ainda existe?

Gilberto: — Não. Já passou.

Pampero: — Então me diz: onde está o presente?

Gilberto: — No agora.

Pampero: — E quanto dura o agora?

Gilberto: — …

Pampero: — Percebe?

Gilberto: — O quê?

Pampero: — O passado já foi. O futuro ainda não veio. E toda vez que tentamos segurar o presente…

Gilberto: — Ele já passou.
#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
77
9 days ago
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O Homem que Queria Ser Amigo de Todos (Inspirado na Ética a Nicômaco, de Aristóteles). @pamperodutra 

Norberto tinha muitos amigos.

O problema era descobrir de quantos deles ele era amigo também.

Há muitos anos, em Cachoeira do Sul, havia um comerciante chamado Norberto.

Era conhecido por quase todo mundo.

Cumprimentava quem passava.

Nunca recusava um convite.

Gostava de conversar.

E tinha um orgulho especial:

— Por aqui, todo mundo gosta de mim.

Mas bastava alguém não cumprimentá-lo na rua para Norberto passar o resto do dia pensando naquilo.

Se soubesse que alguém havia falado mal dele, pior ainda.

Queria saber o motivo.

O que havia feito.

Como poderia consertar.

Certa tarde, um velho amigo percebeu sua inquietação.

— O que houve?

— Parece que o Arlindo anda desgostoso comigo.

O amigo perguntou:

— E tu gosta do Arlindo?

— Claro.

— Quando foi a última vez que conversou com ele?

Norberto tentou lembrar.

Não conseguiu.

— E o velho Honório? Soube que está doente?

Norberto sabia.

Mas ainda não tinha ido visitá-lo.

— E o Pedro, que perdeu a mulher no inverno passado?

Norberto baixou os olhos.

Também não o procurara.

Então o amigo perguntou:

— Posso te fazer uma pergunta?

— Pode.

— Tu passa a vida querendo saber se as pessoas gostam de ti.

Norberto esperou.

— Mas alguma vez tu parou para pensar se tu realmente gosta delas?

Norberto não respondeu.

O amigo tomou mais um gole de café e perguntou:

— Tu quer ser amigo dessa gente…

Fez uma pausa.

— ou quer que essa gente seja tua amiga?

Naquela noite, Norberto tentou lembrar quantas pessoas gostavam dele.

Eram muitas.

Depois tentou lembrar de quantas delas ele verdadeiramente cuidava.

Dessa vez, a conta ficou bem mais difícil.

Às vezes, desejamos tanto ser queridos que esquecemos de perguntar se também sabemos querer bem.

Talvez amizade não seja contar quantas pessoas gostam de nós.

Mas perceber quantas delas nós verdadeiramente aprendemos a amar.

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
31
10 days ago
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O Homem que Temia a Outra Margem (Inspirado em uma reflexão de Sócrates na Apologia, de Platão) @pamperodutra 

Ele tinha certeza de que alguma coisa ruim o esperava do outro lado.

Só não sabia o quê.

Há muitos anos, em São José do Norte, vivia um pescador chamado Aníbal.

Desde guri conhecia aquelas águas.

Sabia reconhecer mudança de vento.

Sabia quando uma tormenta se aproximava.

E sabia a hora de não enfrentar a lagoa.

Certa vez, Aníbal recebeu uma proposta para trabalhar em Rio Grande.

O pagamento era melhor.

O serviço era certo.

Mas significava deixar São José do Norte e atravessar para uma cidade onde nunca havia vivido.

Aníbal recusou.

Um pescador mais velho, que o conhecia havia muitos anos, estranhou:

— E por que tu não vai?

— Porque não sei o que me espera lá.

— E o que tu acha que vai encontrar?

Aníbal pensou um pouco.

— Posso não me acostumar.

— Pode.

— Posso não gostar do trabalho.

— Pode.

— Posso me arrepender de ter ido.

O velho concordou novamente.

Aníbal continuou:

— Pode dar tudo errado.

Então o velho perguntou:

— E pode dar certo?

Aníbal ficou quieto.

— Pode.

O velho olhou para a outra margem.

Depois perguntou:

— Então me explica uma coisa.

— O quê?

— Tu diz que não sabe o que te espera do outro lado.

— Não sei.

— Mas toda vez que fala do que não sabe… parece que só sabe coisa ruim.

Aníbal não respondeu.

Ficou algum tempo olhando para aquelas águas que conhecia tão bem.

Talvez tivesse percebido que não era a outra margem que lhe dizia para ter medo.

Era ele quem estava colocando seus medos nela.

O desconhecido não promete que alguma coisa dará certo.

Mas também não nos disse que dará errado.

Então, se não sabemos o que existe do outro lado…

por que tantas vezes temos certeza de que devemos temê-lo?

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
16
12 days ago
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O Filho que Não Voltou (Inspirado no Encheirídion, de Epicteto) @pamperodutra 

Naquela noite, aquele homem sofreu por dez tragédias.

Há muitos anos, no interior de Pinheiro Machado, um pequeno criador mandou o filho tratar da venda de alguns animais numa propriedade distante.

O rapaz saiu cedo e prometeu:

— Antes de escurecer estou de volta.

Mas a tarde passou.

O céu fechou.

Começou a chover.

E o filho não voltou.

O pai foi até a porteira.

Olhou a estrada.

Nada.

Pensou que talvez o cavalo tivesse se machucado.

Depois lembrou do arroio que o rapaz precisaria atravessar.

Com aquela chuva, certamente estaria cheio.

Voltou para dentro.

Tentou jantar.

Não conseguiu.

Quanto mais o tempo passava, mais coisas aconteciam dentro de sua cabeça.

Uma queda.

Um cavalo ferido.

Um arroio transbordando.

Uma estrada escura.

A esposa dizia:

— Espera amanhecer.

Mas naquela noite o homem quase não dormiu.

Antes mesmo que soubesse o que havia acontecido, já tinha sofrido por tudo aquilo que poderia ter acontecido.

Quando o dia clareou, escutaram cascos na estrada.

Era o filho.

Molhado.

Cansado.

Mas bem.

A chuva fizera o arroio subir e, em vez de arriscar a travessia, o rapaz havia passado a noite na propriedade de um conhecido.

O pai abraçou o filho e disse:

— Graças a Deus. Passei a noite inteira pensando no que podia ter te acontecido.

A esposa, que estava ao lado, respondeu:

— Com ele não aconteceu nada.

Fez uma pequena pausa.

— Mas contigo aconteceu de tudo.

Às vezes, basta um fato que desconhecemos para a nossa cabeça inventar dez certezas.

E quantas vezes sofremos por coisas que só chegaram a acontecer dentro de nós?

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
78
19 days ago
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— Quem é o senhor? @pamperodutra 

— Meu nome é Aparício.

— Perguntei quem o senhor é. Não como lhe chamam.

— Quem é o senhor?

— Sou ferreiro.

— Isso é o que o senhor faz.

— Quem é o senhor?

— Sou pai de três filhos.

— Isso é o que o senhor é para eles.

— Quem é o senhor?

— Sou dono desta oficina.

— Isso é o que o senhor possui.

— Quem é o senhor?

— Seu Aparício… se tirassem tudo o que o senhor tem, tudo o que o senhor faz e tudo aquilo pelo que os outros o conhecem…

quem é o senhor?

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
546
25 days ago
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O homem que queria mais campo (Inspirado em Quanta terra precisa um homem?, de Liev Tolstói). @pamperodutra 

Antero poderia ficar com toda a extensão de campo que conseguisse demarcar em um único dia. Mas havia uma condição: precisava retornar ao ponto de partida antes do pôr do sol.

Nos campos de Alegrete, Antero havia passado boa parte da vida criando animais em terra arrendada.

Seu desejo era simples:

Ter um pedaço de campo que pudesse chamar de seu.

Certo dia, recebeu uma proposta.

Partiria ao nascer do sol.

Toda a extensão que conseguisse contornar seria sua.

Havia apenas uma condição:

Precisava retornar ao ponto de partida antes que o sol desaparecesse.

Antero saiu cedo.

No começo, não pretendia ir muito longe.

Depois de algumas horas, olhou para trás e pensou:

— Isso já me basta.

Foi quando avistou mais adiante um campo bonito.

— Só até lá.

Chegando lá, viu uma boa aguada.

Seria desperdício deixá-la de fora.

Seguiu mais um pouco.

Depois encontrou outro trecho de campo que parecia ainda melhor.

E avançou novamente.

Quando finalmente decidiu retornar, olhou para o céu.

O sol já começava a baixar.

Antero apressou o passo.

Depois começou a correr.

O campo que pela manhã parecia pequeno agora parecia não terminar nunca.

Largou o casaco.

Abandonou a água.

E correu.

Quando o sol encostava no horizonte, Antero finalmente avistou o ponto de onde havia partido.

Já respirava com dificuldade.

As pernas mal respondiam.

Mesmo assim, reuniu as últimas forças.

Correu mais alguns metros.

E atravessou o marco antes do último raio desaparecer.

A terra era dele.

Toda ela.

Antero ainda tentou sorrir.

Mas o corpo, levado além do limite para chegar a tempo, já não resistiu.

Caiu no chão.

Os homens correram para ajudá-lo.

Mas já era tarde.

No dia seguinte, abriram uma pequena cova naquele mesmo campo.

Depois de passar a vida querendo possuir um pedaço de terra, Antero terminara o último dia tentando descobrir quanto mais ainda poderia ter.

Talvez Antero tenha feito a pergunta errada.

E tu?

Quanto seria suficiente?

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
137
a month ago
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“Vou levar esse bichinho” @pamperodutra - Inspirado na canção História dos passarinhos- Gildo de Freitas @gildodefreitasoficial 

….”Então eu fui perguntando
Quanto quer pelo bichinho
Respondeu ele eu não vendo
Eu cacei pra o meu filhinho
Porém saiu uma voz
Da boca do gurizinho
E a gaiola custou dez
Quem me der vinte milreis
Pode levar o passarinho”…

#riograndedosuloficial #gaucho #gildodefreitas by @pamperodutra
6
a month ago
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O homem que fugia da própria sombra (Inspirado em Zhuangzi (Chuang-Tsé)) @pamperodutra 

Toda vez que a vida dava errado, Vicente ia embora. E toda vez ela dava errado de novo.

No começo do século passado, Vicente ganhava a vida como mascate pelos arredores de Soledade.

Carregava suas mercadorias de povoado em povoado e nunca permanecia muito tempo no mesmo lugar.

Quando um negócio dava errado, Vicente dizia:

— O problema é esta terra.

E seguia viagem.

Quando brigava com alguém:

— O problema é esta gente.

E ia embora novamente.

Mudava de povoado.

Mudava de pouso.

Mudava de trabalho.

Mudava as pessoas ao redor.

E por algum tempo tudo parecia melhorar.

Até que os mesmos incômodos começavam outra vez.

Certa tarde, muitos anos depois, Vicente encontrou na estrada um velho conhecido que não via desde a juventude.

Sentaram-se à sombra de uma árvore para conversar.

Vicente contou por onde havia passado.

Reclamou dos negócios.

Dos antigos companheiros.

Das pessoas que conhecera.

E terminou dizendo:

— Não adianta. Parece que os mesmos problemas me seguem por toda parte.

O velho ficou algum tempo em silêncio.

Depois perguntou:

— Quantos lugares tu já deixou para trás?

Vicente tentou contar.

Não conseguiu.

— E quantas vezes tu começou tudo de novo?

— Muitas.

O velho olhou para ele.

— Então tem uma coisa que tu nunca mudou.

Vicente franziu a testa.

— O quê?

O velho apontou para a estrada.

O sol já estava baixo, e uma longa sombra se estendia atrás dos pés de Vicente.

— Tu.

Vicente olhou para o chão.

Durante tantos anos acreditara que precisava encontrar um lugar onde seus problemas não pudessem alcançá-lo.

Nunca havia pensado que alguns deles talvez estivessem partindo junto com ele.

E tu?

Há quanto tempo estás tentando deixar para trás alguma coisa que continua viajando contigo?

#riograndedosuloficial #gaucho #filosofiapampera taken in Pelotas, RS by @pamperodutra
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