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sem dúvida, roberto piva é um dos poetas que mais li e reli nos últimos anos (6, 7? - por aí). meus amigos já estão cansados de me ouvirem falar sobre, sóbrio ou bêbado, só preciso de um gancho e tô lembrando tal fala barra verso barra indicação barra entrevista barra manifesto de Piva. isso quando não leio em voz alta - como a vez em que eu e meu mano @peste21_  recitamos a Ode a Fernando Pessoa numa mesa de bar no horto municipal, dentre outros rolês. acontece que que nunca paro de me surpreender com sua obra, seja revisitando, lendo um inédito etc. logo de primeira eu fiquei fascinado pelo Paranoia, quem não? foi um acontecimento. aquelas imagens saltando vida a fora, nada de policiamentos linguísticos/interiores/exteriores, beleza convulsiva. note-se que falamos de um poeta que escreveu aquele livro na são paulo do início dos anos 60 (convento do Brasil - conforme expressão do próprio). e de como aquilo vivo, aqueles diálogos também formaram meu mundo de leituras depois: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes. eu só fui ler os modernistas com vontade verdade e atenção depois de conhecer a poesia do Piva, e não só isso a lista é longa, vai dos surrealistas a Pasolini, os expressionista alemães (benn, trakl!), holderlin!, dante, uma nova visão do Uivo e dos beats, Rimbaud e por aí vai. isso pra começar. me empolgo fácil. eu queria falar mesmo é do Ciclones, o último livro de poemas que roberto piva publicou em vida, e de como é um dos livros que mais me põe espantado e extático quando se trata de poesia (quer dizer, da poesia dele, em específico), do salto de estilo linguagem vida tudo toda a dissolução a que sua palavra chegou, desde o paranoia lá atrás em 63 - Ciclones foi publicado já nos anos 90. e de que mesmo a mudança (do eu em conflito constante com a metrópole y suas querelas urbanas para uma reconciliação iniciática com o mundo lá fora, o mundo fora do cinza dos subúrbios, com a natureza/ campos/praias, através do xamanismo, não é ruptura mas continuidade. "eu não sou um poeta DA cidade, eu sou um poeta NA cidade" - depois que lemos Ciclones fica fácil entender essa declaração. (continua nos comentários). by @rogeweslen
10
3 years ago
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o camarada Rodrigo Lobo Damasceno escreveu esses dias: "o negócio do poeta é trabalhar de graça". na "fábrica do mundo"? me pergunto. quando Casa do Norte chegou aqui no setor, na Terra Firme (periferia de Belém), logo li a primeira sessão: Original Campo Limpo. Campo Limpo é um dos maiores bairros periféricos de Feira de Santana, e de onde Lobo partiu para SP - soube depois. Uma das epígrafes, de Sabotage, li com a voz do rapper: Casa do Norte, o papo é sério. E fui sentindo - entendendo - porque "a revolução/ se chama nordeste/ e é feroz/ e infinita" (intuição que carregava aqui há bastante tempo, neste Norte profundo). Curioso falar isso só agora: a verdade é que li e reli Casa do Norte duas ou três vezes, antes de ir emprestando para amigos, e nunca consegui dizer nada sobre. Ler, em silêncio ou em voz alta, ir compartilhando os poemas com pessoas, bastava. Até agora, pelo menos. LIMALHA chegou e só fico pensando em poesia tardes e noites, de intervalo no trampo, nas folgas vazias, noites de álcool. Do "realismo capitalista" ao "surrealismo proletário", dos intertextos (alguns tensos, outros, amistosos) com os mais variados artistas (mortos e vivos), eu sabia já que estava diante de um começo de caminho para o que quer ser (o que devemos criar) em termos de poesia ~~comunitária, "comum monumento" (expressão do poeta), "a poesia feita por todos, não por um" (Lautreamont). Fala-se muito em romance proletário, nunca em poesia proletária - eis aqui um exemplo. Quem tem medo de ser acusado de panfletário? Bom mesmo é saber que já não nos limitamos às discussões estropiadas sobre "arte pela arte", "arte política", "arte engajada", esses termos-múmias dissecados ao cúmulo. Discutir é importante, claro. Porém, mais importante é nos colocarmos na linha de frente, nas trincheiras mesmo do problema, conscientes de nossa classe, de nosso povo, de nosso lugar; sabendo como Gramsci que "indiferença é abulia" e que "temos de ser extremamente políticos, sem receios". Neste ponto, Limalha é um livro de poesia "sem reservas covardes" - me vem Mariátegui - ao que se propõe. Poemas da vida impura no capitalismo tardio (aqui o niilismo não cabe mais). (continua nos comentários) by @rogeweslen
5
3 years ago
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EXÍLIO 
(Alejandra Pizarnik, Argentina, 1936 - 29/09/1972)

Esta mania de saber-me anjo,
sem idade,
sem morte em que viver, 
sem piedade por meu nome
nem pelos meus ossos que vagam chorando

E quem não tem um amor?
E quem não goza entre papoulas?
E quem não possui um fogo, uma morte
um medo, algo horrível
ainda que fosse com penas,
ainda que fosse com sorrisos.

Sinistro delírio amar uma sombra.
A sombra não morre.
E meu amor
só abraça o que flui
como lava do inferno:
uma loja quieta,
fantasmas em doce ereção,
sacerdotes de espuma,
e sobretudo anjos,
anjos belos como cutelos
que se elevam na noite
e devastam a esperança.

(recolhido d' As aventuras perdidas (1956), terceiro livro de Alejandra, nas Obras Completas) by @rogeweslen
1
a month ago
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uma conversa com Mateus Saraiva (@sla_mateuz) - escrito em 29/08 - a fala entre parêntesis (??) by @rogeweslen
4
a month ago
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VICENTE FRANZ CECIM

O professor @trindaderochafernando me falou, ainda no ensino médio, sobre os curta-metragens de Cecim filmados em super 8 nos anos 70: KinemAndara. Até hoje trago esses filmes na memória: era o início da minha aventura junto ao cinema, em geral. Só muito depois eu puder ler os capítulos do Livro Invisível, Cecim recriou um mundo chamado Andara: esta Amazônia que nos coube. Amplamente ignorado, segue um puta gênio, um sujeito dos mais generosos que conheci - mesmo que tenha conversado com ele apenas uma vez. O Cine Líbero exibiu um obscuro e brilhante filme de Godard chamado "grandeza e decadência de um pequeno negócio de cinema" (1986), um filme mais tardio que trazia um Jean Pierre Leaud bem diferente de seus primeiros filmes - se bem que, na época, entendi nadica de nada. Não fosse Cecim. Ele era uma, entres as 10 ou 15 pessoas que assistiram a sessão. Na saída, uma roda de conversa sobre o filme se criou em torno dele, 4 ou 5 jovens enchiam ele de perguntas, que ele elucidava da melhor maneira possível. Para mim, que apenas observei, foi uma grande aula de cinefilia de um dos maiores escritores que já surgiram na terrinha. Amor ao cinema. Ele falava assim. Ele escreveu assim. Para nós que ficamos, resta tensionar ainda mais os caminhos que Cecim indicou... Andara segue um destino... by @rogeweslen
2
a month ago
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um poema dedicado, com o pensamento em mircea eliade, no passado, no futuro. (12/08) by @rogeweslen
3
a month ago
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"esos escritores que saben, pues lo vivieron de niños en sus casa, lo duro que es trabajar ocho horas diarias, o nueve o diez, que fueron las horas laborables de sus padres, cuando había trabajo, además, pues peor que trabajar diez horas diarias es no poder trabajar ninguna y arrastrarse buscando una ocupación (pagada, se entiende) en el laberinto, o, más que laberinto, en el atroz crucigrama latinoamericano" by @rogeweslen
3
2 months ago
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“calma, calma também tudo não é assim escuridão e morte” é a frase guardada num dos bolsos da mente quando estanco a mise-en-place e saio para a janta e o fumo e o café dos trinta minutos que tenho de intervalo, antes que o serviço comece e as comandas entrem em marcha. quando fumo e lembro: maldito, não cego. quando fumo e lembro de um camarada com quem bebi, cozinhei e convivi por um certo período. ele que ilustrou bastante bem nossa sina em um de seus cadernos: dois pássaros em fios de eletricidade observam dois cozinheiros que todo dia, àquele mesmo horário, saem de intervalo para fumar e logo após voltam para a cozinha. os passáros imaginam aqueles dois cozinheiros como seus iguais, porém sem asas… então é a hora do serviço. é a hora da brigada e do sim, chef. aquela ilustração naquele caderno bem que deixou um grande talho na minha imaginação. agradeço por isso. se bem que vou me mantendo é mais por esses talhos, pela alegria guerreira e pela força da bondade que (ainda!) encontro no esforço da vida compartilhada & caminhos que se abrem. porque alguém puxou um samba de Jovelina Pérola Negra na roda da Feira do Açaí e uma voz de mulher exauriu meu cansaço, uma maraca me impôs vida. qualquer resquício de morte foi deixado num couro de tambor. porque Gustavo Galo me disse estar cantando Torquato num Teatro que se chama Centro da Terra. & Adrian que me manda mensagens do Sul com novas rimas, métricas & beats e preocupação, ele diz “sinto sua energia oscilar”. pois Pelé lançou um novo livro de poemas e me diz que no filme sobre Chopin tem uma cena em que ele vomita sangue durante uma grande apresentação (ele tinha tuberculose, nós falávamos de um poema de Bukowski). porque Mateus escreveu “qualquer dos brutos” e eu pude ler. porque meu filho, dentre os tantos livros dessa biblioteca, tirou de uma prateleira “os miseráveis” de Victor Hugo na mesma edição em que li, aos 13 anos. porque a professora Vera me deu esse livro e eu pude ler e o Marcos Samuel (que é da terra de Dalcídio) me deu livros e num deles pude rir de João Ubaldo Ribeiro e me enfezar com a Diana Caçadora, de Marcia Denser. pois eu ainda preciso rever Sansho Dayou. (continua) by @rogeweslen
8
2 months ago
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"há momentos para escrever poesia e há momentos para boxear" 

roberto bolano, na primeira parte d' os detetives selvagens. 2016. bem antes.

ou "a poesia é um princípio muscular" (michael mcclure) by @rogeweslen
7
4 months ago
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já que o tempo fez-te a graça de visitares o norte, leva notícias de mim ou torquato (mande dizer aos amigos): esse menino crescido / que tem o peito ferido, anda vivo / não morreu

(retrato de 2025) by @rogeweslen
4
4 months ago
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Roge Weslen (Belém, 2001). by @rogeweslen
12
5 months ago
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GEORG TRAKL

só poderia ser sua essa voz que vem dos pântanos
enquanto meus amigos querem encontrar a morte
nos bosques afundados
de tua voz metálica
aquela voz da galícia e os
enforcados da guerra
o azul fosco dessa dor imensa
grodek nos teus olhos de 1914
enquanto o vício se torna a única
expressão do real
a única coisa que pulsa
em nós é o cárcere das raízes mortas
a alma é a armadilha em que caímos
passeando nos arrabaldes 
procurando a flor dos sentidos
sendo ainda uns estranhos sobre
a terra
teu olhos são a música mais terrível
que já ouvi
e não te entenderemos nem
mesmo antes de teus versos
serem queimados
pois toda tua dor ainda é real
em meu íntimo 
e este poema antes de ter sido
escrito e levar teu nome 
não era nada senão 
um pesadelo by @rogeweslen
0
2 years ago
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