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Psicólogo, psicanalista & supervisor clínico - PUC/SP
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2 years ago
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Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa (Freud, 1912) 

Contribuições à psicologia do amor II taken in Pinheiros by @rotorisse
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2 years ago
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25 days ago
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Quando Quinet afirma que a relação sexual contra a qual Lacan se insurge é o encontro do eu ideal com o ideal do eu, ele aponta para uma ilusão de fusão imaginária. O eu ideal é a imagem que o sujeito projeta de si, enquanto o ideal do eu é a instância que o avalia e o orienta. Quando ambos parecem coincidir, instala-se a fantasia de uma completude, como se finalmente houvesse proporção entre o desejo e o objeto.

É exatamente isso que Lacan desmente ao dizer: “não há relação sexual”. Não existe encaixe pleno entre os sexos; o que há são tentativas imaginárias de suturar uma falta que o real insiste em reabrir.

A paixão, nesse registro, funciona como uma espécie de delírio: ela constrói a cena de um encontro absoluto, como se o outro fosse a peça que faltava. Seu esplendor nasce dessa promessa, mas também sua fragilidade. Pois a paixão não suporta a falta; ela a recobre com a imagem da fusão. Ao menor atrito com o real, essa construção desmorona, revelando a impossibilidade da completude.
O amor, ao contrário, nasce — como disse Fernando Pessoa — do encontro com a pessoa errada. Errada, porque não cumpre a fantasia de fusão; errada, porque não responde à demanda de completude. Mas é justamente por isso que o amor se sustenta: ele persiste na convivência com a falta, sem pretender suprimi-la.

A diferença é clara. A paixão encena um delírio de totalidade; o amor admite a divisão e a transforma em permanência. Amar não é encontrar a peça que fecha o quebra-cabeça, mas aprender a viver com a impossibilidade do encaixe. taken in Pinheiros, São Paulo by @rotorisse
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a year ago
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Na sede da ONU, em Nova Iorque, há uma tapeçaria de “Guernica” (1937) exposta logo perto da sala onde acontecem coletivas de imprensa e reuniões importantes. Essa obra retrata os horrores do bombardeio da cidade basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola, um grito contra a barbárie e a violência de Estado.

Em fevereiro de 2003, pouco antes da invasão do Iraque pelos EUA, o então secretário de Estado americano Colin Powell deu uma coletiva justamente nesse espaço. Só que… a obra estava coberta por um enorme tecido azul.

O gesto foi altamente simbólico — ou, melhor, sintomático.

O recalcado: o quadro, com toda sua denúncia contra massacres civis, não podia aparecer ao fundo enquanto se falava em guerra. Ele foi encoberto, como aquilo que deve ser expulso do campo da visão.

O retorno do recalcado: o ato de cobri-lo transformou Guernica em protagonista. O mundo inteiro percebeu a ausência, e a crítica implícita de Picasso à violência estatal voltou com força redobrada. O azul que devia neutralizar acabou acentuando a presença do indizível.

Zizek comenta esse episódio lembrando que o objeto fala mais quando é silenciado. O cobertor azul virou o megafone do recalcado: quanto mais tentavam encobrir, mais a cena gritava. taken in Pinheiros, São Paulo by @rotorisse
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a year ago
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Em O Inferno do Dever: o discurso do obsessivo (Lachaud, 2002), Denise Lachaud analisa como a posição materna na neurose obsessiva não se reduz a uma relação de simbiose psicótica com o filho. A mãe, nesse caso, impõe à criança uma identificação que foraclui o desejo próprio do sujeito em formação, transformando-o em objeto de seu gozo. Entretanto, trata-se de um gozo que não se fecha no dual materno-filial: ele inclui a presença do elemento terceiro, o pai, ainda que de modo enviesado.

Segundo Lachaud (2002), a mãe transmite indiretamente à criança a mensagem de que o pai é impotente, o que a autoriza a recorrer ao filho como suplência de satisfação. Assim, o obsessivo é capturado nessa dinâmica paradoxal: por um lado, designado como objeto do gozo materno; por outro, convocado a sustentar o lugar de substituto frente à falha atribuída ao pai.

Essa leitura revela a particularidade do laço obsessivo: ele não se estrutura na exclusão radical do terceiro, como na psicose, mas em uma triangulação marcada pela depreciação da função paterna e pelo aprisionamento do sujeito no gozo materno. taken in Pinheiros, São Paulo by @rotorisse
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a year ago
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Em Freud, quando ele diz que a pulsão é acéfala — isto é, não tem um objeto pré-determinado —, a consequência é que nenhuma forma de escolha de objeto (hetero, homo, bissexual) é “natural” ou “normal” no sentido de ser exigida pela pulsão. O objeto é sempre contingente, produto das vicissitudes do desenvolvimento, das identificações, da história infantil e das interdições simbólicas.

Nesse ponto, tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade são, digamos, anomalias necessárias: saídas particulares diante da indeterminação da pulsão. Freud, inclusive, quando fala em “inversão” (o termo da época), insiste que não se trata de degenerescência ou doença, mas de uma variedade da função sexual.

Ou seja: se a pulsão não traz em si mesma a marca do objeto, toda fixação em um objeto (homem, mulher, mesmo sexo, outro sexo) é, em termos técnicos, uma torção, uma escolha entre infinitas possibilidades. Nesse sentido rigoroso, a heterossexualidade não é mais “normal” do que a homossexualidade — ambas são respostas ao real de uma pulsão sem cabeça.

O que Freud vai chamar de “anomalia” não é exatamente patológico, mas o simples fato de que não existe correspondência natural entre pulsão e objeto. taken in Pinheiros, São Paulo by @rotorisse
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a year ago
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