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Eis uma brincadeirinha, que me fez lembrar a @adrianacinza no dia em que publicou o seu primeiro áudio. Soa sempre estranho ouvirmo-nos do outro lado, mas senti que este livro merecia por me parecer prometedor, espero encontrar-me nele em breve. Gostei dos primeiros parágrafos. Mais alguém com este estranho hábito de ler as primeiras linhas dos livros novos?

Sou uma mega fã de literatura brasileira, especialmente (mas não só) das novas vozes da literatura contemporânea, nua, crua e sobejamente inspiradora com o seu realismo.

Quais são os vossos autores brasileiros preferidos?

@jeferson.tenorio.9
@penguinlivros

#oavessodapele #jefersontenorio #literaturacontemporanea #literaturabrasileira #literaturalusofona #lermais #bookstagram by @sendmepoppies
15
2 years ago
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Porém (em jeito de carrossel, depois do meu último post), li este pequenino da Claire Keegan que a @camomilaliteraria me emprestou. Já tinha lido Foster no original, de que gostei muito, e Pequenas Coisas Como Estas veio confirmar que são pequenos livros como estes que fazem toda a diferença. De facto, fica a saber a pouco, mas não perde em nada por isso, é só uma espécie de sede por mais que fica. A escrita tem qualquer coisa de acolhedor que nos transporta para o sítio certo: deleitamo-nos nos simples detalhes, no silêncio palpável e na sensação de melancolia e tudo junto é o quanto basta. Há livros assim. Têm tudo na medida certa.

@relogiodagua
Tradução de Inês Dias 

penso sempre nos tradutores, como são importantes para que as versões que lemos nos toquem tanto como o original faria.

#clairekeegan #smallthingslikethese
#pequenascoisascomoestas by @sendmepoppies
21
a day ago
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É isto, as minhas últimas leituras têm sido uma autêntica tragédia. No entanto, descobri que Antígona é uma mulher (perdão aos mais atentos e aos entendidos na matéria), e que andamos há milhares de anos a tentar encontrar respostas para as mesmas questões. E ainda percebi que a língua enquanto objeto de estudo científico dá pano para mangas, mas se falarmos do grau de precisão necessária para a escrita académica, não posso dizer tal expressão e que esta frase já vai tão longa que já estava chumbada. É assim, para quem se mete em aventuras. Mas o ditado já é velho, quem corre por gosto, não cansa. Às vezes...

#universidadeabertaportugal #humanidadesuab #sofocles by @sendmepoppies
5
3 days ago
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Como assim, só agora é que li Esteiros de Soeiro Pereira Gomes? Já leram?

Depois de ler na opinião da minha muito querida @marciaemlisboa que Esteiros lhe lembrou Capitães da Areia, decidi pegar-lhe. Foi essa mesma sensação que tive, mas com toda a nossa portugalidade presente nas páginas deste livro. Talvez o tenha sentido ainda mais próximo porque reflete as condições de vida em Portugal na década de 40 (suponho, visto que faz referência à guerra) e talvez  porque ainda sinta que há muito pouco material sobre esse tempo na literatura (ainda que cada vez surja mais, o que me deixa muito feliz). 

O enredo gira em torno de um grupo de crianças e suas famílias que vivem em extrema carência perto das margens do rio Tejo, para onde na primavera e verão vão trabalhar entre os telhais e os esteiros. É um cenário muito triste, marcado pelo lodo, pelo fumo e calor dos fornos de tijolo, pelo vaivém das barcas e pela paisagem ribeirinha onde aqueles miúdos passavam os dias submetidos a um trabalho exaustivo e violento. 

(Vou levar algum tempo a esquecer o momento em que o Gaitinhas, que queria continuar a estudar mas que por causa da doença da mãe não conseguiu, se apercebe porque é que os outros usam um barrete, ou o que quer que encontrem, para tapar as orelhas, quando tem de carregar os tijolos acabados de sair do forno. Estas e tantas outras cenas que não são ficção, estão algures presas no tempo). 

Impressiona saber tanta carência tão real, e fica-se logo de rastos com a dedicatória no início do livro "Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro." Das coisas mais bonitas deste livro é a forma como o autor, conhecedor desta realidade, soube retratar a pureza de se ser criança, o espírito indomável daqueles meninos-operários. 

Leiam-no mas saibam para o que vão. 🥺

#esteiros #soeiropereiragomes #lerosnossos by @sendmepoppies
17
a month ago
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Setembro é um dos meus meses favoritos do ano. Sinto-o sempre como uma ponte suave entre o calor tórrido do verão e a perspectiva dos novos começos, é o momento em que a cura do sol se transforma na força necessária para recomeçar. Para mim significa sempre um recomeço.

Deixa-me sempre saudades abandonar agosto, e saber que os dias amenos estão cada vez mais longínquos e mais curtos, mas aguardo sempre com expectativa a chegada de algo novo. Continuo a cultivar a esperança. Aprendi que, por vezes, a mudança depende de nós mesmos.

Há uma beleza única nesta transição. O calor ainda nos abraça a pele, mas o ar já traz o aroma da terra molhada, o sol já se apresenta de outra perspectiva e dá a tudo uma tonalidade dourada que me inspira para a poesia (soubesse eu escrevê-la). É o instante em que olho para trás, agradeço o descanso, a praia e os dias longos, e tento usar essa energia renovada para desenhar os próximos passos. 

Sinto que o último ano foi um longo inverno, portanto aguardo com expectativa (e muito em particular) este recomeço. Que saibamos carregar essa luz no peito, enfrentando os novos desafios com a certeza de que estamos prontos para florescer outra vez. 🌱

Na verdade, só queria um pretexto para publicar a foto que o senhor meu marido me tirou ontem no último dia de férias enquanto eu me alongava em pensamentos numa carta 💌  @mourinho_naturalis.fotografia ❤️

Ficam alguns registos destes dias. by @sendmepoppies
17
a month ago
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Aqui estão quatro livro que gostei muito (assim nas ⭐⭐⭐⭐) e sobre os quais ainda não tive oportunidade de falar. Breves opiniões porque ultimamente não me apetece escrever muito, o tempo escasseia...

A Senhora Ferrante tem o poder de, por vezes, me desconcertar. Ora a amo, ora não sei se a odeio, mas cheguei à conclusão que a escrita deste livro é provocadoramente real. As personagens irritaram-me profundamente, precisei de refletir sobre todo o enredo, até que percebi que o livro tem um toque certeiro: (usei dois pontos mas não foi IA) faz-nos sentir desconfortáveis com situações reais e mesquinhas, não tem qualquer dos floreados dos romances lamechas, e a verdade, por vezes, ainda dói. Mostra como somos todos moldados pelas nossas vivências, guardando segredos e dizendo menos do que pensamos. Continuo a amá-la perdidamente 🫶 
Tradução de Margarita Periquito 

​Em relação a Corpo Vegetal de Julieta Monginho posso dizer que o recomendo muito. O tema é muito atual: o consentimento. Uma mulher vive aprisionada num corpo que os medos inativaram após um abuso. Vive num entorpecimento que molda as páginas deste livro. Adorei a escrita e as reflexões da protagonista e de outras personagem ao seu redor. 

É a Ales foi a minha escolha para conhecer este Nobel. É uma história sombria e que pode parecer repetitiva (ok, é, mas!) onde um confluir fascinante de tempos se fundem. Achei poético, perturbador e  claustrofóbico. Gosto deste tipo de "sofrência", ainda assim não sei se terei estaleca para outra obra de Fosse, pelo menos para já. Vou deixar repousar e, quiçá, decido-me por outro no futuro (aceito sugestões!).
Tradução Pedro Porto Fernandes

​Soldados de Salamina de Javier Cercas foi uma experiência muito gratificante. Armei-me de lápis e marcador para não perder o fio à meada deste relato jornalístico que se emaranha na ficção. Foi uma excelente fuga às leituras de conforto, dando-me uma visão mais aprofundada da Guerra Civil Espanhola e dos movimentos que lhe deram origem. Recomendo vivamente a quem queira elucidar-se sobre este período e provar algo único.
Tradução Helena Pitta 

É isto. Já leram algum destes ou qualquer outro destes autores? by @sendmepoppies
15
2 months ago
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38. Mais uma volta ao sol! 💫

​Na última, não imaginava quão difícil iria ser o ano que se seguiria. Na verdade, sinto que este tem sido uma corrida de obstáculos, com um cenário sinistro em redor. Não sabia que iria ter de aprender a viver com a ausência do meu pai. Com a sua perda, desapareceram memórias que só ele detinha sobre mim, histórias que mais ninguém guardava da mesma maneira; portanto, sim, tenho a sensação de que uma parte de mim desapareceu.

​Foi uma volta difícil, deparei-me com sombras difíceis de iluminar, dei de caras com a ansiedade e com o pânico (não têm sido encontros assim tão cordiais). Contudo, não me sinto fraca e, apesar de nunca falar disto — porque tenho uma certa dificuldade em abrir este lado da minha vida pessoal num espaço tão público como este —, vou inserindo pequenas coisas nas partilhas que faço sobre os livros que leio. Sei que as redes sociais, para além do que têm de bom, também se podem tornar um eco na nossa cabeça, mais uma alínea a cumprir e, no fim do dia, uma frustração. Mas gostava de partilhar com quem me segue (e este último ano foi muito rico em conversas com pessoas fabulosas) que somos todos reais e humanos. Atrás destas imagens e destas opiniões há pessoas a batalhar, e todos podemos fazer a diferença na vida uns dos outros com pequenos gestos.

​Contudo, compreendo que a vida também se pode fazer de recomeços. Decidi que só paramos de sonhar se assim o decidirmos. Manter a cabeça ocupada é a minha forma terapêutica de enfrentar os desafios; portanto, há uns meses dei o salto, candidatei-me à universidade e fui aceite: sou oficialmente estudante da licenciatura em Humanidades da Universidade Aberta. Vai ser uma aventura que estou pronta a enfrentar.

​Não sou muito destas coisas, até porque acho sempre que ninguém tem interesse nos fluxos de consciência dos outros, mas sinto que esta é a carta que escrevi a mim própria para não desistir. Sei que, onde quer que ele esteja, está a sorrir e a olhar por mim em cada nova página que começo a escrever.

​Um brinde à coragem de continuar, mesmo quando custa tanto... Obrigada aos que estão por by @sendmepoppies
59
2 months ago
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Não sei muito bem como falar deste Breviário das Almas de Joaquim Mestre no pouco espaço que aqui nos é permitido escrever. Gostava que lhe dessem atenção. Encontrei-o por acaso. Sou como as galinhas que esgaravatam até encontrar minhocas que nunca viram o sol. Às vezes tenho sorte e encontro uma suculenta. (E aqui já gastei não sei quantas palavras sem nada dizer, mas adiante...)

​O Breviário das Almas, de Joaquim Mestre, é sombrio, densamente humano e nele a fronteira entre a realidade e o sonho parece dissolvida. O prefácio de João Aguiar já diz muito e, tivesse eu espaço, transcrevia-o na íntegra.

​É um livro de contos que se espraia na ruralidade de há muitas décadas passadas, fazendo até referência aos que fugiam da Guerra Civil Espanhola para terras lusas. Tece-se em redor de sentimentos próprios da nossa existência humana: a solidão, a superstição, o destino e a inevitabilidade da morte.

​Apesar de saber pouco sobre o termo, relembrou-me uma referência que David Uclés fez na sua entrevista ao Ípsilon aquando da publicação do seu livro em Portugal: falava do "costumbrismo", algo que me acendeu algumas luzes na mente por ser um tema que me apaixona na literatura. O costumbrismo na literatura explora os costumes, a consciência popular de outras épocas, as vivências e as formas de subsistência, tudo isto aliado aos estados de espírito ligados às superstições e ao sofrimento causado pelo desconhecido, como a morte. Certamente que o termo é mais amplo que isto mas carece de mais pesquisa da minha parte.

​Embora este livro se apresente como um livro de contos, se o lerem, vão ter uma surpresa e tanto, mais não digo. Por tudo isto, gostava muito que o lessem, porque é qualquer coisa de muito belo misturado com uma certa poética.

"Estou aqui sentada à espera da morte, mas ela está a demorar tanto que me deixei dormir."

"Joaquim Mestre mostra um domínio da prosa, uma maturidade e um vigor que, infelizmente, não são muito vulgares no nosso tempo. Além disso, sabe usar com grande à-vontade aquele supremo artifício literário que é a simplicidade: não há recurso a vocabulário raro nem a construções enredadas. Tudo é simples e fluente." (Prefácio de João Aguiar) by @sendmepoppies
9
2 months ago
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Recebidos em parceria comigo própria e com o meu aniversário (quase) à porta... Meras desculpas.

Digam-me se já leram algum ou algum destes autores.

📎 As Malditas de Camila Sosa Villada @bcf_editores

📎 Os Soldados de Salamina de Javier Cercas @portoeditora 

Falo de #lerguerracivilespañola dinamizado pelo @diario_de_um_leitor_pjv 

📎 Matamos Stella de Marlen Haushofer @antigona.editores.refractarios 

📎 O Livro do Verão de Tove Jansson @relogiodagua 

📎 Meias de Seda de Kate Chopin

📎 Breviário das Almas de Joaquim Mestre @oficinadolivro 

Deixem o vosso ❤️ em apoio à minha bonita voz 😉 tem legendas, caso não me queiram ouvir. by @sendmepoppies
15
2 months ago
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Aposto que já não estão habituados ao analógico. 🥹 Hoje é mundialmente considerado o dia destas feras engalanadas de ronronices e além dos livros, uma das coisas que recordo adorar até ao infinito e mais além, são os gatos. Eu própria podia ser um (ainda tenho esperança de reencarnar num gato doméstico como os meus que têm vidas santas e só não passam o dia a ler porque já acham que sabem tudo).

Para mim, os gatos são uma presença constante, um refúgio e uma paixão. Há algo absolutamente mágico neles, e o conforto silencioso que trazem a um dia difícil, seja na sensação reconfortante de um ronronar ou na forma como parecem absorver o nosso stress, é simplesmente incomparável. São fascinantes precisamente porque são diferentes de tudo o resto. Desafiam-nos com a sua personalidade complexa e aquele lado profundamente independente que nos faz sentir, muitas vezes, que precisamos muito mais deles do que de nós. 

Mas amar estes animais significa também cuidar deles com responsabilidade. Proteger os nossos amigos passa muito por garantir a esterilização ou castração, e isto tive de aprender à minha própria conta e com uma dor lancinante no peito. Sou contra à compra de animais de estimação, os abrigos estão cheios e não têm mãos a medir com tantos que lhes vão parar às mãos e outros tantos que não têm capacidade para ajudar.

Sei que a mentalidade está a mudar. Também sei que ter um animal de estimação é um custo acrescido, mas também sei que há ajudas quando são necessárias. Há pessoas maravilhas por aí. É isto. Estimem-nos porque eles são aqueles que não nos pedem nada e nos dão tudo o que têm (incluindo muito pêlo para aspirar). 

E eu podia ser um gato porque...
 
Adoro companhia, mas nos meus próprios termos. Gosto de estar sozinha longas horas e valorizo o meu espaço. Preciso do meu tempo de contemplação e aprecio o silêncio (tenho pouca tolerância ao barulho).
 
Prefiro observar o que está à minha volta, ler a energia circundante antes de qualquer reação e detesto mudanças bruscas.
 
Entendo que o afeto também se transmite com pequenos gestos, com uma presença silenciosa e com o respeito.

E por aí? Quem são os vossos felinos adorados? 😻 by @sendmepoppies
7
2 months ago
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Ressuscitar Mamutes é um pequeno livro que me tocou profundamente. Silvana Tavano construiu uma narrativa delicada e poderosa sobre a relação entre uma mãe e a sua filha, explorando diferentes tempos da vida como se a mãe existisse para além do seu próprio tempo. Como se continuasse a viver, a crescer e a transformar-se dentro das memórias da narradora, sua filha. Tem imagens belíssimas da relação entre ambas.

 
Ao início tive alguma dificuldade em me adaptar ao texto, não compreendia a relação com os mamutes, parecia até um pouco fora de contexto. Na verdade, os mamutes são uma metáfora que a autora utiliza para algo que fica na memória mesmo quando já desapareceu. Representam o passado, uma marca deixada, a persistência de algo que, ainda que já tenha sido extinto, esteve cá, deixou uma marca que não pode ser apagada. Tal como acontece com as memórias, as nossas lembranças, gestos que perduram no tempo e que sempre nos recordarão de algo. Na verdade, a narradora tenta dar vida ao que já parece irremediavelmente extinto, a presença da sua mãe e do amor que as uniu.

 
Gostei muito deste livro, dizê-lo assim talvez seja pouco. A escrita é sensível, e está cheia de imagens que permanecem connosco, como já referi anteriormente. A literatura tem destas coisas, lemos sobre algo ou alguém e estamos automaticamente a fazer apontamentos mentais sobre nós próprios e sobre as nossas vivências, é como se nos convidassem a olhar para aquilo que carregamos dentro de nós, encontramos muitas vezes respostas naquilo que lemos, respostas para algo que buscamos incessantemente ao longo da vida: quem fomos e quem somos e qual parte deriva da nossa herança genética…

@silvanatavano
@leyalyvros
@domquixoteeditora 

Sugestão de leitura do @clubedeleituradabip em parceria com a @leya_portugal a quem agradeço  esta oferta que tão bem me soube. Literatura brasileira 🤌✨ by @sendmepoppies
20
2 months ago
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Parti para a leitura de O Espelho Partido esperando sentir algo parecido com A Praça do Diamante, mas fui surpreendida, claro. São experiências literárias diferentes mas as duas surpreendentes. Enquanto o romance que acompanha a vida de Natàlia (A Praça do Diamante) nos transporta para o claustrofóbico e sofrido quotidiano da Barcelona operária do pós-guerra, O Espelho Partido oferece-nos uma grandiosa saga familiar (e como eu adoro sagas familiares!). É uma obra que deste logo notei ter um je ne sais quoi de cinematográfico. Acompanha o esplendor e a absoluta ruína de uma família da alta burguesia catalã ao longo de várias décadas.

A narrativa desenrola-se essencialmente em Barcelona, tendo como ponto central uma sumptuosa mansão. A história arranca nos primeiros anos do século XX, quando Teresa Goday, uma mulher de origem humilde e de uma de uma beleza ímpar, ascende socialmente ao casar com um diplomata viúvo e abastado, o que lhe abre as portas da alta sociedade. Com o tempo, a mansão torna-se quase num organismo vivo de vivências, aparências, segredos e paixões reprimidas, onde Teresa vive com a sua família e uma vasta equipa de serviçais que testemunham os bastidores daquela aristocracia. À medida que o tempo avança, atravessando a tumultuosa história de Espanha através da ditadura e da Guerra Civil Espanhola, a fortuna e a harmonia familiar desmoronam-se. A decadência física da mansão acompanha a tragédia dos seus habitantes. 

O que torna O Espelho Partido tão fascinante e tão distinto de A Praça do Diamante é a forma como Mercè Rodoreda gere o tempo em que ambos se desenrolam e o suspense. Gostei muito da amálgama de romance de época, com suspense, tragédia, um certo mistério psicológico que nos faz virar as páginas como autómatos. Cada capítulo é um fragmento da longa história desta família. 

Rodoreda é excepcional na recriação de uma época dourada que desaparece para dar lugar à barbárie da guerra, pintando a burguesia catalã com todas as suas contradições, desde a obsessão pelas aparências e o culto do belo até à riqueza fingida e à total desconexão face à realidade social do país. by @sendmepoppies
21
2 months ago
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