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comecei hoje a varrer o chão e encontrei uma lágrima quente ainda, 
que só pode ser sua quando saiu com pressa enquanto eu e o cão éramos ludibriados, enquanto você esquecia a camisa e nos abandonava — acho até que foi proposital deixar algo que vivia tão encostado a sua pele, na cadeira onde costumo descansar enquanto olho ao redor procurando um isqueiro pra queimar esse tecido ridículo que eu amava só porque guardava você dentro, 
mas dou voltas no quarteirão pra decidir se queimo ou não, 
enquanto os olhos do cachorro me perguntam se vou mesmo fazer isso. 
não se abandona um amor como desculpa pra enganar um cachorro

decido que não queimo e dou a roupa ao cão pra que cheire e mate a saudade 
antes de mim, pra que ponha em você toda raiva e rasgue e esmiúce o tecido 
e transforme em fragmentos toda esta memória sinestésica

mas o cão é amoroso: cheira o pano e dá voltas no quarteirão e procura o dono 
com os olhos tristes e vazios como quem pergunta se ele volta ou não para usar a camisa que ficou estendida na cadeira que costumo descansar e pensar que já é hora de me entregar ao sono antes de dar inúmeras voltas dentro de mim pra acordar e percorrer o quarteirão sem procurar ninguém

Despedida. Ester Chaves @clube_dos_intensos
Ilustração: @caos011
@goiaba__
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Estranha a maneira como a gente lida com alguns assuntos. Às vezes parece comum  baixar a guarda para certas aproximações, mas só depois compreendemos o quanto são nocivas. Natural que pensem logo sobre relacionamento amoroso. Naquele término tumultuado que deixou alguma coisa incompleta, algo por dizer e no ímpeto de buscar uma resolução definitiva, acontece o encontro oriundo da  carência. Só sexo. Nada mais. Normal que duas pessoas que se relacionaram durante muito tempo, revivam antigas emoções e no exercício de suas liberdades, compartilhem a intimidade dos lençóis.

A questão é que essa é apenas uma das inúmeras situações que não acontecem de forma "tão natural assim". Há uma brecha ali, uma ponta solta que nenhum dos dois quis amarrar. Por comodismo. Por imaginar que se não tiver outra pessoa, o outro estará lá à disposição. Alguém que já conhece o  terreno minado do outro e mesmo assim pisa, jurando que vai transformar em jardim. A verdade é que, o distanciamento altera a percepção das coisas, mas a pessoa não vai mudar pelo fato de você ter mudado. Às vezes, ela continua com os mesmos comportamentos que você odiava, e uma aproximação após o término, serve apenas para comprovar o que já se sabe.

Cometer o mesmo erro pela segunda vez é ampliar o raio de ação do sofrimento. Você mal se recuperou do primeiro corte e se coloca novamente à disposição daquele que causou a ferida. "Ah, mas as pessoas mudam". Não duvido. Porém, há coisas que não são para ser. Pode acontecer a reviravolta que for, a sua vontade de que o outro seja atencioso com as suas demandas, será apenas sua. Nesses casos, "a recaída" atende a interesses superficiais, momentâneos.

Lamentável é permitir-se navegar no raso terreno conhecido das faltas, sabendo que a sua fome de vida e de amor extrapola essa oferta de contentar-se com migalhas de afeto. Você não é compatível com almas medrosas e covardes, que vivem à margem, no exercício mesquinho de oferecer apenas o prazer temporário que antecede a "nova queda". Queira mais! 
Texto: Ester Chaves 
@clube_dos_intensos 
Arte: Flavia Steiner @caos011
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