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Esse é o primeiro dia dos pais em que não precisei fazer uma ligação para falar com o meu. Como os mais próximos sabem, meu pai faleceu em abril e até esse momento essa informação ainda não parece real na minha cabeça.
Pensei em escrever algo bonito para deixar registrado aqui, mas graças a Deus eu sei que disse tudo o que ele precisava escutar em vida.
Hoje, divido com vocês, ainda com um certo ciúme, desses que a gente tem com as coisas mais íntimas, as primeiras palavras que consegui dizer sobre isso depois de sair daqui de Araguaína ainda anestesiada para dar meu último adeus para ele no Rio:

“Eu sei que eu viajei as últimas 16 horas só para estar aqui e que simplesmente estou diante do corpo do meu pai, mas nada disso me parece real. Quando a @cintiaper me ligou para dar a notícia, ela me disse que a cirurgia era complicada e ele não resistiu. Não respondi mais nada. Num primeiro momento, porque estava esperando que ela dissesse logo que aquilo era só uma brincadeira. Logo depois, quando em uma fração de segundos a racionalidade me chegou e lembrou que ninguém brincaria com isso, calei pelo choque.
Meu pai não devia morrer. Sempre que nos falávamos por telefone e eu perguntava como ele estava, ele respondia “vivo”, num tom de brincadeira que todo mundo que convivia minimamente com ele conhecia. Eu ria porque, pra mim, a piada fazia sentido: ele sempre estaria vivo, não?
Eu juro que a impressão que tenho no meu coração é de que se eu fizer a piada certa aqui, ele vai levantar, dar uma gargalhada e iniciar uma conversa sobre as coisas mais aleatórias que vai durar 2 horas, como as que tínhamos por videochamada, que terminavam com os apelos de um de nossos cônjuges querendo dormir ou um desentendimento sobre o atual governo, que era uma das poucas coisas sobre as quais a gente não concordava.
Eu e meu pai tínhamos uma sintonia fina e, mesmo de longe há tanto tempo, um jeito muito parecido, para coisas boas e ruins. Desde coisas pequenas como organizar o armário por cor, passando pela arte de disfarçar situações incômodas com humor até a certeza de que a vida só vale a pena se a gente aproveita ela. (…)

(Continua nos comentários.)
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