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ator e psicólogo clínico
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NÃO HÁ NEUTRALIDADE NO RETROCESSO
Em que momento passamos a considerar opinião política aquilo que ameaça a existência do outro? 
A história não caminha sozinha. Ela é feita de escolhas. Algumas nos fazem avançar. Outras nos obrigam a lutar novamente por aquilo que um dia acreditamos ter conquistado.
É assustador perceber como uma sociedade pode se acostumar com a ideia de retroceder. Como direitos podem voltar a ser tratados como privilégios. Como a liberdade de existir, amar, pensar e criar pode, mais uma vez, ser colocada em discussão.
E talvez o mais assustador seja perceber que há quem aplauda.
Nós, que fazemos da arte um lugar de encontro, não podemos fingir que isso não nos atravessa.
Porque a arte nunca foi apenas entretenimento. Ela também é memória. É denúncia. É a possibilidade de imaginar outros mundos quando este insiste em nos dizer que não há alternativa.
E sabemos bem o que acontece quando uma sociedade começa a escolher quem merece ter voz, quem merece ser visto, quem merece ocupar espaços e quais histórias merecem ser contadas.
A censura nem sempre começa com o silêncio imposto. Às vezes, começa quando uma sociedade aprende a não se incomodar com o silenciamento dos outros.
Não se trata de exigir que todos pensem da mesma forma. Trata-se de compreender que nenhuma divergência política deveria servir de justificativa para a retirada de direitos, para a perseguição das diferenças ou para o desmonte da cultura.
Não podemos chamar de futuro aquilo que nos empurra de volta para um passado que tantas pessoas lutaram para transformar.
A democracia não é um presente que recebemos. É uma construção que exige responsabilidade, memória e coragem.
E nós escolhemos não esquecer.
Não esquecemos quem abriu caminhos antes de nós. Quem precisou enfrentar o medo para que hoje pudéssemos subir num palco, contar nossas histórias e existir com um pouco mais de liberdade.
Não podemos transformar essas conquistas em moeda de troca.
Nossa arte é política porque nossa existência também é.
E enquanto houver quem tente transformar direitos em concessões, diversidade em ameaça e cultura em inimiga, haverá também quem insista em criar, ocupar, questionar e resistir.
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