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Rastros de Sairé

Derrubada dos Mastros, último dia do Sairé 2026, em Alter do Chão, Santarém (PA).

Para quem conhece o Sairé pela disputa entre os botos Tucuxi e Cor de Rosa: sim, é uma rivalidade linda e tem ganhado cada vez mais atenção de todo o mundo. Mas a raiz e fundamento do Sairé estão no rito, que acontece a mais de três séculos.

Nasceu do encontro entre a espiritualidade indígena do Baixo Tapajós e a catequese jesuíta. Quem o mantém vivo é o povo Borari, que ocupa historicamente o território de Alter do Chão e faz a festa em puxirum, o trabalho coletivo de toda a comunidade.

Uma das traduções registradas para o nome é “cordão de giro”. É um rito que acontece em movimento. O capitão abre a procissão, os alferes agitam as bandeiras, a saraipora conduz o arco do Sairé com as Moças das Fitas, e os rufadores marcam o passo no tambor. Na derrubada, o cortejo gira em volta dos mastros antes que homens e mulheres disputem, no machado, quem leva o seu primeiro ao chão. E há as danças do rito, como o Macucauá e a Desfeiteira, com o tarubá, bebida fermentada da mandioca correndo de mão em mão.

Os mastros, buscados na mata com pedido de licença aos encantados, são para a comunidade a alma do Sairé: a ligação entre o povo e o sagrado.

As fotos de Oruê Brasileiro foram feitas em longa exposição. Numa festa em que nada fica parado, o que a câmera guarda é o rastro.

Reconhecido em 2024 como manifestação da cultura nacional, o Sairé é muito mais que os botos: é rito, ancestralidade Borari e potência amazônida.
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A festa tá linda 🔥 chega mais que vamos até às 19h 🫰🏾
📸 @oruebrasileiro
@odaraefilmes
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#festivaldearte #FestivalAfricano #arteecultura #artenegra #curitibavibraáfrica
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RASTROS DE MARUJA

Durante quinze dias, acompanhei as Marujadas de São Benedito, no Nordeste do Pará, mais especificamente nas cidades de Quatipuru, Primavera, Boa Vista e Bragança. Por ali, o chão vibra — e vibra há mais de duzentos anos — com passos que cortejam, dançam e mais que isso, são memória em movimento.

A Marujada não se oferece inteira ao olhar apressado. Ela passa. Escorre. E é justamente aí que finquei minha pesquisa: nos rastros, nos borrões, nas imagens que recusam a nitidez como quem recusa o esquecimento fácil.

O santo é preto. O culto sempre foi resistência, permitido aos corpos escravizados, São Benedito tornou-se passagem — sincretizado com voduns e orixás, guardando mistérios que não se deixam traduzir por completo. O retumbão, o xote, o carimbó não acompanham o cortejo: eles o conduzem a festividade, como um transe coletivo onde fé e baile não se separam.

As fotografias aqui não tem intensão de apenas documentar e sim evocar os mistérios que transitam por esse território todo fim e começo de ano.
Não congelam o gesto — deixam que ele escape.
São imagens que entendem que certas tradições não se revelam em silêncio nem em repouso, mas no tremor, no cansaço, na repetição ritual do corpo que insiste.

Rastros de Maruja é sobre aquilo que permanece mesmo quando já passou.
Sobre o que o olho não alcança, mas o corpo reconhece.
Sobre uma história que não pede permissão para continuar dançando.

Viva São Benedito! Salve a Marujada! 
Que essa cultura e a fé sigam vivas pela eternidade arrastando multidões de devotos e devotas, com toda essa força e movimento.

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