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Desde a semana passada venho pensando no tempo das coisas. É quase um clichê meu tentar compreender esse entendimento social que tentamos pautar de acordo com o nosso próprio relógio. O fim do ano chegou e, com ele, aquela sensação de fim do mundo: horas de menos para eventos de mais, pressa demais para reflexões de menos, a urgência de pertencer e preencher. No fim do dia, sobra mais esgotamento físico e mental do que algo realmente relevante para escrever, clicar, compartilhar. 

Essa pauta — o retorno à natureza, o tempo certo para amadurecer ideias e pessoas, a capacidade de se expressar sem limitações e, sobretudo, de se autoquestionar — volta como um mantra: o que eu estou oferecendo ao mundo?
 
Foi com isso que Ana Clara Watanabe apresentou TOKI NO KOROMO (O Vestuário do Tempo). A coleção imagina uma terra quase fictícia, onde os habitantes cultivam seus próprios insumos, roupas e cultura, a partir de uma sociedade disposta a esperar o tempo das coisas. Digo “quase” fictícia porque Ana construiu, em Pindamonhangaba, uma agrofloresta real, onde o sistema de agricultura familiar se torna o coração do que passa a vestir seu trabalho.

Esse amadurecimento já se insinuava no seu primeiro desfile solo, no topo do Martinelli, com Tarsila Amarela — um maximalismo instalativo que questionava limites criativos e financeiros. No fundo, o que ninguém verbaliza: como um desfile se paga?

Agora, a WTNB retorna mais madura. 18 looks desfilaram enquanto uma névoa subia e o artista nipo-brasileiro Vitor Hamamoto interpretava uma dança sobre envelhecimento. O maximalismo segue ali, mas em diálogo com o comercial. A referência central veio do livro Walking in the Woods, que virou ponto conceitual da coleção: fibras naturais, tingimentos com casca de cebola e romã, prints de ferrugem, tecidos de baixo impacto e o upcycling de tecidos centenários do Japão.

A narrativa se passa em 2125, mas a crítica é agora. No vídeo que abria o desfile, Sofia Leonardi, sócia na WTNB dizia: “Se estamos vivos, estamos condenados a fazer escolhas.” Estamos. E a moda é um medidor dessas escolhas — inclusive as que definem o futuro que teremos.

Texto completo na Renews, minha newsletter.
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A construção do Toki no Koromo aconteceu ao mesmo tempo em que vivi, pela primeira vez, a experiência literal do plantio. Preparar o solo, abrir o berço, colocar a semente e acompanhar o desenvolvimento, ou a perda, me colocou diante de processos que não são simbólicos, mas concretos: nascer, crescer, morrer. Enfrentar frustrações, como mudas que não avançaram ou os algodões que não resistiram ao frio extremo, reorganizou meu entendimento sobre tempo, risco e continuidade. Iniciar 2025 com o plantio piloto da nossa agrofloresta de algodões, guiada pelos aprendizados da @farfarm.co, foi o eixo que definiu tudo o que apresentei ao longo do ano.

As referências a shinrin-yoku, hansei e kaizen não surgiram como conceitos teóricos, mas como práticas aplicadas na rotina. O plantio, com seus ciclos e imprevistos, se tornou para mim uma ferramenta objetiva de melhoria contínua, assim como meu próprio processo criativo. As diversas remarcações do lançamento de Toki no Koromo foram reflexo disso: reconhecer que havia espaço para aprimorar e que, assim como na colheita do Sítio Motoko-Teruaki, existe um tempo adequado para cada etapa acontecer.

Essa percepção de tempo me levou a olhar para o futuro do espaço em que estamos investindo em 2025. Quem ocupará essa agrofloresta em 2125? Em um cenário onde a escassez será um fator real, penso em práticas de escambo, em produzir aquilo que pudermos e trocar aquilo que não formos capazes de gerar. Penso na filosofia do boro aplicada de forma pragmática: roupas feitas para durar, para serem reparadas, para permanecerem úteis.

Vejo esse futuro como um retorno a princípios fundamentais, sustentado por cooperação. E, ao longo deste ano, essa visão se confirmou na prática. O desfile só existiu porque muitas mãos trabalharam juntas, compartilhando responsabilidade, método e intenção. Toki no Koromo nasceu desse encontro entre pessoas que constroem em conjunto, e que, ao fazerem isso agora, antecipam a comunidade que imagino para o futuro.
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Um homem centenário traça em shodō uma ficção sobre o futuro. Um futuro imaginado e construído em completa oposição a quaisquer convenções da ideia de “futuro” em si: os carros voadores são carroças, os robôs domésticos são vassouras de palha. O futuro é ancestral. 

“THE FUTURE IS THE ULTIMATE FICTION”, sci-fi clicado integralmente em Pindamonhangaba na agrofloresta WTNB, confecciona imagens que desafiam noções de tecnologia, progresso e evolução da espécie. 

As roupas nessa história trazem a distopia de imaginar um futuro a partir da contradição. O algodão é o fio condutor para imaginar possibilidades - possibilidades essas que estão longe de serem arbitrárias: arte e confecção são tratadas como atos de insistência e persistência, assim como o cultivo da própria planta. Nenhum “futuro” acontece por acaso. 

Quando perguntaram a Michelangelo como ele fez para esculpir Davi - ele respondeu: “Eu só tirei da pedra tudo que não era o Davi.” O futuro está em um pé de algodão, que não-por-acaso se tornou exatamente as peças de roupa, armaduras e couraças WTNB que vestimos hoje.

Roteiro e Direção @iusdtosrf
Direção criativa @clarawatanabe
Direção de fotografia @hugotakemoto
Direção de arte @f1delis
Montagem @marinamletizia @costazappa
Trilha sonora @vcr_slim
Narração @sleonardi @_lucasono_
Design @coucouchelly
Produção @luizahonda @mateusmello.s
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meu deus outubro!!!!!!
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