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Pela primeira vez tenho sobre a mesa quatro pilhas com os meus quatro livros publicados, os meus quatro livros estão à espera de quem os leia e me ame através deles, é sempre pra ser amado que eu escrevo. Penso meu trabalho como um projeto que faz mais sentido se lido em conjunto, os meus livros se desdobram uns a partir dos outros. Mesmo que eu escreva ficção, e o narradores variem de um livro pra outro, tem sempre a minha voz em todos eles. Quase como se eu puxasse um fio solto do livro anterior pra começar a costura do próximo, sinto que vai se formando uma grande colcha de retalhos que quem me acompanha vai também reconhecendo e recosturando junto comigo enquanto lê. Acho bonito que o leitor possa acompanhar a maturação da minha voz literária de um livro pra outro. ​Meu primeiro livro, A tessitura da noite, narra a história de um homem que não consegue se sustentar com o trabalho como artista plástico e se tranca no próprio apartamento pra não ser despejado; o segundo, Deixa eu te falar da noite, é a história de uma mulher que sonha em entrar numa universidade pública e não consegue e vai trabalhar numa lavanderia; o terceiro tem como personagens centrais meus avós agricultores que tinham a casa sempre invadida por enchentes; meu livro novo, Crescer em segredo, é narrado do ponto de vista de um menino pobre, gay, abusado sexualmente, vivendo num pátio onde existem casas de vários familiares. São muitos anos nessa busca de existir no mundo pela palavra, pela página escrita vou tentando moldar um contorno tangível pro meu corpo no mundo. Vou cavando pela palavra um lugar mais amplo, a cada texto empurro mais longe, vou abrindo caminho pelo excesso de tentativas. Escrevo sobre aquilo que não deveria escrever, não espero que eu esteja pronto pra escrever, invento uma língua pra escrever aquilo que não deveria escrever, escrevo apesar do caos que a escrita inaugura ao escrever, escrevo apesar de não encontrar a saída. Eu me nego a não viver de arte. Eu me recuso a não ser lido porque meus livros não estão nas livrarias, isso aqui é a minha vitrine de livraria. Como a Lygia Fagundes Telles, só peço que me leiam enquanto meu corpo ainda está quente.
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