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é tanta pedra e tanta porta e tanta gente e tanto livro e tanta conversa taken in Flip - Festa Literária Internacional de Paraty by @l1matheus
30
3 months ago
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depois de ler escalar cansa (senac, 2025) e lendo o tarde no planeta, eu categorizei o leonardo piana como o escritor da escalada. a escrita dele é assim: uma peregrinação aos caminhos tortuosos do que é ser jovem e preocupado com um mundo que está em declínio. mas não só isso. pedras soltas aparecem no caminho. segurar é difícil. se preocupar com um mundo que está terminando é só uma parte do apocalipse. e a família? nossa mãe? as pessoas ao nosso redor? e nossos amores? nossos desejos? como conciliar tanto quando a temperatura só aumenta? a resposta são pedras soltas, perigosas. é preciso capacete pra ler um escritor da escalada.

penso bastante no tarde. é um livro de escalador e montanhista experiente. não é um livro apenas sobre o fim do mundo. acho que isso só serve de catalisador para falar da maternidade, de uma mãe poeta que enfrenta as dores de ter feito escolhas, de uma família que não está preocupada com aquela estrutura social tradicional. é um livro muito amplo nos temas e muito potente nas 170 páginas. tarde no planeta é como fazer uma trilha e descobrir novas paisagens e novos rochedos.

um dos meus livros favoritos da vida é o poeta chileno, do zambra. aquele livro tem o tom de calor que eu sempre quero buscar na literatura. é emocionante, poético, espertinho sabe? e lendo o tarde eu tive a mesma sensação muitas vezes. são livros totalmente diferentes mas a poesia ronda ambos e acho que apesar do livro do piana ser mais sombrio por causa de vários temas, ele também é caloroso, confortável, de uma ingenuidade que só os livros mais transparentes têm.

nos versos de adília lopes
não é tarde
é só
de tarde
tarde no planeta pergunta muitas vezes: é tarde para milhares de jovens lgbtqia+? tarde para acreditar no amor? é tarde para uma mãe voltar no tempo? ou tudo não passa de uma tarde apenas? uma tarde num quintal. cheio de calor e talvez calor demais mas cheio de vida também. cheio de tatuzinhos, flores, mosquitos. by @l1matheus
7
4 months ago
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rejeição é o tipo de livro que sempre busco ler. adoro o desconforto, a materialização do sórdido na minha frente. acho que poucos autores fazem isso puramente bem. poucos mostram coragem para retratar o imoral, a repugnância, os sentimentos mais complexos ou universais de uma forma tão aberta e pungente. 

e rejeição te dói inteiro. são contos que, conectados entre si, vão explorar a rejeição de todas as formas. um livro que disseca os millennials de uma forma bem cautelosa e aprofundada, diria. e esses personagens são tão reais, tão hoje. nos deparamos com vários deles nas estações do metrô, no trabalho, no twitter. tony tulathimutte pega a rejeição e transforma em combustível pra esses personagens tomarem caminhos não tradicionais e imprevisíveis. é aí que rejeição se mostra tão grandioso. 

o primeiro conto é só uma amostra do que o livro vai se tornar. “o feminista” é uma porta de entrada bem tranquila. com um estereótipo bem conhecido: o do homem que tenta impressionar as mulheres mostrando que é inteiro suporte, até ser rejeitado por elas. o terceiro conto é o meu favorito. o conto que pra mim faz o livro alcançar o seu ápice. aqui já não é mais nada tranquilo. é a rejeição no seu estado mais exacerbado. o livro nesse ponto já se encontra num nível tão irreal que ele perde materialização. parece que olhamos para nossas mãos sem nada. dormentes. rejeição mira nos cronicamente on-line e mais do que isso, abarca como os usuários tentam encontrar algum sentido vivendo no canto. “personagem principal” o maior conto, disseca bastante sobre isso. uma pessoa que descarta as categorias de gênero e passa a criar milhares de perfis no twitter para tentar, talvez, dar sentido a algo. 

todos os contos são ferozes, sagazes, poderosos. a escrita do tulathimutte é frenética, ligada, precisa demais. a isadora sinay brilhou demais nessa tradução. e pra terminar, esses contos não são fáceis de agradar. acho que são feitos para serem rejeitados mesmo. e que cômico isso é. by @l1matheus
4
6 months ago
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hoje é páscoa. dia de renascimento. de esperança. de ressuscitar. e acredito que, como jesus cristo, patti smith ressuscita em mim muitas vezes. ela é quase como uma figura a quem eu às vezes intercedo. eu queria pedir coisas para ela. eu decoraria inúmeras orações e tentaria falar as palavras com fé para que ela escutasse. não sei por que isso ocorre, mas a patti é esse símbolo religioso ao qual eu acabo preso e queria recorrer.

pão dos anjos vai ainda mais forte nessa minha concepção de quem Ela é. patti smith partilha o pão e entrega nas mãos de fiéis curiosos, de fiéis que respiram e precisam do combustível da arte para seguir vivendo. ela não faz distinção. ela ama todos igualmente. e, por meio da história da sua vida, (que começa lá na infância com a luta pela sobrevivência até os dias de hoje, prestes a completar 80 anos), patti nos entrega um relato tão bonito, tão sincero e cheio de sentimentos sobre a sua vida maleável, cheia de dúvidas, pessoas, música, poesia, amor e escrita.

achava que nada como ’só garotos’ poderia me fazer mexer. aquele livro me fez não ficar parado. de tentar buscar. de não desistir. o antigo testamento da bíblia. agora o pão dos anjos é uma nova redescoberta do que eu devo buscar. uma segunda temporada para mim. um novo gás que eu quero aspirar. uma vontade de ir atrás de coisas novas. o novo testamento da bíblia. mais melancólico, mais cruel, mais brutal. pão dos anjos me impulsiona para frente. by @l1matheus
7
6 months ago
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acho que às vezes podemos esquecer da amplitude da literatura. de onde um livro pode ir. de onde palavras que juntas formam algo que parece proibido. eu adoro o espanto que eu tenho quando eu leio algo assim. algo cansado. duro. cheio de resistência para quebrar com uma literatura tradicional e assustada. a ágota kristóf não se assustou com o que escrevia. ela não teve esse medo. e acho que tá aí a potência da trilogia dos gêmeos: a crueza que uma história pode ter e até onde essa história pode se esticar.

são livros rápidos. admito que fiquei mais tempo neles porque parecia injusto acabar tão rápido. quando vou encontrar alguma história assim de novo? vou me perguntar sempre.

o grande caderno, primeiro volume, é a grande estrela pra mim. um livro que é um registro de tudo o que os gêmeos lucas e claus viveram após serem deixados na casa da avó para sobreviverem à guerra. e nesse grande caderno tudo vai ser escrito: os exercícios de resistência que os gêmeos resolvem fazer, os maus tratos, as coisas mais abomináveis que acontecem com as pessoas daquela cidadezinha.

os três são livros com uma escrita muito limpa. a ágota ainda diz no primeiro livro que tudo deveria ser registrado da forma mais fiel e sem sentimento nenhum. e é assim que os livros se desenvolvem. o primeiro livro é de uma apatia, de um gosto amargo, de uma frieza sem tamanho. nada se parece com esses livros. a falta é o que fascina na escrita da ágota. escrever simples, tão reduzido, é o charme e domínio da ágota.

quanto menos souber sobre esses livros, melhor. acho que a surpresa vai contar bastante pra história ficar mexendo em você. a trilogia dos gêmeos te cutuca, te faz lembrar do range da escrita, do inventar histórias para amenizar, para sobreviver. by @l1matheus
3
8 months ago
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entre várias consultas e exames de rotina que resolvi me dedicar nesse início do ano, acho que escolhi o livro certo em meio à espera num consultório médico. tédio terminal é quase essa espera: essa sensação de inquietação e de tédio e de ansiedade naquela brecha de tempo entre entrar para retirar sangue ou fazer uma tomografia. a izumi suzuki é singular em construir uma voz só dela. acho que ela se preocupava bastante em ter uma voz única. em ser uma figura única. mesmo hoje a gente a comparando com ottessa moshfegh, outras vozes da ficção científica, e eu lembrando muito da sayaka murata, ninguém escreveu um tédio terminal. voz singular. livro singular. um achado.

de início eu senti que estava lendo um querida konbini mais ácido, engraçado. acho que o livro começa bem forte na tentativa de romper com convenções sociais tradicionais do japão. izumi suzuki vai tão além nesse quesito. ela não vai falar disso baseada nas normas tradicionais. ela eleva o nível. ela brinca. ela subverte os papéis. foi um espanto ler Um mundo de mulheres com mulheres. como dizer que esse conto não é sobre nossas relações de hoje? ela escreveu isso na década de 70 ou 80 mesmo? adoro a sensação de ter lido um conto que poderia ter sido escrito ontem olhando para o mundo de hoje.

e quando eu acho que o primeiro conto é esse espanto todo, eu fico maluco por cada conto que vem a seguir: são esquisitos, anestésicos, com um humor tão específico. sinto que os contos caminham para um mesmo lugar e que o último conto, o nome da coletânea, conclui muito bem isso. tédio terminal é sobre o esgotamento, sobre o cansaço, sobre pessoas que estão cansadas demais para reagir. seja na terra, seja em qualquer lugar. izumi suzuki constrói apatia como ninguém. um livro de contos melancólicos, insossos, que podem não fazer sentido de imediato, mas que te absorve depois de um tempo. tá sendo assim comigo. by @l1matheus
3
9 months ago
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hamnet me deixou preso. fazia tempo que eu não lia um romance tão hermético, lento, sem pressa para ser construído. na capa, a gente já sabe: é a história de um luto. é uma história que a gente já conhece o final. tudo já predestinado. e, caraca, é um livro puramente bonito e tão singelo. acho que começar o ano com um baita livro assim é um presente.

agnes é a protagonista. mãe de susanna, judith e hamnet. bruxa, feiticeira, indomável. esposa do professor de latim, do tutor. e não dizer o nome dele em todo o livro deixa tudo mais bonito, não é? estamos falando de agnes. da sua angústia, do seu amor. do seu sofrimento que pula as páginas. difícil não ficar tomado com agnes e com sua tentativa de buscar, de tratar, de prever, de curar, de tentar, de salvar.

eu adoro livros devastadores. eu quero ver gotas de lágrimas nas páginas mais tristes. com hamnet, eu imaginava essa goteira. não aconteceu. mas isso não é uma coisa ruim. muito pelo contrário. maggie o’farrell é brilhante no controle. acho que ela sabe a dosagem certa. hamnet é de uma dormência. é um livro que vai fazer doer, só que a dor fica ali. ela não aumenta, ela não diminui. a dor só permanece.

e essa dor vai sumir? essa dor vai desaparecer em algum momento? como suportar, mensurar uma dor tão própria? a dor de perder um filho é uma dor diferente para agnes, para o pai, marido e professor de latim, para as irmãs susanna e judith (essa última, irmã gêmea, outra metade). as respostas podem ser diferentes para cada um. mas talvez uma das respostas esteja em cima dos palcos, na encenação, na arte de fingir. by @l1matheus
8
9 months ago
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melhor ano da minha vida? talvez possa ter sido. esse ano eu fiz coisas que eu não imaginaria ter feito anos antes. descobri coisas sobre mim que eu não sabia. e os livros estavam ali, pra que tudo fizesse sentido e eu não perdesse a cabeça. como eu disse nos meus favoritos de 2023: o objeto livro faz tudo parecer mais suportável.

o primeiro livro que eu li em 2025 foi o meu favorito do ano. a trilogia de copenhagen foi uma bomba-relógio em mim. voltar pra selin e svetlana, em ou-ou, e me pegar pensando se eu quero viver uma vida estética ou uma vida ética me faz ter a certeza: eu quero viver as duas coisas! depois de amada, de toni morrison, achava que nada me surpreenderia. me enganei. o olho mais azul é triste, visceral, de uma força sem tamanho. impossível não estar nessa lista. a escrita brutal, e que parece sempre em construção, inacabada, da ariel florencia richards, foi um presente. um mega obrigado pro maior clube do livro desse país: clube averno, do @jojoaaao. mau hábito mistura o fantástico e o medieval e constrói um romance único. como alguém consegue fazer isso num livro de estreia? em 2025, eu li, finalmente, quarto de despejo. um livro sobre a importância do registro. o livro mais importante do mundo. em 2025, eu me apaixonei. um luxo que eu não queria passar. annie ernaux me acalentou. me senti seguro com paixão simples. já disse: tudo da bernardine evaristo me conquista. sr. loverman é na dose certa. e 2025 foi uma grande festa. a festa de clarissa dalloway não poderia faltar. uma festa que escancara os nossos pensamentos mais sombrios.

segue aqui minha lista completa:
- trilogia de copenhagen, de tove ditlevsen
- ou-ou, de elif batuman
- o olho mais azul, de toni morrison
- inacabada, de ariel florencia richards
- mau hábito, de alana s. portero
- quarto de despejo, de carolina maria de jesus
- paixão simples, de annie ernaux
- sr. loverman, de bernardine evaristo
- mrs. dalloway, de virginia woolf by @l1matheus
11
10 months ago
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eu gosto de buscar refúgio na literatura. quando um autor conta histórias parecidas com as minhas me dá uma vontade de chorar. eu choro fácil. as pessoas sabem. mas esse choro é de conforto. de “puxa, eu não estou ficando maluco”. pessoas sentem coisas parecidas com as suas, e isso é um baita abraço. talvez não seja o mesmo sentimento, mas é parecido. encontrar esse refúgio já basta.

meu primeiro annie ernaux. por que eu demorei tanto pra ler ernaux? bom, eu tenho uma série de motivos. não achava que seriam histórias suficientes. os preços me dispersavam. sabia que iria ler em algum momento. chegou dezembro, e eu li. acho que alguns livros te chamam no momento certo. paixão simples foi assim. um susto. um assombro. mas também um abraço. um amigo que sabe toda a sua história.

eu acho paixão simples um livro de muita coragem. annie ernaux foi muito corajosa de se abrir e esmiuçar um sentimento de se sentir apaixonada. e ela não fica no raso. paixão dói. paixão te deixa aflito. obcecado. como ela consegue cutucar tanto esse sentimento? como ela consegue escrever os sintomas de estar se perdendo para algo que te tira de si?

um livro super rápido e acho que não poderia ter escolhido história melhor pra conhecer a vida de ernaux. um livro super rápido mas que te faz sentir inteiro. e vai doer mais com o tempo. uma escrita seca. dura. nada de poesia. nada de flores. paixão simples são pensamentos incabíveis de alguém que só queria ser vista, sentida, amada. e quem não quer viver esse luxo? by @l1matheus
7
10 months ago
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ava, irlandesa de vinte e poucos anos, professora de inglês para crianças em hong kong, precisa transitar entre o vocabulário básico, fonética e pronúncia e expressões idiomáticas britânicas. ava conhece julian, um banqueiro, mais velho, britânico. os dois acabam entrando numa relação complexa e sem termos. ava começa a morar com ele. julian não quer um namoro. nem ava. os dois acabam numa dinâmica de poder bastante silenciosa. ava parece se sentir só uma criança aprendendo o inglês britânico no ensino fundamental em hong kong: as palavras pareciam não fazer sentido quando saíam de sua boca.

esse livro me absorveu tanto. parecia que eu estava passando pelas mesmas situações de ava: obcecado, dividido, e tudo isso numa intensidade que eu nunca senti antes. acho que é curioso estar obcecado por alguém. ava parecia viver no automático antes de julian - uma relação ok e não tão próxima com sua família em dublin e sem se importar muito com seu trabalho. julian é uma figura que faz isso mudar. ava começa a tentar entender a complexidade daquela relação. o que os dois vão ganhar? o que eles são? são perguntas que ava sempre vai se perguntar. já julian não parece se importar com as respostas.

a naoise dolan constrói tudo de forma muito inteligente. ava é a melhor coisa desse livro. que personagem cheia de lados, ácida, amarga, engraçada. ela é cheia de pensamentos que poderiam ter sido feitos por mim, por você, por alguém na casa dos vinte. e a dolan não teve medo de fazer um livro bastante intrínseco. outro brilho é a tradução da bruna beber. que jeito bonito e cuidadoso de traduzir a freneticidade que é a ava e seu embate e questões com o inglês britânico.

edith entra na história. de hong kong, decidida, confiante, que fala o que sente. o triângulo se forma e ava começa a se questionar ainda mais: a obsessão e o poder com julian, a obsessão e o conforto com edith. ava aprofunda e leva isso pra um outro lugar. ela analisa, ela pensa, ela usa a linguagem para tentar achar algum significado e sentido naquelas relações. é sobre linguagem, sobre como somos políticos e que estamos sempre buscando entender quem somos, o que queremos. queremos tornar tudo tão interessante. by @l1matheus
10
10 months ago
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sou obcecado por livros do cotidiano, aqueles livros introspectivos que elevam as conversas para um outro patamar, que discutem o hoje sem floreios e não excluem os fatores externos. acho que o boom sally rooney me fez classificar esse tipo de leitura assim. mundo real é um desses livros. um livro cotidiano de um final de semana só. são quase 300 páginas de um final de semana frenético para wallace, protagonista desse livro. 

e que livro de estreia. mundo real, finalista do booker prize, com tradução do alexandre vidal porto, me lembra muitos outros favoritos. pra mim, a sensação de ler wallace, um jovem negro e queer, é quase como lembrar de jude, de uma vida pequena. um personagem que carrega tanta coisa e que acaba não soltando. que tenta fugir da violência do passado e que encontra no presente a possibilidade de esquecer. mas a violência não cessa. é impossível esquecer. 

é um final de semana que wallace vai passar com seus amigos, quase todos atléticos e brancos; no trabalho, em um laboratório, com seus experimentos arruinados; e um final de semana com os seus pensamentos e devaneios que vão e voltam pro passado, pro luto, para a vontade de fugir. 

conforme as páginas são viradas, o livro vai se afunilando. é um livro sufocante, de pequenas agressões, que são transformadas em páginas gráficas difíceis de ler. as últimas 100 páginas desse livro são surreais. impossível não se ver pensando que este é o mundo real. nada dali parecia ficção. by @l1matheus
3
a year ago
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a idiota, da elif batuman, me fascinou quando eu li. como ela conseguiu escrever um livro sobre o tormento de ser jovem e universitária e com tanta coisa pra se preocupar e pensar ao mesmo tempo? e eu faço a mesma pergunta quando ela intensifica isso em ou-ou.

li esse livro até que rapidamente. queria e podia ter demorado mais. ele é um livro-bagagem: aqueles livros que são cheios de referências e com assuntos diversos que vão desde O Acaso para Pensadores como walter benjamin, freud, andré breton até a uma análise entre amigos da música head over feet da alanis morissette. em a idiota essa forma de narrar a rotina de uma jovem no primeiro ano em harvard já era conhecido, mas pra mim, a elif vai muito mais profundo em ou-ou. 

acompanhamos a selin por mais um ano entre matérias e palestras e livros e amigos (te amo svetlana!), além da tentativa de superar e esquecer sua obsessão por ivan. se em a idiota, elif bebia de dostoiévski no título original, agora com a selin um pouco mais madura e experiente, abre-se uma discussão que vai e volta a todo tempo no livro: viver uma vida estética ou viver uma vida ética? é através do livro ou-ou, do dinamarquês søren kierkegaard que selin tenta buscar um sentido pra sua vida em meio aos sentimentos aflorados&esquisitos que parecem não amenizarem, pelo contrário, crescem cada vez mais.

selin se permite viver um pouco mais. ela viaja, ela vai para festas, ela conhece meninos, ela conhece a si mesma. ou-ou é sobre esses momentos de novas experiências e o embate entre o que é belo e o que é sólido. selin a todo momento vai buscar respostas pros acontecimentos da sua vida. e talvez a vida seja isso mesmo: uma busca nos livros, no cinema, na arte, pra justificarmos como somos. se somos éticos. ou se somos belos. ou se conseguimos um perfeito equilíbrio entre os dois.

livro lindo. ácido. engraçado. com uma escrita tão inteligente e rápida, brusca, que fascina. é meio que impossível não se apaixonar ou não querer virar amigo de selin, svetlana e da própria elif batuman. by @l1matheus
4
a year ago
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