Posted On: June 8th 2025, 09:00 pm
sou obcecado por livros do cotidiano, aqueles livros introspectivos que elevam as conversas para um outro patamar, que discutem o hoje sem floreios e não excluem os fatores externos. acho que o boom sally rooney me fez classificar esse tipo de leitura assim. mundo real é um desses livros. um livro cotidiano de um final de semana só. são quase 300 páginas de um final de semana frenético para wallace, protagonista desse livro.
e que livro de estreia. mundo real, finalista do booker prize, com tradução do alexandre vidal porto, me lembra muitos outros favoritos. pra mim, a sensação de ler wallace, um jovem negro e queer, é quase como lembrar de jude, de uma vida pequena. um personagem que carrega tanta coisa e que acaba não soltando. que tenta fugir da violência do passado e que encontra no presente a possibilidade de esquecer. mas a violência não cessa. é impossível esquecer.
é um final de semana que wallace vai passar com seus amigos, quase todos atléticos e brancos; no trabalho, em um laboratório, com seus experimentos arruinados; e um final de semana com os seus pensamentos e devaneios que vão e voltam pro passado, pro luto, para a vontade de fugir.
conforme as páginas são viradas, o livro vai se afunilando. é um livro sufocante, de pequenas agressões, que são transformadas em páginas gráficas difíceis de ler. as últimas 100 páginas desse livro são surreais. impossível não se ver pensando que este é o mundo real. nada dali parecia ficção.