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💬 “De memórias nos fazemos. E de livros também”
👨🏻 30 anos, jornalista
📚 Leituras recentes no destaque “comentários”
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Retorno à obra de Graciliano Ramos com “S. Bernardo”. Neste livro, num movimento semelhante ao de “Angústia”, que havia sido minha última leitura dele, encontramos um homem atormentado pelas lembranças e disposto a recontá-las. Trata-se de um influente proprietário de terras que passou da condição de oprimido para a de opressor e, a partir do registro memorialístico, reconstitui a própria vida desde o início da sua ascensão social até a ruína dos seus negócios e de suas relações próximas, sobretudo com Madalena, a esposa que não aceita ver a si mesma e aos trabalhadores como posses do marido.

Considerando que Paulo Honório é um homem rústico que nunca pegou em papel e caneta a não ser para cuidar de cifras e acordos e cuja consciência está tomada por culpas jamais pronunciáveis, Graciliano oferece uma escrita totalmente coerente com seu narrador-personagem. O que se encontra nestas páginas é um texto econômico, direto e sem floreios, uma vez que o protagonista não é um literato, e cheio de lacunas e lapsos intencionais em que o implícito impera, já que não está nos planos dele documentar todos os delitos, artimanhas e atitudes condenáveis que o tornaram um poderoso latifundiário.

Ainda assim, todas as críticas sociais que o autor imprimiu a este romance saltam aos olhos a partir das circunstâncias e dos personagens secundários, incluindo Madalena, que, na visão do marido, é capaz de influenciar as pessoas que o servem, comprometendo as relações de poder e subordinação que perpetuam seu domínio. Para Paulo Honório, quem o desafia é traidor, mas, num contexto de desmando, não são inimigos todos os que questionam a arbitrariedade, a violência e a supressão de direitos?

Curto, mas eficiente em seu propósito, este livro poderia apresentar o retrato de Paulo Honório pela voz de um personagem justo, mas o ponto forte do romance é colocar exatamente o tirano em confronto consigo mesmo. Assim como ocorre em “Angústia”, o relato do narrador de “S. Bernardo” demonstra que sempre chega o dia em que a memória, esta derradeira companhia, convida o homem para um prolongado acerto de contas. by @memorialdeumleitor
21
4 days ago
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Sempre que tiro um título de Guimarães Rosa da estante, é uma redescoberta. É como voltar a um território já visitado, neste caso o seu imenso e inesgotável sertão, mas ainda ciente da necessidade de avançar com paciência para se sentir novamente em terreno familiar. E o mais interessante de tudo é que, mesmo diante de um cenário conhecido, o autor nos prova que o seu tão explorado sertão nunca é igual.

“No Urubuquaquá, no Pinhém” é um dos três volumes desmembrados da coletânea “Corpo de baile” e traz dois contos e uma novela que continuam desbravando os amplos Gerais de Guimarães Rosa. Estas narrativas apontam para um tema em comum: o deslocamento de seus personagens em direção a um lugar em que possam conhecer a si próprios, apreender o sentido das coisas e encontrar o pertencimento que todos, cada um a seu modo, constantemente buscam.

Em “O recado do morro”, “Cara-de-bronze” e “A história de Lélio e Lina”, são apresentadas pessoas que cruzam chãos para descobrir que sua própria terra é capaz de anunciar profecias para protegê-las de perigos; que nenhuma vida é longa o suficiente para alcançar toda a vastidão da existência; e que o amor e a amizade podem surgir de forma inesperada e permitir que qualquer lugar, quando compartilhado, lembre um pouco como é se sentir em casa.

Neste livro, o leitor segue expandindo o seu olhar para incontáveis nomes de bichos, plantas e formas de expressar sentimentos humanos. A oralidade própria dos sertanejos retratados nas histórias é transportada com toda a sonoridade, riqueza e força para o papel, mostrando que, quando se trata de exprimir as sensações mais íntimas que nos movem e nos aproximam, a palavra acha o seu caminho. Como diz Rosalina no último texto: “Fala sem punir. O que existe na gente, existe nos outros”. by @memorialdeumleitor
50
17 days ago
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Tenho feito pequenas pausas entre um volume e outro da tetralogia napolitana de Elena Ferrante e, assim que decido pegar o livro seguinte, a sensação é de voltar a um universo em transformação, mas familiar. Isso se deve, claro, ao cuidado de autora em manter personagens que se modificam conforme a passagem do tempo e as circunstâncias, mas não se descaracterizam. Retornamos à Nápoles de Elena Ferrante para reencontrar personagens plenamente reconhecíveis.

É o que acontece em “História de quem foge e de quem fica”, que traz uma nova fase de Lila e Lenu, cujas vidas antes tão entrelaçadas atingem um ponto de cisão mais significativo. Na verdade, o leitor testemunha neste livro uma inversão de lugar entre as personagens, o que possibilita acompanhar como uma reage de maneira similar ou completamente distinta ao que a outra já viveu. Apesar de essas novas situações reconfigurarem sua posição no mundo, é possível enxergar em suas atitudes a essência de cada uma das meninas que a autora nos apresentou em “A amiga genial”.

Neste ponto, vem à tona a sagacidade do título desta sequência, pois de algum modo Lila e Lenu estão constantemente em processo de fuga e de retorno. Quem é a que foge e quem é a que fica? Impossível responder com certeza. Embora avancem em direções opostas, ambas permanecem na mesma órbita, num movimento circular que nunca as afasta completamente da origem e as mantém em rota de colisão com tudo de que tentam escapar ou de que não querem abrir mão. Isso faz com que tomem decisões desagradáveis em muitos momentos, mas o que eu considero fascinante nestes livros é que nenhuma delas é perfeita. São personagens em seu retrato bruto e sem suavizações.

Este é também o volume mais político da tetralogia. Embora desde o início o contexto social da Itália influencie diretamente a vida particular dos personagens, agora a maturidade do enredo se alinha a um adensamento de temas como feminismo, poder e autoridade e a opressão e a revolução da classe trabalhadora, evidenciando como a escolha de fugir ou de ficar também é refém das estruturas que nos regem. Como bem diz Lila: “Nas fábulas se age como se quer, na realidade se faz o que se pode”. by @memorialdeumleitor
65
a month ago
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Em “A leste do Éden”, John Steinbeck revisita o Gênesis para mostrar como duas das principais histórias da Bíblia foram construídas a partir de temas universais e que, com o passar dos séculos, continuaram a nortear a literatura: a culpa e o duelo entre o bem e o mal que coexistem em nós.

O livro entrelaça os dramas de duas famílias que, cada uma à sua maneira, tentam cultivar e povoar o seu próprio Éden na Terra, mas que, ao longo dos anos, constatam que nenhum paraíso está imune aos problemas mundanos, como o capital, a guerra e os conflitos entre os homens. Há os Hamilton, uma família quase perfeita, mas afetada pelas interferências externas, e os Trask, atormentados por um legado de rivalidade entre irmãos, num círculo vicioso que remonta ao mito de Caim e Abel. 

Sobre o “Éden” dos Trask, paira a sombra de Cathy Ames, uma das grandes personagens deste romance e que assume o papel simbólico da serpente bíblica. Steinbeck constrói uma figura pérfida e sem remissão que alude à velha ideia de que a mulher é a corruptora do homem, tão presente nas escrituras sagradas. Tudo o que acontece com os Trask a partir de então parece estar contaminado pela influência de Cathy, inclusive o futuro de seus filhos, Cal e Aron, que disputam o coração do pai.

“A leste do Éden” pode a princípio assustar o leitor com suas quase 700 páginas, mas elejo este como um dos romances capazes de tirar a capa de medo que reveste os clássicos. É uma história muito fluida e fácil de ler e acho que isso se deve ao fato de Steinbeck não tentar tornar sua prosa rebuscada. A complexidade não está no estilo, mas na força que move os personagens, interessados em confrontar suas próprias identidades e os sentimentos que os constituem.

Em dado momento, um dos personagens fala sobre a violência do Gênesis: “Se nos perturba, deve ser porque encontramos a perturbação em nós mesmos”. E, depois, é dito sobre a perenidade do mito: “Uma grande e duradoura história deve falar de todos, ou não será duradoura”. Acredito que “A leste do Éden” é exatamente o intento bem-sucedido de um autor explorando o que nos perturba em nós mesmos e, por isso, se tornou tão duradouro. by @memorialdeumleitor
78
2 months ago
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Meu objetivo era pegar “Em agosto nos vemos” apenas quando eu lesse tudo o que Gabriel García Márquez aceitou publicar em vida, mas então agosto chegou e senti vontade de ser óbvio. E que bom que o fiz. Mesmo tendo sido posto em descrédito pelo próprio Gabo, a essência da sua obra está presente neste livro, especialmente seu olhar apurado para a figura feminina, que aqui pulsa com a força que transformou muitas de suas personagens mulheres na espinha dorsal de suas narrativas.

Essa mesma força é exercida no romance por Ana Magdalena Bach, uma professora bem estabelecida que, todo mês de agosto, religiosamente deixa o conforto de sua casa e de seu casamento para viajar até a ilha onde a mãe determinou que fosse enterrada. O lugar contrasta violentamente com a ordem a que Ana Magdalena está habituada. E, pelo menos uma vez no ano, ela se permite esse desalinhamento, que se potencializa quando passa a noite com um amante.

A ilha se torna, portanto, esse espaço liminar em que uma mulher de meia-idade testa todas as suas convicções e descobre que a maturidade não é a linha de chegada para o seu gênero. Ana Magdalena passa a viver experiências que a levam a prazeres e dissabores e a conduzem por um caminho de conhecimento sobre seu próprio corpo e seus desejos, uma questão que, mais do que contemporânea, é atemporal.

Não entro aqui no mérito do que é moral ou não, porque a literatura do Gabo sempre se esquivou disso. A maior provocação do autor não é justificar os atos dessa mulher, mas demonstrar como, a partir deles, ela pode se enxergar de fora da própria ilha. “Em agosto nos vemos” não é um dos seus romances mais engenhosos ou bem-acabados, mas é belo justamente por ser o trabalho honesto de um escritor que, apesar da luta com a memória, fez perseverar seu talento de contar histórias sobre as desventuras humanas. by @memorialdeumleitor
72
2 months ago
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Eu não sou uma pessoa viajante, nem tenho grandes ambições de desbravar o mundo. Me sinto muito bem em minha casa e prezo pelos meus pequenos confortos, então eis o meu desconcerto em conhecer Tamara Klink, o meu completo oposto: uma desbravadora disposta a abrir mão dos seus pequenos confortos para não só experienciar o mundo, como também encontrar refúgios que a distanciem de tudo o que a vida urbana nos impõe: a pressa, a luta contra o tempo e a necessidade exaustiva de estarmos presentes e a par de tudo o tempo todo.

Em “Bom dia, inverno”, a navegadora narra os oito meses em que ficou isolada no Ártico por escolha própria, contando apenas com os poucos recursos que couberam em seu barco e impondo a si mesma uma solidão desejada. Nesse processo, usa as palavras para remover as sombras que os novos tempos lançaram sobre esse tema e que fazem parecer que estar sozinho é inadmissível. Também as usa para mostrar que não precisamos estar na Groenlândia para dar atenção às mudanças climáticas, ao consumo desenfreado e ao direito de mulheres navegarem, escreverem e serem livres.

Tamara foi bem longe e permaneceu sob condições extremas para se conectar com seu próprio corpo e a natureza, mas acho que este diário de bordo tão impressionante nos ensina que precisamos arranjar tempo aqui e agora para viver por nós mesmos, sem buscar validações constantes. Soa impossível, porém devemos manter isso em vista.

Não, eu não abandonaria meus pequenos confortos para viver sozinho no Ártico, mas que bom que este pequeno grande livro me deu uma vaga ideia de como seria. Talvez esse seja o grande presente desta leitura: me conectar, por meio da experiência de uma valente jovem de 27 anos, com a força da nossa espécie e exercitar a capacidade de não julgar o modo como cada pessoa escolhe viver. by @memorialdeumleitor
90
3 months ago
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Que sequência brilhante é “História do novo sobrenome”, de Elena Ferrante. Me impressionou como a autora mantém a unidade do enredo apresentado em “A amiga genial”, me passando a sensação de que nem cheguei a trocar de livro. Toda a força do enredo e a complexidade de seus personagens continuam numa crescente neste segundo volume, escalando e se expandindo sem nunca perder sua forma e seu sentido.

A relação dúbia entre Lila e Lenu, inclusive, fica ainda mais intrincada agora que as duas lidam com problemas que, não mais importantes que os da infância, carregam uma gravidade que de fato pode anulá-las enquanto mulheres. As duas colidem contra as armadilhas do casamento e das desigualdades e violências de gênero, tentando se manter equilibradas na corda bamba suspensa sobre o vazio da inexistência e da angústia de não serem vistas como pessoas autônomas e livres. É por isso que esta é a história de um novo sobrenome. Até a forma como nomeamos alguém pode ser limitante.

O mergulho no interior de duas mulheres tão multiformes é de encher os olhos. Elena Ferrante escancara Lenu e Lila até a medula, mostrando suas forças e até suas mesquinharias. É tão satisfatório amar e odiar as atitudes de ambas, torcer por elas em seus altos e lamentar pela situação delas em seus baixos. É também empolgante como, mesmo quando as decisões delas as repelem uma da outra, há um imã capaz de uni-las e comprovar como juntas são uma potência.

Não poderia deixar de enaltecer o grande elenco que Ferrante mantém ativo e relevante na história. Acho que um dos principais desafios de um escritor é garantir que todos os seus personagens não percam participação. E isso não é um problema aqui. Apesar da centralidade de Lila e Lenu, existe um cuidado de apontar a luz para tudo e todos que estão em volta. A Nápoles de Elena Ferrante é fascinante justamente porque revela um tecido social vivo e pulsante. by @memorialdeumleitor
79
3 months ago
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Eu costumo falar sobre os livros, mas chegou a hora de exaltar os personagens, que são as figuras que tornam as histórias possíveis.

Estes foram os que mais gostei de conhecer no primeiro quadrimestre de 2026.

Qual foi o seu personagem favorito neste período? by @memorialdeumleitor
67
6 months ago
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Decidi fazer essa loucura de tirar da estante todos os livros que li em 2025 e montar uma pilha para compartilhar aqui.

O resultado ficou bonito: 32 títulos me acompanharam de janeiro a dezembro. Cada um deles me proporcionou ótimos momentos e a certeza de que, enquanto eu estiver vivo, quero passar meus anos lendo.

Também incluí no carrossel as nove leituras que mais me agradaram. Para quem quiser conhecer todos os 32 livros, basta abrir o destaque “mensal 2025” no meu perfil.

Mal posso esperar para começar a erguer a pilha de 2026! by @memorialdeumleitor
150
10 months ago
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“Manuelzão e Miguilim” reforçou para mim que Guimarães Rosa elevou a literatura brasileira a um nível superior. Há entre autores formas similares de escrita, mas acredito que ele consolidou um estilo inimitável. Essa unicidade serviu para transformar os lugares mais remotos de seu próprio país em um universo infindável, onde a vida comum ganha contornos extraordinários e as experiências mais cotidianas e os sentimentos mais profundos não encontram barreiras para ser descritos, uma vez que, para Guimarães Rosa, nossa língua cuida de dizer tudo.

Este livro é composto por duas novelas. A primeira, “Campo Geral”, é uma das histórias mais bonitas que já li e me fez entender ainda mais o poder da literatura de emocionar e fazer sorrir ao mesmo tempo. Este é o relato sobre Miguilim, um menino que ama a vida e a teme na mesma medida. Sempre gostei de histórias centradas em crianças, mas sinto que finalmente li uma com o tom que esse tipo de narrativa exige. Há uma trama autêntica sobre o olhar inocente e astuto de um garoto diante das descobertas da infância, que o levam a amadurecer e tentar entender seu lugar no mundo. É um texto sensível e cheio de ternura, que me devolveu à minha própria infância e me despertou uma grande vontade de proteger Miguilim.

A segunda, “Uma estória de amor”, traz a perspectiva de um homem que caminha para a velhice e pondera suas perdas e ganhos num chão que não lhe pertence, mas que prosperou graças ao seu trabalho. Esta novela me permitiu refletir sobre como atravessamos a vida tentando feitos que carreguem nossa marca, embora tudo seja temporário e nada garantido; muitas vezes, o que nos resta são as histórias. Dos extremos da vida em que estão Manuelzão e Miguilim, esses textos se cruzam na abordagem da dualidade humana. Em meio ao adverso, o menino e o homem tentam se manter bons, íntegros, justos.

Repleto de descrições sublimes e imagens nostálgicas sobre a vida no campo, o contato com a natureza e a preservação das tradições, este livro me proporcionou uma das melhores leituras do ano e a certeza de que Guimarães Rosa é um dos rostos da literatura nacional, pois sua obra é um convite a um eterno retorno para casa. by @memorialdeumleitor
134
a year ago
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Eu poderia afirmar que “Adeus às armas” é uma história de amor em meio à guerra, mas isso seria simplificar demais o propósito de Ernest Hemingway com esta sua obra-prima. É mais justo dizer que se trata de uma história sobre a vida apesar da guerra e sobre os esforços para se manter humano diante de situações externas que fogem ao nosso controle.

Um conhecimento breve da biografia do Hemingway basta para perceber que há muito dele neste livro. É por isso que temos aqui uma narrativa tão dotada de sentimentos e verdade. Quem já leu algum título do autor sabe que ele tem uma escrita muito econômica e direta, que não faz rodeios nem se detém em enfeites, e seu grande trunfo está em mostrar como textos objetivos podem carregar tanta profundidade.

Antes de se estabelecer no meio literário, Hemingway serviu como voluntário durante a Primeira Guerra Mundial e testemunhou alguns dos horrores dela. O protagonista de “Adeus às armas” tem uma trajetória semelhante à do próprio escritor e me parece que este romance foi uma forma que Hemingway encontrou de pôr em palavras toda a crueldade daquele cenário, cujo desfecho só parecia atingível caso a pessoa quebrasse antes.

Para ilustrar como a guerra é capaz de dessensibilizar quem a vivencia, o romance traz em primeiro plano a história de amor do protagonista com uma enfermeira do hospital de combatentes. Há, com isso, uma tentativa clara de expor que, quando tudo ao redor suscita a apatia e a indiferença, alguns seres humanos ainda tentam se agarrar ao fio da esperança e da bondade. Entretanto, o autor recorre a uma visão mais realista do que otimista ao sugerir que nem toda fuga é possível.

“Adeus às armas” é certamente um dos mais belos romances que já li. Hemingway cria uma narrativa ora eletrizante, ora contemplativa, que penetra no âmago de questões humanas e políticas para nos fazer enxergar que, afinal, nada é justo no amor, na guerra e na vida. by @memorialdeumleitor
114
a year ago
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Enfim, fiz minha primeira incursão à literatura russa e, ironicamente, com um livro que trata justamente sobre o sentimento mais primordial da natureza humana e todo o turbilhão de transformações que ele causa em alguém quando descoberto na juventude.

Sempre ouvi falar da profundidade das obras russas e, embora “Primeiro amor”, de Ivan Turguêniev, traga um personagem principal com uma visão inocente e ilusória sobre se apaixonar, o autor não aborda o tema de modo superficial. Pelo contrário, há um mergulho integral na mente do personagem, cuja normalidade e ócio dos dias em uma casa de veraneio são completamente alterados com a chegada de uma nova moradora à casa dos fundos da propriedade.

Antes ocupado com leituras, passeios e a contemplação da natureza, o jovem é imobilizado pela paixão repentina e avassaladora e, com isso, temos vislumbres de toda a confusão interna que atravessa o personagem. Turguêniev consegue habilmente transmitir a insegurança e a inquietude que recaem sobre um adolescente nesta fase tão vulnerável da vida, inclusive demonstrando como, muitas vezes, a ânsia pelo amor cega um indivíduo em relação ao que se passa ao seu redor.

E a “cegueira” do protagonista desemboca em uma reviravolta que, para mim, foi bastante óbvia desde o primeiro indício. Eu não estava exatamente esperando ser surpreendido com a guinada do enredo, mas isso de modo algum estragou a minha experiência, porque entendi que o propósito do autor era justamente mostrar que, no caso do primeiro amor, uma pessoa nem sempre percebe as situações mais lógicas.

Por se tratar de uma narrativa breve, acredito que “Primeiro amor” pode ser uma ótima introdução para quem ainda não avançou pelo terreno da literatura russa. É rápida, de fácil compreensão e uma amostra singela, mas honesta, de toda a intensidade emocional que leitores normalmente atribuem aos textos russos. Além disso, essa novela confirma lições importantes, especialmente a de que nossas vivências, boas ou ruins, nos tiram a capa da inocência para nos dar uma defesa valiosa: a maturidade. by @memorialdeumleitor
180
a year ago
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