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A arte do vinil e suas reverberações poéticas.
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Curadoria @mt.r.b
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Em “Letrux como Mulher Girafa”, o universo dos animais não é só uma escolha estética. Vira uma forma de falar sobre desejo, sexo, relações e instinto sem precisar transformar tudo em discurso. A mulher-girafa é uma imagem estranha e ao mesmo tempo bastante humana. Alguém que não se encaixa, que carrega o próprio exagero e não parece disposta a diminuí-lo para caber em algum modelo. Letrux explora exatamente esse lugar, deixando que o projeto tenha suas esquisitices, seus excessos e suas mudanças de direção.

O corpo e o desejo aparecem sem muita preocupação em torná-los comportados. Existe humor, ironia e uma animalidade nas relações que as músicas descrevem. “Louva Deusa” é um bom exemplo disso ao usar o comportamento do inseto para falar de relações amorosas e sexuais. A graça está menos na metáfora em si do que na maneira como desloca situações bastante humanas para esse território instintivo. O amor deixa de ser tratado como uma experiência necessariamente elevada ou romântica e passa a conviver com atração, disputa, egoísmo, aproximação e rejeição.

A música acompanha sem ficar presa a fórmulas. Synth-pop, new wave, rock e psicodelia estão presentes misturados a momentos mais experimentais, criando um álbum que muda de textura. Nem todas as escolhas funcionam com a mesma força. Os interlúdios e intervenções ajudam a construir essa sensação de obra aberta, quase em processo, mas algumas vezes interrompem o ritmo das próprias canções. É um daqueles casos em que o excesso faz parte da personalidade do trabalho, embora nem sempre seja responsável pelas suas melhores passagens.

O álbum ganha força por não tentar transformar Letrux em uma artista previsível. Existem músicas pop sem preocupação evidente em deixá-las domesticadas; existe humor sem que tudo vire piada, sensualidade sem glamourização e experimentação sem abandonar completamente a canção. Algumas ideias poderiam encontrar um equilíbrio melhor dentro do conjunto. LETRUX COMO MULHER GIRAFA prefere ser estranho, sensual, engraçado e por vezes desconfortável a parecer simplesmente correto. taken in Aracaju by @memoriavinil
8
17 days ago
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O álbum Refavela (1977), de Gilberto Gil, aparece em um contexto de transformações culturais e políticas das décadas de 1960 e 1970, marcadas por movimentos como a contracultura, o black power e novas formas de expressão da juventude. Apresenta-se como parte da trilogia “Re” e reflete uma mudança no olhar do artista, se antes valorizava suas origens rurais, aqui passa a enfatizar a negritude e a experiência urbana, conectando-se com as lutas por reconhecimento da população negra nas grandes cidades.

Ao longo da obra, Gil mistura diversos ritmos de origem africana e da diáspora, como samba, baião, funk, soul, reggae e afrobeat, criando uma sonoridade híbrida que representa a vivência negra em diferentes partes do mundo. A combinação musical expressa a ideia do “Atlântico Negro”, conceito que entende a cultura afro como resultado das trocas entre África e Américas. Assim, a obra ultrapassa o campo musical e se afirma também como expressão política e cultural, questionando visões eurocêntricas e valorizando novas formas de identidade.

A inspiração para Refavela veio de uma viagem de Gilberto Gil à Nigéria, onde participou de um festival de culturas negras. A faixa-título funciona como um manifesto, abordando a realidade do negro nas cidades, especialmente o desejo de ascensão social e reconhecimento. As letras retratam uma juventude negra conectada tanto às raízes brasileiras quanto a influências internacionais, como o movimento Black Rio, construindo uma identidade ao mesmo tempo local e global.

Para concluir, o projeto propõe uma releitura da tradição e da identidade negra, vistas em constante transformação. Gil dialoga com o passado africano ao mesmo tempo em que cria algo novo, inserido na modernidade e na indústria cultural. Dessa forma, Refavela se consolida como um marco na música brasileira ao dar visibilidade à cultura negra e às suas transformações, contribuindo para um debate amplo sobre identidade, política e cultura no Brasil e no mundo. taken in Aracaju by @memoriavinil
16
a month ago
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Após oito anos sem um projeto de inéditas, o cantor, compositor e multi-instrumentista Rodrigo Amarante lançou, em 2021, pelo celebrado selo Polyvinyl Records, seu segundo álbum solo: Drama. Possivelmente o trabalho que melhor revele o eu-lírico observador do artista, aquele que parece olhar o mundo à distância para, pouco depois, descobrir que também está implicado nele.

Mergulhado em um universo particular, Amarante percorre memórias e afetos livremente. Saudade, solidão, amor, melancolia, alegria e liberdade despontam em estados que se atravessam, contradizem e coexistem. As canções se encadeiam como cenas de uma peça em que alguma coisa está sempre prestes a ruir, mas nunca sabemos exatamente o quê. O drama, aqui, acontece na consciência de estar vivo enquanto ganha forma. 

A narrativa de Drama abre espaço para nossas fantasias, desejos e contradições, sem exigir que a experiência humana seja reduzida a respostas. Existe uma dimensão do sentir em sua forma inteira, aceitando a alegria sem desconfiança, a tristeza sem vergonha, o amor sem garantias. Amarante transmite a ideia que a complexidade da existência não precisa ser resolvida para ser vivida.

Musicalmente, o álbum também se movimenta entre contrastes. Arranjos expansivos convivem com atmosferas mais densas, enquanto melodias, timbres e idiomas se deslocam de maneira quase imprevisível. Português e inglês aparecem embaralhados, às vezes como duas margens da mesma lembrança; em outros momentos, confundem-se dentro da própria canção. O experimentalismo nunca parece gratuito, cada desvio sonoro acrescenta uma camada àquilo que as palavras não conseguem dizer sozinhas.

Drama é, sobretudo, um projeto sobre percepção. Sobre a matéria vivida que persiste quando a experiência já passou, e ainda encontra algum lugar dentro de nós. Por isso sua escuta produz uma sensação difícil de nomear, não é exatamente uma fuga da realidade, e sim uma alteração temporária na maneira de enxergá-la.

Entre os destaques estão “Tara”, “Tanto”, “Maré”, “Um Milhão”, “I Can't Wait”, “Tão” e “Sky Beneath”. taken in Aracaju by @memoriavinil
12
a month ago
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Lançado em 1993, PARATODOS encontra Chico Buarque aos 49 anos, depois de um intervalo dedicado à literatura. O álbum traz a maturidade de uma trajetória consolidada, sem abandonar a abertura ao que ainda está por vir. Na faixa-título, Chico reconhece os músicos que ajudaram a formar sua escuta e transforma a própria memória musical em matéria de canção.

O título amplia o alcance do projeto. Chico aproxima grandes nomes da música brasileira de personagens anônimos, reunindo diferentes rostos, sotaques e experiências de um mesmo país. Entre delicadeza, ironia e melancolia, as canções visitam o Brasil sem a pretensão de explicá-lo.

A capa radicaliza a ideia de identidade. No centro, aparecem fotografias de Chico aos 17 anos, feitas para seu fichamento policial, em enquadramento frontal e de perfil, ao redor, uma multiplicidade de rostos anônimos. A referência ao retrato criminal é deslocada de sua função original e passa a integrar um mosaico de identidades brasileiras. O artista que um dia fora reduzido a um registro policial reaparece, décadas depois, inserido entre tantos outros rostos.

Entre tantas faces, o compositor também incorpora formas de permanência. Em “Futuros Amantes”, o amor sobrevive ao tempo, guardado para quem ainda nem chegou. Já “Piano na Mangueira”, com Tom Jobim, constrói um encontro entre duas gerações fundamentais. É um diálogo com a tradição sem se prender a ela, observando suas raízes e não almejando manter-se parado diante delas.

PARATODOS afirmou-se num Brasil ainda marcado pelas turbulências políticas do início dos anos 1990. Chico recusa transformar o álbum em discurso e prefere falar de memória, amor, música e passagem do tempo, ainda que também aborde a desigualdade. É uma obra sobre pertencimento, movimento e herança. Revisita o passado sem se submeter à sua perpetuação, reconhecendo nele a origem e preservando a autonomia do presente. taken in Aracaju, Brazil by @memoriavinil
10
a month ago
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“Grávido”, lançado em 1984 pela EMI/ODEON, ganha um significado especial neste Dia dos Pais. O título carrega uma metáfora sobre uma experiência que os homens pouco compreendem, a possibilidade de também gestar, ainda que não biologicamente. Gestar um filho pode ser carregar expectativas, medos, sonhos, responsabilidades e, sobretudo, um futuro que ainda não nasceu. Ser pai também é criar, esperar, cuidar e aprender a conviver com aquilo que passa a existir dentro. 

Gonzaguinha, marcado desde cedo pela experiência de ser filho, transforma em canção a ideia de que há coisas que um homem pode carregar no peito antes mesmo de poder segurá-las nos braços. A leitura ganha ainda mais força quando lembramos que o próprio Gonzaguinha viveu uma infância atravessada pela ausência e pela complexa relação com L. Gonzaga, após a morte de sua mãe, aos dois anos, foi criado por um casal de amigos, enquanto o pai mantinha contato à distância.

Existe, nesse sentido, algo em Grávido que ultrapassa a experiência da paternidade. Um filho não chega apenas ao mundo, inaugura um mundo dentro de quem o espera. Antes do nascimento, já existem perguntas, receios, expectativas e uma responsabilidade diante de um futuro que ainda não pode ser conhecido. O álbum parece partir desse lugar, o da espera como experiência transformadora. A paternidade começa antes do primeiro encontro, no momento em que alguém passa a ocupar um espaço dentro de nós que ainda não sabemos exatamente como preencher. Gonzaguinha conheceu, como filho, tanto a falta quanto a possibilidade de reconstruir um vínculo. Anos depois das rupturas, pai e filho se reaproximaram, compuseram juntos, gravaram e chegaram a dividir uma turnê.

Portanto, o que prevalece é a dimensão humana nessa obra. A paternidade não aparece como uma condição idealizada ou simples, mas como uma experiência permeada por afetos, conflitos, ausências, aproximações e “escolhas”. Gonzaguinha conheceu o pai como filho antes de conhecer a possibilidade de construir, ele próprio, outras formas de ser pai. A experiência que torna sua obra sensível às relações humanas. Amar alguém não significa saber exatamente como amá-lo,... 

(Continua nos comentários) taken in Aracaju by @memoriavinil
11
2 months ago
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Sérgio Sampaio é um dos gênios incompreendidos da MPB. Não alcançou em vida o reconhecimento que sua obra merecia, mas, ano após ano, suas canções vêm sendo revisitadas, redescobertas e reverenciadas por milhares de pessoas.

No início dos anos 70, o compositor integrou, ao lado dos amigos Raul Seixas, Edy Star e Míriam Batucada, um dos álbuns mais emblemáticos e singulares da música brasileira: o fantástico “Sociedade Kavernista Apresenta Sessão das 10”.

Em 1972, no VII Festival Internacional da Canção, Sampaio flertou com o estrelato ao defender “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. Embora não tenha vencido o festival, a canção entrou para o compacto do FIC, que ultrapassou a marca de 500 mil cópias vendidas e transformou a composição em um verdadeiro hino de resistência e um dos grandes símbolos do carnaval brasileiro.

No mesmo ano, com o auxílio de Raul Seixas, que à época trabalhava como produtor na Philips, Sampaio gravou seu primeiro disco solo. Lançado em 1973, pela Philips, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” contou com a participação de músicos de peso, como Alex Malheiros, Zé Roberto, Renato Piau, Wilson das Neves e Ivan Conti, além da produção de Raulzito.

Apesar da repercussão da canção-título e de faixas como “Odete” e “Cala a Boca, Zebedeu”, que chegaram às rádios, o LP não alcançou o sucesso comercial esperado, vendendo aproximadamente 5 mil cópias.

O desempenho modesto nas vendas, somado às constantes divergências com executivos da indústria fonográfica, sobretudo por seu estilo poético, profundo e vanguardista, que transitava livremente entre o samba, o choro e o blues, contribuiu para que o artista recebesse o rótulo de “Maldito da MPB”.

Mesmo diante das pressões do mercado, Sérgio não abriu mão de seus princípios. Entrou para o seleto grupo de compositores que se recusaram a sacrificar a criação em troca de prestígio, fama ou dinheiro. Nunca submeteu sua arte às chamadas “glórias” da carreira.

Sérgio Sampaio fez o caminho inverso, preferiu permanecer fiel àquilo que tinha a dizer. E foi nessa liberdade que construiu uma obra visceral, singular e profunda. Sem concessões, sem máscaras e sem pedir licença.

Bendito seja o maldito. taken in condomínio San Francisco by @memoriavinil
27
2 months ago
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A música brasileira de meados dos anos 80 é marcada pela modinha "New Wave", com uma estética colorida, alegre e abusando dos sintetizadores, o movimento penetrou em quase todas as camadas culturais. É neste ambiente cafona (risos) que Gal Costa tornou-se protagonista e dama maior da MPB, apresentando o mitológico "Profana", que ditaria os rumos da música popular dos idos de 80 e 90. 

Lançado em 1984 pela RCA (Sony Music), "Profana" transborda jovialidade com pitadas 'tropicalistas'. Produzido espelhado na trajetória da cantora, porém enquadrando-se às características da época, a obra transita entre o pop, rock, marchinhas carnavalescas, forró e música romântica. 

A habilidade de Gal Costa mover-se por diferentes vertentes músicais é gritante neste trabalho. É perceptível em cada uma das faixas como a artista abraça a sonoridade; adaptando-se, mas sem perder a sua identidade intensa e genuína. 

Apesar de ter sido lançado em uma década de canções datadas, o projeto permanece significativo e elegante, revelando a plurivalência e arte duradora dessa fenomenal cantora. Com sua voz extraordinariamente afinada e interpretação única, Gal causa comoção nos ouvintes, deixando uma herança sentimental indestrutível. 

"Profona" é um álbum atemporal, que atravessou o fim do inferno (ditadura militar) tocando o coração dos fãs e provocando os críticos no confronto a moral e ditos bons costumes defendidos por uma sociedade doentia e viúva de milico

Destaque para as faixas "Vaca Profana" (Caetano Veloso), "Chuva de Prata" (Ed Wilson e Ronaldo Bastos), "De Volta ao Começo (Gonzaguinha), "Cabeça Feita" (Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista da Silva), "Nada Mais" (Lately) (Stevie Wonder - versão de Ronaldo Bastos) e "O Revólver do Meu Sonho" (Waly Salomão, Roberto Frejat e Gilberto Gil). 

Modelo da foto: @illyleal

#galcosta #rca #sonymusic #profana #memoriavinil #newwave taken in Aracaju, Brazil by @memoriavinil
54
3 years ago
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Hoje é aniversário de Caetano Veloso, o leonino de brilho próprio, que parece carregar no jeito de criar a mesma força solar de seu signo. INTENSO, INVENTIVO, INQUIETO e naturalmente destinado a ocupar espaço. Não existe forma melhor de celebrar o artista do que revisitando uma de suas obras mais singulares.

"Jóia", lançado paralelamente com o "Qualquer Coisa" em 1975 pela Polygram/Universal Music, é um álbum fundamental da icônica discografia de Caê, é corriqueiramente destacado como uma das suas melhores obras. Sobretudo, quando analisado do ponto de vista da "experimentação" e da "inovação". Apresentando uma linguagem moderna no que tange à música brasileira, adicionando influências do samba, rock, música regional e temperos da música internacional setentista, o projeto consolida o espaço do artista no cenário da música popular.

A capa é claramente influenciada pelo álbum "Two Virgins" (1968), de John Lennon e Yoko Ono. Assim como a inspiração, causou um rebuliço tremendo. Inclusive, foi censurado por nudez. A imagem do Caê, junto com sua esposa na época, "Dedé", e seu filho "Moreno Veloso" desagradou os milicos, que ordenaram o recolhimento dos discos e ameaçaram retirar a guarda de Moreno. A gravadora, comandada por André Midani, juntamente com o cantor, modificaram a capa, deixando-a apenas branca e com os pássaros espalhados.

Apesar das polêmicas descabidas, "Jóia" é um símbolo da música brasileira, digna de reverência por sua sonoridade lapidada e diversificada, e letras que criam imagens e sensações transcendentais, peculiaridade acentuada de Caetano Veloso como compositor. Poucos artistas têm a capacidade de aglutinar influências da cultura tupiniquim com experimentações melódicas, originando canções sublimes e inventivas.

Destaque p/ as faixas que personificam a sensibilidade artística do Caetano como compositor e intérprete: "Minha Mulher", "Canto do Povo de Algum Lugar", "Lua, Lua, Lua, Lua", "Pipoca Moderna", "Help" e "Na Asa do Vento".

Obs: Na lista dos 100 maiores discos nacionais de todos os tempos feita pela revista Rolling Stone, "Jóia" aparece na fantástica 84° posição. taken in Havaizinho by @memoriavinil
20
2 months ago
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“Quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente.” Hoje fevereiro chega, e a frase deixa de ser verso para virar estado. “De Outra Maneira”(1986), nasce desse entendimento: sentir não é fraqueza, é consciência. É também o momento em que Geraldo Azevedo assume de vez o próprio caminho, cria o próprio selo e passa a responder menos às engrenagens da indústria e mais ao ritmo das canções. Um álbum feito sem pressa, sem mediação, deixando que a música converse diretamente com o tempo e com quem escuta.

É a partir desse estado, em que sentir deixa de ser fragilidade e passa a ser escolha, que o álbum avança com clareza e solidez, com emoção e pensamento no mesmo passo. Os arranjos são contemplativos, o violão sustenta sem excessos, a voz nunca força a intensidade, é intensa por natureza. Nada sobra, nada desvia. O prazer aparece como princípio, não como fuga; o afeto, no sentido de afetação, como algo que reorganiza o mundo por dentro. As canções parecem conhecer exatamente o espaço que ocupam, lapidadas até chegar ao núcleo do que a música pede.

Desse lugar em que o sensível ganha atenção surgiram canções que atravessaram décadas sem perder força. “Dona da Minha Cabeça” transforma o desejo em eixo, um amor que domina o pensamento e, ao mesmo tempo, oferece chão, beleza como força capaz de firmar o que é instável. “O Princípio do Prazer” escolhe o agora como exercício de lucidez, recusando o peso do passado e afirmando a alegria como necessidade vital, canção que ganhou outras vozes, mas nunca perdeu a origem. “Chorando e Cantando” aceita a contradição como modo de existir, riso e lágrima convivendo sem atrito, amor entendido como experiência inteira, capaz de iluminar e desorganizar na mesma medida.

Fevereiro começa assim, não como promessa, mas como alento. Um mês curto, intenso, feito de calor, corpo e rua. A saudade já não mata porque encontra som, gente, movimento. “De Outra Maneira” se aproxima desse tempo sem tentar organizar nada, sem impor resposta ou consolo. Apenas acompanha. Um repertório construído para durar (e durou), dizendo algo que continua fazendo sentido a cada nova escuta, enquanto o ano ganha ritmo, chorando e cantando, de outra maneira. taken in Garrido Galeria by @memoriavinil
91
9 months ago
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Hoje, segunda-feira de Carnaval, o primeiro álbum do "BaianaSystem", lançado em 2010, aparece como um primeiro sopro de uma banda ainda se descobrindo, mas inquieta e vibrante. Desde as primeiras notas, parece que a guitarra baiana de Roberto Barreto, combinada às batidas e linhas rítmicas criadas por Marcelo Seko e às bases e mixagens de João Meirelles, rompe barreiras invisíveis, dançando entre ritmos jamaicanos, dub e tradições brasileiras, deixando perceber que a música é um território onde o inesperado pode se tornar natural. Russo Passapusso, com sua voz marcada pelo diálogo com tradições urbanas, traz texturas únicas às letras e melodias. Sente-se uma espontaneidade delicada nesse encontro de sons, um desejo de experimentar que simultaneamente é ousado e sincero, como se dissesse ao mundo que reinventar o que conhecemos como música é apenas o começo, e isso já pode ser percebido em faixas como “Nesse Mundo”.

O álbum carrega o frescor da rua, da cidade, da festa e da memória coletiva. Por entre as melodias, tem início um percurso pelas ladeiras de Salvador, conversando com o cotidiano, com a festa, com as vozes que se misturam. Participações de Chico Corrêa, Lucas Santtana, Gerônimo, Roberto Mendes, Buguinha Dub e BNegão flutuam como mensagens de um diálogo urbano e ancestral, compondo um mosaico sonoro que convoca a se perder na roda invisível da música. A presença ritmada reside na cidade, que se sente no corpo e na imaginação, repercutindo o embalo das vozes e percussões que tornam cada faixa um ponto de encontro entre herança cultural e concepção.

E, ainda assim, existem imperfeições, momentos em que a produção parece crua, onde a irregularidade se mistura à criação. Mas é justamente nesse espaço inacabado que aflora a beleza. O álbum respira como uma banda em descoberta, aprendendo a falar sua própria língua, e é essa sinceridade artística que importa. Não é sobre polidez ou acabamento; é sobre presença, sobre a música sendo feita enquanto ainda se molda, viva e vulnerável, dando a impressão de esculpir sua identidade no ar, camada por camada.

Continua nos comentários... taken in Salvador, Bahia by @memoriavinil
15
8 months ago
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No fim da década de 1970, quando a disco music incendiava pistas ao redor do mundo e transformava a dança em linguagem universal, o Brasil também se deixava invadir por aquele brilho noturno de luzes, metais e groove. Era um tempo em que a música parecia reverberar no ritmo das cidades, e, em meio a esse cenário vibrante, Tim Maia iniciava uma das fases mais ousadas e luminosas de sua trajetória artística.

Ao assinar contrato com a Warner Music Group, recém-instalada no Brasil sob a direção visionária de André Midani, Tim era lançado a uma nova fronteira estética. Enquanto o mundo sucumbia ao fascínio febril da disco music, reconhecia naquele universo algo que sempre lhe pertenceu, o ritmo do soul, o corpo do funk e a liberdade negra inscrita no movimento. 

Tim Maia não aderiu à disco por tendência. Reencontrou nela uma linguagem familiar. Sua música sempre carregava o peso do groove e a vertigem do balanço; agora, tudo ganhava contornos cintilantes, urbanos e expansivos. As canções passam a refletir o brilho das pistas de dança, sem perder a densidade emocional que fazia de sua voz um acontecimento.

Para conceber Tim Maia Disco Club, lançado em 1978, Tim reuniu uma constelação rara de músicos e criadores. A presença da lendária Banda Black Rio ajudava a fundir a sofisticação do jazz-funk com a alma brasileira das periferias. Ao seu redor estavam nomes como Hyldon, dono de melodias que pareciam nascer do asfalto molhado das madrugadas; Pepeu Gomes, fazendo a guitarra dançar entre o delírio e a precisão; e os arquitetos sonoros Lincoln Olivetti e Robson Jorge, responsáveis por erguer arranjos que respiravam modernidade sem perder calor humano.

Os arranjos elaborados entre o maestro uruguaio Miguel Cidras e Lincoln Olivetti transformaram o disco em uma experiência cinematográfica. Sopros riscavam o ar sob luzes difusas de fumaça e néon; linhas de baixo deslizavam em elegância hipnótica e, acima de tudo, permanecia aquela voz, grave, intensa, excessivamente humana, conduzindo às canções na intensidade de um pregador do prazer e da melancolia.

#timmaia #revistanoize #discoécultura taken in Aracaju by @memoriavinil
10
5 months ago
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O álbum “Cruel”, lançado em 2006, nasceu do desejo de manter viva a obra de Sérgio Sampaio. Anos após a morte do compositor, em 1994, amigos e admiradores decidiram reunir fragmentos de canções que haviam ficado pelo caminho, recuperando ideias e registros dispersos de um processo criativo interrompido. Entre os que se dedicaram à reconstrução desse material, destacou-se "Zeca Baleiro", ajudando a devolver corpo e respiração a melodias que sobreviviam apenas em gravações simples e esboços. 

Nos últimos anos de vida, Sérgio Sampaio vivia um período de reorganização pessoal e também de renovação criativa. Após afirmar que havia deixado o álcool, voltou a se dedicar com mais disciplina à própria produção musical, revisitando composições e escrevendo novas canções. A intenção era montar um novo projeto, que já ganhava contornos claros. Entre músicas reunidas naquele período, começava a se organizar o repertório de um novo trabalho.

A origem de parte dessas gravações remonta a um episódio pouco conhecido da trajetória de Sérgio Sampaio em Salvador. No início dos anos 1990, vivendo na cidade a convite do amigo e parceiro Xangai, o compositor buscava registrar novas canções para apresentar às gravadoras. Foi nesse contexto que chegou ao Estúdio Dória, instalado no andar superior de uma loja no bairro da Liberdade. Acompanhado apenas do violão, o artista registrou uma série de músicas em gravações feitas de maneira despojada. Antes de cada tomada, ditava o nome das canções, deixando nas fitas o registro direto.

Longe de qualquer acabamento grandioso, Sampaio aparece sem proteção, apoiado apenas na voz e no violão. Não há tentativa de polimento, nem preocupação em transformar canções em produto final. O que se escuta é um compositor diante da palavra, lidando com ironia, desencanto, ternura e delírio com a mesma liberdade com que sempre habitou a música brasileira.

Destaque para faixas como “Em Nome de Deus”, “Uma Quase Mulher”, “Pavio do Destino”, “Brasília”, “Polícia Bandido Cachorro Dentista”,“Maiúscula”, “Roda Morta”, “Magia Pura” e “Quem É do Amor”, além da própria faixa-título, “Cruel”.

#Sérgiosampaio #Cruel #zecabaleiro #mpb taken in Aracaju by @memoriavinil
35
3 months ago
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