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miolos de pote — palavra encruzada — poesia
pra rasgar o esquecimento
por @belsrochas
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conversamos hoje cedo. 
sabe que eu tenho te contado, te chamado [mesmo em sonho], te revisitado em poesia. suas mãozinhas pequenas, pretas. o zoin riscado. os desenhos coloridos na pasta que ficou guardada com vovó, em alguma sacola de plástico. 

a quantidade de pergunta sobre tudo. 

tenho nos contado pra seguir na nossa viagem de enraizamento, de conexão com a palavra, com a pele, com os traços. os nossos, das nossas. 

já fomos um bucado.
o sonho continua,
nós também. taken in Vila Estevão by @miolosdepote
6
24 days ago
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eu e tia marina na frente da casa de lolô. 
mulher—mestra da palha, do labirinto. herdou esses saberes com os fios da minha bisa paterna, também fazedeira de bolsa de palha. tia marina faz aniversário em setembro, 83 anos já. diz que é a filha mais moça da bisa. 

tava sentada vendo o tempo de chuva [que caiu dali um pouco], em silêncio. sempre. 

é bom voltar pra casa e encontrar minhas mais velhas. bença, tia! taken in Vila Estevão by @miolosdepote
7
7 months ago
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tenho pra mim que o rezo cochichado trouxe a gente até aqui. aquele que o sopro das palavras ditas faz um som quase de onda mansa, de manhã cedo. era assim que vó anália rezava em mim. nos dias de lua, ela dizia pra mamãe que se não rezasse, ia pegar quebranto. diz que era por ser uma criança bonita, saudável, feliz. 

quando tava reclamando da dor enquanto gingava, lembrei do rezo de vó anália, dos raminhos de pião roxo, do pé de pitanga, da água do pote que tinha lá. as folhas molhadas pingavam assim no corpo, como se fossem as palavras bendizendo e pulando dela pra mim. dava sempre umas risadinhas antes de me envolver naquele cochichado todo. 

tô retomando a minha relação com o chão junto da capoeira angola. sentar baixo, deixar a mão inteira, o pé firme, a cabeça também — principalmente ela — pra sair das ideia que tudo só acontece em cima, que tudo só é dos ombros pra riba, que pensar é só força de trabalho capitalizado. e mais que bonito, tá sendo dolorido rasgar esse tecido que, há anos, me veste [e aperta]. a roupagem da performance, da perfeição, da dureza, da agonia com o tempo… e nem lembrar direito como era mesmo o rezo baixo que vovó fazia na gente… como era mesmo que a gente andava a vila de cabo a rabo e nem se lembra das brincadeira nossa de criança… qual era mesmo a imagem que eu sonhava toda vez que ia dormir? 

e toda vez que me vejo acorrentado demais com as artimanhas coloniais, é pro chão que eu retorno. é pro miúdo, pro simples. como sempre foi, desde que nem consigo me lembrar. foi assim que a gente chegou até aqui, que os segredos chegaram aos meus e teus ouvidos. foi assim que o encanto nunca se quebrou. 

entre retomadas, resistências e reencantamentos, é lembrar que carregamos no peito as rezas e a profundezas do mar aqui junto da gente. seria maldizer o tempo se não lembrasse. malquerer a continuação desses sonhos que vivem nos nossos corpos. 

foi assim que eu aprendi vendo vó anália fazer. 

eu era criança, mas meu corpo lembra. by @miolosdepote
17
a year ago
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tem uma doçura que mora no olhar desse vô que me emociona. algo dentro desse brilho todo disse um tanto pra mim. daqui de onde eu vi, era muito coração nesse gesto. uma saudade antiga. muita história pra contar e cantar pra são benedito, pedindo licença pra entrar e rezar pro anjo da guarda abrir caminhos. 

“ô, meu anjo da guarda, abre os caminho pra eu.”

as congadas guardam nossos segredos e bonitos há muitos anos. que presente é estar livre pra viver essas encanteza tão de perto. 

::::::::

nunca fui da igreja, de um deus só. eu fazia companhia pra vovó mas ficava a reza inteira brincando na calçada da igrejinha branca com azul de frente pro mar — lembro que era de são sebastião — da missa toda, só gostava de escutar as mais velhas cantando. sempre gostei. e vovó ficava cantando sem nem sair a voz, era só mexendo a boca assim. rezava baixinho, como se fosse um jeito de cochichar os pedidos e os axé do jeito próprio, no volume dos anjos. 

a festa de são benedito me lembrou de cochichar minhas rezas de saudade pra vovó, no ritmo de dentro. do jeito próprio que aprendi vendo ela fazer. 

saudade muita, vó. taken in Machado - Minas Gerais - Brazil by @miolosdepote
0
a year ago
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dia desses achei esse zine impresso durante a residência artística que fiz na casa do povo — em são paulo. com a mesma frase que escrevi no meu bloco de notas quatro anos atrás, no ceará ainda. 

curioso que nesse tempo passado eu nem sabia o que era zine, quanto mais que essa frase já vivia em algum lugar, em outra pessoa que eu nem sei o nome. 

aqui estamos: [nos] fazendo existir a escrita. 

//\\
escrever pra existir. 
escrever pra lembrar. 

[lembrar é reexistir em outro tempo—espaço, não acha?]

::::::: acender a fogueirinha da memória
pra alumiar as travessias. by @miolosdepote
0
a year ago
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hoje peguei minha redinha na mão. 
comecei a fazer ela em 2023 com tio luciano, quando fui visitar vovó e toda minha família lá em casa. era assim: todo dia, titio me esperava na varanda, quinze pras quatro, e eu andava pra chegar, de casa pra lá, uns oito passos. 

essa agulha foi ele que fez e me deu de presente. 

era um sonho meu, de criança, aprender a fazer rede de pescar. pra mergulhar a agulha assim, puxar o corpo todo pra trás e acochar o nó. sempre vi titio fazendo e remendando as redes na varanda - às vezes era na varanda da escola que ele aproveitava a sombra pra costurar também. passava a tarde todinha naquele gesto. costurando em silêncio. 

e dessa vez que fui pra casa, botei na lista que queria dedicar meu tempo a esse encontro com tio luciano. queria aprender a costurar com quem sabe e tem as manha. 

meu bisa ensinou pra ele, ele me ensinou. 

hoje quis lembrar esse gesto aqui, miúdo, que é capaz de construir uma rede bem grandona. 

quis lembrar do gesto que cultiva a miudeza,
que cultiva o tempo de antigamente aqui dentro. 

me convidando a ficar no silêncio, a cuidar das minhas mãos, a perceber se num tô com tensão demais nos ombros, se num tô dando nó muito frouxo… se num tô aperreada demais com as coisas grandes tão grandes de fora, sem conseguir segurar com delicadeza as coisas amenas daqui de dentro… 

porque vô manoel e tio luciano me contaram e eu quero sempre lembrar: aprender com o pequeno também é gesto de grandeza. taken in Vila Estevão by @miolosdepote
16
2 years ago
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outra vez tava acompanhando uma criança no jardim da escola num dia debaixo de sol, usando um avental sujo de barro e de mãos dadas com ela quando, em algum momento que eu não lembro qual, me chega uma mãozinha com um raminho de manjericão e alecrim amassados. os dois bem juntinhos na ponta daqueles dedos pequenos. o cheiro da erva macerada nos envolvia. o sol por ali, o cheiro daqui, a criança diz: é pra você mastigar e engolir. “deixa a língua engraçada” . mastiguei, engoli, sorri. tinha mesmo uma graça nesse gesto. seguimos a caminhada na caça de centopeias. 

segundas me lembram de passear com a pisada firme no chão. um punhado de manjericão, guiné, alecrim numa mão; firmeza na outra. 

seguimos. by @miolosdepote
1
2 years ago
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[…] desde pequena, mamãe compartilhava o desafio que era completar a mensalidade da escola e como era foda acolher nosso desejo de tomar suco de uva enquanto a culpa da mãe-preta-solo-que-quer-respirar-tranquila-no-fim-de-semana a consumia. “mas ainda falta a batalha de fechar a mensalidade da escola” – sempre faltava. cresci sabendo das dificuldades, das ausências. e da promessa.
_________ 

escrevi no medium pela primeira vez, vem me ler?
é o link da bio (: by @miolosdepote
19
3 years ago
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lembro do meu ori arrepiar inteiro quando abracei a geração-avó que nêgo bispo manifesta. lembro de pedir sua bença e ele dizer: “que pai oxalá te abençoe”. lembro da sua fala sobre voltar pra casa, voltar pra terra, voltar pro rio e ser compromissado com nossas raizes, com quem veio antes. 

o embalo desse corpo-quilombola é sopro (y ventania) de vida. 

salve sua força,
que mamãe oxum te acolha na
confluência do rio imenso que tu é. 

vivas, vivas! 

🤎

[registro de amor que ana fez] by @miolosdepote
2
3 years ago
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[tempo, vazios e espera]

o tempo de nanã me permite inventar novas rotas de f̶u̶g̶a̶ permanência. 

me permite pisar manso na lama, no barro, no lodo que se revela a medida que eu também. 

permanecer 
e envolver o 
corpo de terra. 

“enquanto tu num vinha, finalizei o vestido da minha fadinha anciã” - eu disse. 

mil buracos e fissuras pra deixar o tempo me mostrar onde aperta, onde tá seco. é nesses gestos que descubro onde quero me demorar

tava feliz mesmo. brincar com o tempo fazendo manto com as mãos. 

era sábado à tarde, 
e eu me sentia completamente
inundada. 

saluba, 🪹 by @miolosdepote
0
3 years ago
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voltar pra casa.
fluir com as águas.
despertar com o sol.
lembrar do que nos guia.
pés no chão.
olhos abertos.
recomeços. 

encerrando ciclos com essa imagem: caminhando pelas minhas fissuras, que é por onde a luz entra. com gentileza. 

lembrar das imagens que me deixam pertencer. 

feliz ano novo. 

[vídeo de um amanhecer na vila, é uma lembrança] by @miolosdepote
2
4 years ago
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um registro raro do meu bisa e do meu avô juntos. 

ao centro é meu bisavô, vovô Tonha, pai da minha avó materna. tenho vagas lembranças daqueles olhos verdes, sempre acocado tratando peixe e dizendo “- ai, Tonha!”. era manauara. 
no lado direito tá meu avô Dedé, pai do meu pai, que não tive chance de conhecer, mas sempre ouvi que era um cara muito boa pinta - “que só andava cheiroso e muito bem vestido”

essa foto é um recorte de cena do filme Bela Donna, de 1998. 
sim, ainda foram atores. by @miolosdepote
5
7 years ago
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